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Cotidiano
PREVENÇÃO

Pessoas mordidas por morcegos ficarão em observação após mortes por raiva humana

Vigilância foi reforçada em nove comunidades de Barcelos e Novo Airão. Irmãos morreram e adolescente está internado em Manaus após sequência de casos 03/12/2017 às 15:13 - Atualizado em 03/12/2017 às 17:01
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Foto: Divulgação
acritica.com Manaus (AM)

A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), em parceria com o Ministério da Saúde (MS) e as secretarias municipais de saúde de Barcelos e Novo Airão, estão reforçando as estratégias de vigilância nas comunidades da Reserva Extrativista do Rio Unini, no Amazonas, onde ocorreram dois óbitos por raiva humana. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), uma das estratégias é vacinar e manter sob observação todas as pessoas mordidas por morcego na reserva, que é formada por nove comunidades. O acesso à região é apenas por barco e as distâncias percorridas de até 350 quilômetros tornam-se ainda mais difíceis no período da seca do rio Unini, com corredeiras e bancos de areia.

Uma equipe do MS está no Amazonas desde sexta-feira (1º), para acompanhar o trabalho que vem sendo feito pelas autoridades de saúde local. Também vão acompanhar os trabalhos preventivos, de profilaxia e de investigação que estão sendo realizados FVS-AM na área da Resex do rio Unini, com apoio da equipe de saúde local.

Soro em pessoas mordidas

A suspeita de raiva humana foi levantada desde o início, por conta do histórico dos pacientes para mordida de morcego. “A orientação para a equipe de saúde local é de que todas as pessoas nesta situação recebam o soro vacinal e fiquem sob observação dos profissionais de saúde locais e das equipes de reforço da FVS-AM. Ao menor sinal de sintoma, a pessoa deve procurar o serviço de saúde local de onde será conduzida à FMT-HDV, em Manaus, referência em doenças tropicais”, observa o diretor-presidente da FVS-AM, Bernardino Albuquerque.

Os principais sintomas da “raiva humana”, segundo ele, são déficit motor, com dormência ou formigamento e paralisia de membros, mudança de comportamento, como agressividade e extremo estado de apatia.

Vacinação

A FVS-AM esclarece que a prevenção contra raiva humana, através do uso de soro e vacina antirrábicos, está indicada aos pacientes com risco de desenvolver a infecção, seja por mordedura de animais suspeitos ou no caso pela agressão de morcegos. O tratamento é feito em quatro doses. De acordo com as informações da Secretaria Municipal de Saúde de Barcelos, a equipe do órgão encontra-se na região do rio Unini, para realizar a sorovacinação profilática nas pessoas agredidas por morcegos nos últimos doze meses.

Também estão reforçando as ações de vacinação de animais domésticos, inclusive nas comunidades onde não há agressão de casos por morcegos. As ações de vacinação, humana ou animal, são municipalizadas, ou seja, a responsabilidade da execução é das 62 Secretarias Municipais de Saúde do Amazonas, que devem realizar anualmente, no máximo até o mês de novembro, as campanhas de imunização de cães e gatos em todas as comunidades de seu território. É delas também a responsabilidade de realizar o esquema de sorovacinação de profilaxia da raiva humana nas pessoas agredidas por animais.

A FVS-AM é responsável pelo abastecimento e manutenção dos estoques dos soros e vacinas, que são dispensados pelo PNI/FVS-AM, de acordo com os pedidos dos municípios. Este ano, o município de Barcelos foi atendido com quantidade suficiente de doses de vacina antirrábica para animais, vacina antirrábica para humanos e soro antirrábico, conforme sua solicitação. A FVS-AM, de forma rotineira, realiza treinamento para vacinadores, para profissionais de saúde na profilaxia da raiva humana e para a coleta de amostras e controle de morcegos hematófagos. Na última semana, quem esteve à frente da vacinação foram as secretarias municipais de Barcelos e Novo Airão.

A equipe do Departamento de Vigilância Ambiental da FVS-AM retornou na última quarta-feira (29) da zona rural de Barcelos, onde permaneceu durante 11 dias e irá retornar novamente no início desta semana. A equipe é formada por médico veterinário, biólogo, técnicos de zoonose com vasta experiência na prevenção e controle de morcegos. Eles visitaram e realizaram trabalho de controle a surtos, nas nove comunidades localizadas na extensão de cem quilômetros do Rio Unini.

