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Cotidiano
CONSCIÊNCIA NEGRA

Pesquisador desmistifica ‘lenda’ de que não houve escravidão negra no Amazonas

Estado libertou os negros em 1884, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea garantir a liberdade aos escravos no País 19/11/2017 às 19:25 - Atualizado em 20/11/2017 às 15:53
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Imagens de 1865, do zoólogo e geólogo do século 19 Louis Agassiz, que veio ao Amazonas e fotografou negros da época. Foto: Reprodução
Paulo André Nunes Manaus (AM)

“Quando se trata da escravidão dos negros no Estado não há o que negar, porque os trabalhos de pesquisas de historiadores, anúncios de jornais da época, além de documentos de arquivos públicos, asseguram a forma como a escravidão se estabeleceu na província do Amazonas”. A análise é do pesquisador Vinícius Alves, mestrando em Ciências Humanas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), desmistificando mais uma vez os comentários inóquos de que não houve escravidão no Amazonas.

Em 10 de julho de 1884 foi quando ocorreu a libertação dos escravos na então província do Amazonas e, portanto, quatro anos antes da Lei Áurea, o Amazonas possuía mais de mil escravos e escravas, e concedeu a liberdade para pôr fim ao sistema escravocrata praticado em sua realidade histórica e social.

No caso específico da Amazônia, comenta o mestrando, convém desconstruir a teoria da invisibilidade dos negros na região. Desta maneira, é urgente preencher uma lacuna histórica no Estado do Amazonas, com vistas a evidenciar a existência das comunidades remanescentes de quilombo, como a do Barranco de São Benedito em Manaus, aponta ele.

“Posso me referir às comunidades quilombolas do Tambor (Novo Airão), do rio Andirá (Barreirinha), e Sagrado Coração de Jesus em (Itacoatiara), além de outras comunidades que estão em processo de reconhecimento no Estado, portanto são histórias cujas afirmações identitárias, étnicas e culturais, remetem à ascendência negra no Amazonas”, explica o mestrando de ciências humanas.

Consciência negra

O Dia Nacional da Consciência Negra instituído no Brasil é uma conquista do movimento negro, além de uma consciência crítica acerca do processo de colonização ocorrido no País, pela maneira desrespeitosa, autoritária, e anti-humana, às quais os negros foram submetidos durante séculos, destaca Vinícius.

“A escolha do dia 20 de Novembro é uma homenagem à data da morte de Zumbi, ícone da resistência no Quilombo dos Palmares contra a negação do trabalho escravo e, portanto, temos a possibilidade de somar esforços para a construção de uma sociedade multiétnica e plural, sendo necessário, um esforço permanente dos cidadãos, dos movimentos sociais e das instituições de ensino, para discutir, lutar, e repudiar, as manifestações do preconceito, do racismo, e da discriminação”, ilustra.

Homenagens

A data de hoje também é uma homenagem ao líder Zumbi dos Palmares pela data atribuída à sua morte, em 1695.

Reconhecidamente, Manaus sempre teve uma ligação muito forte com os negros e uma das suas principais referências foi o ex-governador do Amazonas, Eduardo Gonçalves Ribeiro (1862-1900) que, mulato, foi chefe de Estado de 2 de novembro de 1890 a 5 de maio de 1891 e de 27 de fevereiro de 1892 a 23 de julho de 1896, deixando obras seculares, como o suntuoso Teatro Amazonas, um dos cartões-postais de Manaus.

Desemprego atinge mais os negros

A falta de  emprego atinge mais indivíduos pretos e pardos que os demais, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada na ultima sexta-feira. A taxa de desocupação registrada para esse segmento da população foi de 14,6% no terceiro trimestre de 2017, frente a 9,9% dos brancos.

O total de pretos e pardos que buscaram e não conseguiram emprego no período era de 8,3 milhões, dentre 13 milhões desocupados (63,7% do total). Esses dois grupos étnicos representavam 54,9% da população com mais de 14 anos. A remuneração média mensal no terceiro trimestre foi de R$ 1.531, enquanto a dos brancos foi de R$ 2.757, segundo a Pnad Contínua.