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Cotidiano
FALTA DE ESTRUTURA

População do interior do Amazonas precisa se deslocar para Manaus em busca de saúde

Mais de um ano depois de ter uma fratura na perna direita, Rodrigo Moraes, que precisou buscar atendimento em Manaus, passou por uma cirurgia mas continua com problema 16/09/2017 às 21:03 - Atualizado em 17/09/2017 às 08:25
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(Foto: Márcio Silva)
Janaína Andrade Manaus (AM)

Morador de uma comunidade rural de Maués (a 267 quilômetros de Manaus), o adolescente Rodrigo Moraes, 17 anos, é um dos milhares de amazonenses que buscam socorro médico todos os dias em Manaus por falta de estrutura adequada de atendimento à população nos municípios do interior do Estado. Umas das principais causas desse problema é a falta de implantação de hospitais de média complexidade em municípios-polos, o que, no jargão médico é chamado de  regionalização da saúde, que até hoje não saiu do papel. 

De acordo com um dos ex-titulares da Secretaria de Estado da Saúde (Susam), Pedro Elias, a distorção na estrutura de atendimento de um Estado de dimensões continentais, como o Amazonas, se mostra na partilha dos recursos da saúde. Segundo ele, 80% do orçamento dessa área fica em Manaus e apenas 20% é dividido entre os outros 61 municípios.

“Precisamos de um olhar diferenciado para o interior. O cidadão de lá tem o mesmo direito constitucional de acesso à saúde que o da capital tem. Estamos muito longe de termos um atendimento ideal no interior. A nossa divida ainda é muito grande com essa parcela da população. Precisa de vontade política, de envolvimento do gestor e há caminhos”, avaliou Pedro Elias, que chefiou a pasta de 1° de julho de 2015 a janeiro de 2017 e atualmente é o diretor do Hospital Universitário Francisca Mendes (HUFM).

Rodrigo Moraes, que sonha ser advogado, era trabalhador rural.  Em junho de 2016, enquanto trabalhava no roçado ao lado do tio, na comunidade Nossa Senhora de Fátima,  sofreu um acidente e teve o tornozelo direito esmagado. Desde lá, o menino que precisou deixar a sua cidade em busca de atendimento, passou por uma cirurgia que em seguida apresentou complicações e há quase um ano aguarda o segundo procedimento, sem previsão de data. Rodrigo não anda mais sem o auxílio de muletas e está perdendo o movimento da perna.

A primeira cirurgia foi realizada em julho no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto e poucos dias depois Rodrigo voltou para a sua comunidade, mas começou a sentir fortes dores e retornou a capital. O caso dele foi então transferido para o Hospital e Pronto-Socorro Adriano Jorge, onde aguarda a chegada da peça necessária para realizar a segunda cirurgia.

“Na primeira cirurgia coloquei 16 pinos, mas quando voltei para Maués não cheguei nem a fazer o pós-operatório, as dores aumentarem. Vim para Manaus e conseguimos uma consulta com um ortopedista que foi categórico – “Os pinos colocados não deram certo”, ele me disse. Minha irmã é quem vai ao Adriano Jorge atrás de notícia sobre a outra cirurgia, mas disseram na segunda-feira que a peça necessária está em falta e é muito cara, não tem previsão”, relatou Rodrigo.

‘O paciente vem para Manaus de qualquer jeito’

Responsável pelo setor do Ministério Público  Estadual que fiscaliza o acesso da população à saúde pública, a promotora de Justiça Silvana Nobre afirmou que é vital a implantação de regiões  de saúde. “Aqui no nosso Estado nós não implantamos na integralidade as normas do SUS, a regionalização é um exemplo disso. Outro serviço também que não foi regionalizado é o programa de transferência. Aí o paciente vem para Manaus de qualquer jeito, chega aqui sem ter a referência da unidade hospitalar e passa a fazer parte de uma fila que já existe”, apontou a promotora.

Para a promotora, os municípios do interior precisam se organizar para assumir a média e a baixa complexidades. “A regionalização é você organizar o recebimento do paciente, organizar o serviço, não empregar dinheiro em todo tipo de serviço, porque isso gera uma economia que para esses municípios é essencial”.