“É uma região de difícil acesso, com trechos sinuosos de corredeira e bancos de areia. Só para se ter uma ideia, a distância até a ultima comunidade da reserva pode durar de 7 a 12 horas num barco de motor que navega a 50 Km por hora”, explica o chefe do Departamento de Vigilância Ambiental da FVS-AM, Cristiano Fernandes.

Dentre as atividades desenvolvidas, foram capturados 31 morcegos hematófagos da espécie Desmodus rotundus, coletados em todas as comunidades que tiveram ocorrência de agressões por estes animais, no Rio Unini. “Sete exemplares de morcegos hematófagos foram encaminhados para pesquisa do vírus rábico, e os demais 24 foram tratados com pasta vampiricida e soltos para o controle das colônias, método indicado para a diminuição de ataques por estes animais”, explica Fernandes.

Fernandes esclarece que outros exemplares de morcegos não hematófagos também foram encaminhados para pesquisa viral. “Os morcegos foram encaminhados para o Lacen/FVS-AM, para que sejam feitos os testes necessários da presença do vírus. Isso trará mais informações sobre a circulação dos vírus nestes animais”, comentou Fernandes.

Ainda em relação à ação realizada em Barcelos, Fernandes informou que a equipe da FVS-AM, juntamente com a Semsa-Barcelos, realizou a vacinação contra raiva em todos os animais domésticos das comunidades, além da atualização do censo canino, garantindo assim as medidas preconizadas pelo Ministério da Saúde para o enfrentamento da doença.

Investigação

De acordo com o diretor de Doenças Transmitidas da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), órgão do MS, Márcio Garcia, a equipe de saúde do Amazonas interviu de forma oportuna e precisa na interrupção do surto de raiva humana no município amazonense. “A equipe de técnicos da SVS segue o acompanhamento dos casos com a equipe local, pois é de interesse do Ministério da Saúde a atualização de protocolos preconizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). É rotina da instituição, apoiar os Estados no enfrentamento de situações emergenciais”, afirmou.

“É uma doença rara no País, assim como não é comum a transmissão por morcegos, o que deve ser investigado. O Ministério da Saúde tem feito esse trabalho de acompanhamento sempre que detectado algum caso com o intuito de evitar novas transmissões”, declarou o diretor-presidente da FVS-AM, Bernardino Albuquerque. Ele ressaltou que  os casos mais significativos aconteceram em cidades da fronteira entre o Pará e o Maranhão, entre 2004 e 2005, com 44 pessoas infectadas que foram a óbito. No Amazonas, dois casos foram detectados em 2002, também com óbito.

Segundo Bernardino, por ser uma situação nova, a transmissão por morcegos vem sendo estudada nos últimos casos. “É preciso saber por que os morcegos estão buscando o homem para se alimentar. Uma das linhas de investigação aponta para fatores naturais, como o desmatamento e a seca, que fazem com que a fonte natural de alimentos desses mamíferos, no caso os animais silvestres, se esgote”, disse.

Mortes

No dia 16 de novembro, um adolescente de 17 anos faleceu no Pronto-Socorro 28 de Agosto e a irmã dele, de dez anos, foi a óbito no dia 02 de dezembro, na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), após serem atacados por morcegos nessa região, na comunidade de Tapira, em Barcelos. O irmão deles, de 14 anos, deu entrada na FMT-HVD, no último sábado (02), com sintomas de febre e formigamento nas mãos.

O paciente está internado na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTI), onde está sendo acompanhado por médicos pediatras e intensivistas.

“O paciente está lúcido, estável e bem do ponto de vista respiratório e neurológico, não tendo apresentado nenhuma instabilidade hemodinâmica”, informa o diretor de Assistência Médica da FMT, o infectologista Antônio Magela, que está acompanhando o caso. Ele também observa que o paciente já está sendo submetido ao protocolo de Milwaukee, indicado pelo MS, com uso dos medicamentos Biopterina e Amantadina. Também foram coletadas e enviadas ao Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN) amostras biológicas para exames e investigação do diagnóstico do paciente.

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