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Pesca artesanal no rio Negro (AM) garante renda para ribeirinhos

Tradição pesqueira garante alimento e renda para  mais de 80 mil ribeirinhos 22/05/2012 às 16:01
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Mais de 80 mil ribeiros vivem da pesca no rio Negro
Jamilsa Melo Manaus

Gigante pela própria natureza, o internacional Rio Negro que nasce na Colômbia, possui 1700 km de comprimento e é considerado o rio de águas escuras mais extenso do mundo, e o segundo maior em volume de água, com uma biodiversidade imensurável. Diversa também é a cultura das comunidades que desenham seu contorno Amazônia adentro. Além das festas de padroeiros, dos torneios de futebol, das histórias de curupira, da medicina curandeira de ervas, raízes e cascas nativas, e do linguajar próprio, existe uma prática tradicional que vem desse afluente, a pesca artesanal. São mais de 80 mil ribeirinhos que vivem desse ofício no Estado do Amazonas, segundo o Secretário Estadual da Pesca, Geraldo Bernardino.

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, a qual abrange os municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão, foi realizada uma pesquisa de perfil econômico dos ribeirinhos pela empresa Action, em 2010. O estudo deteve-se à região de Iranduba e Novo Airão, por lá estarem concentradas as principais 19 comunidades da RDS. A pesquisa revelou que, o peixe é o produto mais extraído para a subsistência, representando 27,1%. E que 51,4% das famílias têm a pesca como principal fonte de renda.

Segundo o secretário Bernardino, ainda é pouco o que o pescador do Rio Negro consegue arrecadar. Para ele, essa classe de trabalhadores é merecedora de mais investimentos para uma melhor estruturação de seu negócio, já que no interior do Amazonas, o consumo per capto de peixe pode chegar a 20 vezes mais do que no restante do país. “Com tantos investimentos que o Estado dedica a outros setores, o pescador merece mais atenção e até mesmo ter sua própria empresa. Claro que para isso seria necessário uma análise completa do tripé homem, água e peixe, bem como a discussão de novas políticas para o cenário proposto”, completa. Quanto à renda na RDS do Rio Negro, a pesquisa da Action, mostra que a média por família é de R$497,20 mensal.

O presidente da Associação das 19 Comunidades da Reserva, José Roberto Nascimento, diz que hoje os pescadores estão mais atentos aos cuidados com o meio ambiente em que vivem. “São poucos os problemas que temos com nossos pescadores. A maioria quer apenas tirar seu sustento sem causar dano à natureza para garantir que no próximo ano possa continuar pescando. Aqui, a fiscalização é feita pelo ICMBio e CEUC, com ajuda das comunidades”, explica. O presidente conta ainda que a temporada de pesca na reserva é época de fartura, pois parte do que é pescado, é distribuído entre os moradores de sua comunidade. “Assim o ribeirinho garante um alimento saudável e nutritivo para sua família”, afirma.

A pesca da espera

Entre março e início de junho acontece a pesca da espera no Rio Negro, período conhecido como fábrico, onde pescadores posicionam suas canoas e redes às margens do rio, e lá passam 12 horas por dia, esperando os cardumes de jaraqui e matrinxã. Na hora da captura, os botos se aproveitam e às vezes deixam prejuízo rasgando a malhadeira.

Cada um tem sua função, uma delas é a do vigia que fica em terra firme, no alto de uma escada de madeira, esperando para avisar aos que estão na canoa, quando o cardume se aproxima. Dado o aviso, os pescadores fazem o lanço, recolhendo a rede em meia-lua e puxando-a para a canoa. Manobra que requer força de até dez homens.

Tiago Faria Ramos, já com 70 anos, há 39 dedica-se a pesca artesanal. Homem sábio, trabalhador e desconfiado, não duvida de cobra grande e diz que para entrar na mata tem que fazer acordo com curupira. “Sempre vivi e trabalhei aqui. Não faço uso da preguiça para não deixar nem meus filhos, nem minha mulher passando mal. A pesca traz dinheiro e alimento para dentro de casa”, conta. Segundo ele, este ano a piracema não foi maior por conta da cheia. Neste fábrico, sua equipe fez sete viagens para a Feira da Panair, em Manaus, sendo que cada viagem leva entre três a quatro milheiros de peixe, vendido para o feirante por a R$40 o cento de jaraqui e em torno de R$6 a unidade do matrinxã.

Os meses de pesca significam garantia de emprego para os ribeirinhos. Nesse tempo eles têm refeição fornecida pelo chefe da equipe e ao fim do fábrico dividem, conforme a função, o saldo em parcelas chamadas de partes, cada parte é o que vale a aproximadamente R$ 700. Um membro da equipe pode chegar a ganhar até cinco partes, dependendo de atribuição.

Como um dos pescadores mais antigos e experientes da região, Tiago Faria é um dos gerentes de sua equipe, além de ocupar o posto de vigia. “Não é todo mundo que vê o peixe chegando. Tem que sentir o cardume vindo, às vezes ele salta por cima da rede e outras, ele vem contra o banzeiro. Tem que entender o movimento da água”, tenta explicar a técnica.

Ele diz que aprendeu a pescar com um compadre, e não por coincidência tem o nome e o ofício de um dos discípulos de Jesus. Tiago Faria pesca peixe para seu sustento e homem para trabalhar com ele. Mas avisa que não é muito insistente e a maioria das vezes é o interessado quem deve lhe convencer de aceitá-lo no grupo que dirige. “Vai do interesse da pessoa, para ser bom pescador tem que ser atento. Se ficar tirando o sujo da unha e olhando para o porão da canoa não vai pegar nem um jaraqui”, adverte cheio de humor.

O secretário Bernardino lembra que a tradição da pesca de espera, assim como outras praticadas no Amazonas, vêm perdendo a força devido às novas aspirações dos pescadores. “A pesca artesanal é uma arte por se diferenciar da agricultura, por exemplo. Não é apenas técnica. Prevendo o seu enfraquecimento, precisamos investir em outras modalidades que incluam as comunidades ribeirinhas, como a pesca esportiva”, esclarece. Ele informa também que o turista que vem para o Amazonas interessado na pesca esportiva, gasta uma média de R$ 5mil por semana. Valor esse que, segundo o secretário, poderia ser direcionado a uma cadeia produtiva desenvolvida nas comunidades ribeirinhas, formando guias de pesca nativos, disponibilizando hospedagem, alimentação e transporte no próprio local.

Os comunitários pescadores, como explica o presidente das comunidades, são incentivados a passarem seus conhecimentos de pesca aos mais jovens, os quais também são motivados a estudar. “Sabemos da necessidade do estudo, mas também não queremos que nossa tradição caia no esquecimento, assim como não queremos precisar depender dos caros alimentos da cidade, tendo tão perto, produtos bons e naturais para nosso consumo”, defende. José Roberto diz que a pesca não dura o ano todo, depois do fábrico, os pescadores assumem outras atividades, na agricultura, manejo florestal, entre outras. Em junho, quando a pesca de espera encerra, iniciam-se várias festividades nas comunidades da RDS do Rio Negro. Uma das mais tradicionais é a Festa de São Pedro na Comunidade Saracá, onde o professor Francisco Souza apresenta-se com seus alunos, para homenagear os pescadores e seu padroeiro, e agradecer a boa safra.