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População de Tabatinga começa a dar sinais de esgotamento na relação com os Haitianos

Mais de um ano depois do início da imigração haitiana, a capacidade de Tabatinga de lidar com o tema dá sinais de esgotamento 23/01/2012 às 14:51
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Funcionário da ong Médicos Sem Fronteiras organiza a distribuição de kits de higiene pessoal a imigrantes haitianos
Leandro prazeres TABATINGA

O café já havia sido servido quando uma mulher vestindo blusa verde, bermudas e jaqueta jeans atravessou a rua, o portão e o pátio da Igreja do Divino Espírito Santo à procura da irmã Patrícia Licandro, vice-coordenadora da Pastoral da Mobilidade. Patrícia não estava lá e a mulher, visivelmente nervosa, desatou a falar. “Eu não aguentou mais esses haitianos na frente da oficina do meu pai. Eles urinam lá o tempo todo e estão afastando os clientes do meu pai, que está até em depressão. Vou na polícia saber se eu posso colocar uma placa dizendo: proibida a presença de haitianos”, disse.

O episódio mostra que a paciência da população de Tabatinga para com os haitianos está chegando ao fim. Seja por conta das diferenças culturais ou por mero preconceito, o incômodo está cada vez mais latente e já começa a ser tornar tangível.

A poucos metros da a Igreja do Divino Espírito Santo, ainda pela manhã, duas professoras da rede pública de Ensino conversam animadas, sentadas à mesa de uma mercearia. “Eu chamei uma haitiana para trabalhar na minha casa. Um dia eu voltei mais cedo e encontrei ela na cama da minha filha com outro haitiano. Não dá para confiar nesse povo”, disse a professora mostrando que um episódio que poderia acontecer com gente de qualquer nacionalidade ganha outros  contornos quando se trata dos haitianos.

Como em todo processo migratório, são esses pequenos incidentes que criam os estigmas. “Eu já vejo crianças brincando entre si e chamando as mais morenas de haitianos. É isso que a gente tenta evitar, porque é assim que começa a discriminação”, contou Patrícia Licandro, preocupada com a possibilidade de que as boas-vindas dêem lugar a alguma hostilidade.

Diferenças

A comunidade haitiana também já sentiu que o humor da cidade interiorana está mudando diante da presença constante dos imigrantes.

“Nós sabemos que há diferenças culturais e que elas podem causar algum incômodo para a população daqui, mas não viemos para criar problemas”, diz Ernest Cassius, 33, um ex-estudante de economia que presidia, até o último sábado (21) o Comitê dos Haitianos de Tabatinga, entidade criada pelos imigrantes para representá-los junto às autoridades brasileiras.

A impaciência da população de Tabatinga também já ficou evidente na redução drástica das doações coletadas pela Pastoral da Mobilidade Humana. “Antes, todos os empresários e boa parte da população doavam comida e mantimentos, agora alguns já nos olham de cara feia. Eles estão cansados da gente pedindo doações”, contou Patrícia Licandro.

A falta de pessoal no departamento de Imigração da Polícia Federal em Tabatinga aumentou ainda mais o tempo de permanência dos haitianos na cidade, criando uma tensão desnecessária. A maioria dos haitianos demora, em média, de três a quatro meses para receber o protocolo do pedido de refúgio, documento que os permite seguir viagem e trabalhar.

A tensão é velada mas perceptível a qualquer um que caminhe pelas ruas de Tabatinga; mesmo assim a maioria dos haitianos não se queixa de discriminação ou hostilidades. “Eles nos tratam bem aqui. Não é como em outros lugares por onde passamos”, diz Florestil Dieu-Grand, 31, que deixou seis filhos e a esposa para trás em busca do eldorado brasileiro.

Xenofobia

Preocupada com o aumento da tensão entre haitianos e a população local, representantes da Igreja Católica e da ong Médicos Sem Fronteiras (MSF) têm ido às rádios e usado os cultos para  explicar a dramaticidade da situação. “Nós vamos às missas e a programas nas rádios locais para dizer que essa situação é provisória, que eles não vão ficar aqui para sempre e que precisam da ajuda dos moradores”, diz Renata Oliveira, coordenadora do MSF em Tabatinga.

Disputa por emprego acirra tensão

Mas não são apenas os conflitos culturais que vêm aumentando a tensão entre a comunidade haitiana e os tabatinguenses. A disputa pelos poucos recursos financeiros disponíveis na cidade é cada vez maior. Dos 52 mil habitantes de Tabatinga (Censo 2010), 21,4 mil são considerados pobres e os poucos empregos formais estão na Prefeitura, no Governo do Estado e no comércio.

“Somos uma cidade sem indústria, boa parte da população vive na pobreza e depende do governo ou da prefeitura. Os empregos são escassos e os haitianos estão ocupando vários postos de trabalho”, afirmou Raimundo Nonato Gomes, da Associação Comercial.

Desde que chegaram, porém, os haitianos têm conseguido empregos na construção civil, nos portos e no setor informal. Tanta disponibilidade para o trabalho tirou o lugar de muitos brasileiros e, sobretudo, da população flutuante peruana.

O prefeito de Tabatinga, Saul Nunes, sintetiza essa disputa. “Quando um caboclo vai para uma obra, ele chega lá e vê um monte de haitiano trabalhando. Aí ele vai para o porto para ver se consegue descarregar um barco. Chega lá e já tem um monte de haitiano trabalhando. De uma forma ou de outra, os haitianos estão tirando os empregos da população local”, disse Saul.

Para agravar ainda mais a situação, o município, cujo orçamento é de meros R$ 4,5 milhões por mês, ainda não recebeu nenhum centavo de ajuda federal para lidar com os haitianos. “As únicas pessoas de Brasília com quem conversei sobre o assunto foram os jornalistas. Do governo, ninguém”, afirma o prefeito.

Confira imagens dos haitianos em Tabatinga.