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Cotidiano
PROBLEMAS

Postes da Eletrobras atrasam a duplicação da rodovia AM-070

Governo busca estatal para retirar rede de alta e média tensão instalada no traçado da ampliação da rodovia Manoel Urbano 15/10/2017 às 19:20 - Atualizado em 16/10/2017 às 07:35
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(Foto: Evandro Seixas)
Janaína Andrade Manaus (AM)

Faltando 37km para ser concluída,  duplicação da rodovia AM-070, que liga os municípios de Iranduba e Manacapuru a Manaus, volta a provocar prejuízos aos cofres públicos em razão da falta de comunicação entre a empresa Eletrobras - Amazonas Energia e a Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinfra).

O impasse, que será discutido em reunião convocada pelo governador Amazonino Mendes (PDT) para esta semana, é de quem vai pagar os custos das remoções de postes de média e alta tensão que terão que ser deslocados para o alargamento da pista.

Reportagem publicada na edição de 18 de março de 2012 de A CRÍTICA mostrou que a Eletrobras estava gastando R$ 5,5 milhões para reconstruir a rede elétrica de alta tensão na AM-070, que teve os cabos roubados. À época, a matéria alertou que, a reposição do cabeamento sem o afastamento dos postes, muitos posicionados a menos de cinco metros da estrada, provocaria novo gasto quando iniciasse a duplicação da pista, o que está ocorrendo agora.

Com início em 2013, a obra é custeada com  investimento do BNDES e contrapartida do Estado, totalizando R$ 279.642.517. Segundo o titular da Seinfra, Oswaldo Said, para  ser concluída faltam 37 quilômetros, que devem custar  R$ 170 milhões. Todavia, é necessário agora o deslocamento do posteamento, que para ele é de responsabilidade da Eletrobras, que sabia do projeto do governo do Amazonas e mesmo assim instalou os postes. “Vamos propor que o serviço fique sob total responsabilidade deles (Eletrobras). A conversa vai ser por aí. A previsão de que seria feita essa obra é muito antiga. Efetivamente já tem uns cinco ou seis anos executando essa obra”, afirmou o secretário.

A reportagem percorreu, na tarde de sábado, a AM-070. A rodovia, com total de 84 quilômetros, já está duplicada até poucos metros da comunidade de Ariaú, no quilômetro 38. No local, está sendo construído, ao lado da ponte que já existe, outra estrutura do mesmo porte. Um dos moradores da área, Francisco Barros Alexandre, 59 anos, se queixou que foi obrigado a retirar sua banca de frutas, de onde tirava o sustento da  família, para dar passagens às máquinas.

Prioridade

A duplicação foi uma das obras eleitas pelo governo do Estado como prioridade. “Esse problema (postes) foi repassado ao governador Amazonino e ele entrou em contato com o presidente da Eletrobras e já está sendo acertado com a gente para esta sentarmos para fazer um cronograma e eles entrarem na obra. Porque sem a ajuda deles fica muito difícil, tem que fazer o desligamento da rede elétrica e através do cronograma deles que vamos agir”, disse.

Said não soube estimar quantos postes serão retirados e nem o custo do serviço. A reportagem  entrou em contato com o setor de comunicação da Eletrobras, mas até o fechamento desta reportagem não recebeu resposta.

Fornecimento de energia interrompido

O secretário Estadual de Infraestrutura (Seinfra), Oswaldo Said, informou que para que o deslocamento dos postes seja feito, será necessário a suspensão do fornecimento de energia para o Município de Manacapuru.

“É por isso que a empresa Eletrobras é importante neste momento, porque eles fazem a programação por dia. Não vai ter um desligamento por 24h. A empresa tem que fazer uma programação de aviso 48h antes, pode programar, por exemplo, duas horas de desligamento por dia,  tem todo um procedimento técnico”, explicou Said.

Segundo estimativa feita pelo secretário, a Eletrobras Amazonas Energia deve precisar de uma média de 14 dias para realizar o deslocamento dos postes localizados entre o quilômetro 25 ao 35 da AM-070.  “Não podemos penalizar os consumidores, então tem que existir programação”, adiantou o secretário da Seinfra.

A obra para a construção da nova ponte sob o rio Ariaú, localizada no km 38 da AM-070 está em fase, segundo o secretário, de estaqueamento - fundamental para erguer os pilares da ponte. “Esse serviço de estaqueamento tem que ser feito enquanto o rio está baixo e vai dar tempo de realizar a concretagem dos pilares antes da cheia do rio. Porque depois que conseguir colocar os pilares acima do nível da água eles conseguem trabalhar normalmente”, detalhou Said.

Personagem: Morador da com. Ariaú, Francisco Barros

“Hoje a gente vive de caridade, com a ajuda da igreja”

Há dez anos residindo na entrada da comunidade do Ariaú, localizada no km 38 da AM-070, Francisco Barros Alexandre, 59, reclama a perda da única fonte de renda que possuia. “Hoje aqui a gente vive de caridade, com a ajuda da igreja, dos vizinhos. A empresa (ETAM) disse que se a estrutura da minha casa apresentasse alguma rachadura era para entrar em contato, mas até hoje não me disseram se vão indenizar ou não. Mas eles sabem, porque eu já contei, que quando é na época na cheia, parte da casa fica embaixo d’água”, relatou o morador, que teve a casa afetada pela obra da ponte.

Outro problema enfrentado, segundo ele, é que as máquinas levaram o gramado da beira da pista, ficando apenas o barro. “A minha casa fica há dez metros da pista. Nesses meses que tem chovido bastante e a gente fica impossibilitado de sair da porta para fora, não tem como subir para comprar um quilo de comida. Eles (a empresa) estão vendo como tá aqui para a gente, mas disseram que só vão resolver esse problema no tempo deles. E a gente fica aqui, não pode fazer nada”, desabafou Francisco.

Delação

Campeã em obras e em recebimento de recursos no governo do Estado, a construtora Etam foi citada na deleção premiada de um ex-executivo da Camargo Corrêa como intermediária do pagamento de propina para o senador Eduardo Braga. Conforme o colaborador, a “contrapartida” a Braga se deu para que a empreiteira conquistasse a obra da ponte sobre o rio Negro. Os pagamentos teriam sido realizados por meio de “contratos fictícios” com a Etam. O delator desse caso é Arnaldo Cumplido, que foi  diretor de projeto de infraestrutura na Camargo Corrêa. Sem precisar valores, ele afirmou que a “contrapartida” pela obra da ponte foi  paga  entre 2009 e 2011. O parlamentar nega essa informação.