Telesaúde reduz as distâncias

O diretor do Hospital Universitário Francisca Mendes (HUFM), Pedro Elias, avalia que enquanto o governo estadual não implanta o projeto de regionalização da saúde poderia empregar esforços para a telesaúde. “No HUFM nós implantamos um trabalho de Tele-Eletrocardiografia que está chegando em 400 mil exames laudados para o interior. Esse exame previne a síndrome de WPW,  doença que pode levar a morte súbita. Hoje o paciente faz o exame  no município via web e o meu cardiologista lauda aqui ou aonde ele estiver e pode detectar também, por exemplo, o infarto agudo do miocárdio. Temos também a telemamografia que estamos próximos dos dez mil”, disse. 

Segundo ele, essa proposta de ampliação do programa  está em discussão com o Ministério da Saúde. “Esse programa tem duas vertentes - o telediagnóstico e teleconsultoria. A teleconsultoria é um especialista daqui orientando um médico da atenção primária lá no interior. Nós fizemos lá no HUFM mais de mil teleconsultorias na área de cardiologia e isso significou que 65% dos pacientes que foram atendidos deixaram de vir para Manaus desnecessariamente”, contou.

João Campelo - Presidente da Associação amazonense dos municípios:

"A saúde  básica que é  de competência dos municípios está funcionando bem, não está ótima, mas funciona. O que não está funcionando são os hospitais do Estado que deveriam atender os casos de média e alta complexidade. Isso daí precisa de um choque de gestão o mais rápido possível. E isso é falta de um olhar respeitoso e carinhoso da parte do governo do Estado com o interior. Se os hospitais estaduais estão de portas abertas nos municípios é porque os prefeitos é que estão arcando com a responsabilidade do pagamento de médicos, enfermeiros, motorista de ambulâncias e até mesmo serviços gerais. Isso ocorre na maioria, não é 100%. O governador do Estado tem que assumir a sua responsabilidade com a saúde no interior,  fazer concurso para contratação de médicos, enfermeiros, ambulâncias novas, medicamentos, serviços gerais”.

Na fila 

A Fundação Hospital Adriano Jorge informou em nota que a primeira consulta de Rodrigo foi no dia 12 de junho de 2017, com médico ortopedista, e a segunda consulta com cardiologista para avaliação de risco cirúrgico no dia 20 de julho 2017. A assessoria do hospital informou que não há previsão para a realização da cirurgia e que Rodrigo “está na fila”.

Projeto de regionalização se arrasta há dois anos

Dois anos após começar a ser confeccionado, o projeto de regionalização da saúde, que previa a instalação de hospitais para atender a média e alta complexidade em nove municípios polos caminha de forma “muito lenta” e segue sem previsão de quando sairá do papel.

A informação é do secretário executivo de Saúde no Interior, Edvaldo da Silva. Segundo ele, foram criadas recentemente comissões para analisar as peculiaridades dos municípios que podem vir a se tornar pólos. “Nós dividimos o interior em nove regiões, foram criadas comissões para cada uma delas, com a missão de identificar as peculiaridades de cada município. Isso já vem desde 2015, só que está muito lento, muito devagar”, declarou o secretário.

Os municípios polos que constam no projeto iniciado em 2015 são: Itacoatiara, Parintins, Humaitá, Tabatinga, Coari, Lábrea, São Gabriel da Cachoeira e Manacapuru. “Já montamos um projeto piloto em Manacapuru, em parceria com o HCor (Hospital do Coração) e a Prefeitura de Manacapuru, mas ainda não começou. Tiveram as primeiras reuniões”, disse o médico.

A principal dificuldade, de acordo com o secretário é a falta de recursos financeiros. “O País está quebrado e isso se reflete nos orçamentos dos estados. Esse projeto será, em parte, financiado pelo Ministério da Saúde”, explicou Edvaldo da Silva. 

Enquanto o projeto de regionalização da saúde não é implantado, de janeiro a junho deste ano,  a Susam gastou 
R$ 6,8 milhões  com 328 remoções em UTIs aéreas. “A meta é até novembro estar com o projeto de regionalização pronto para ser apresentado ao Ministério da Saúde”, afirmou secretário executivo de Saúde no Interior.