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Praia de R$ 12 mi já foi cenário de 16 mortes por afogamento; famílias querem justiça

Familiares responsabilizam a Prefeitura de Manaus por mortes em série na Praia Perene da Ponta Negra. O índice de 16 mortes em apenas três meses na praia chocou a cidade, provocou a preocupação de especialistas e levou o Ministério Público Estadual/AM a pedir interdição da área enquanto a Prefeitura não efetuar reparos para garantir a segurança e a balneabilidade do local 17/12/2012 às 14:31
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Praia foi interditada pela segunda vez em novembro, após recomendação do MPE com base nos apontamentos do CPRM
Elaíze Farias Manaus (AM)

Inconformadas, revoltadas e desconsoladas. Assim encontram-se as famílias de sete das 16 vítimas de afogamentos na praia da Ponta Negra desde que a área recebeu obras de aterramento artificial em julho passado. Passado quase um mês desde a interdição da praia, os parentes das vítimas prometem entrar na justiça contra a Prefeitura de Manaus por consideram-na responsáveis pelos óbitos de seus familiares.

Após uma busca feita em boletins no 6º Distrito Integrado Policial (DIP), localizado no bairro Cidade Nova, Zona Norte, onde a maioria das ocorrências foi registrada, a reportagem do A CRÍTICA encontrou sete famílias que perderam parentes na praia artificial da Ponta Negra. Muitos dos boletins do 6º DIP não possuem endereço ou telefone de contato, por isso não foi possível chegar a todas as 16 famílias.

As famílias não se conhecem. Nunca se viram, nem se encontraram após o óbito de seus filhos, netos e irmãos. No entanto, pelo cruzamento dos relatos, observa-se que as circunstâncias das mortes ocorreram em situações semelhantes: o banhista transitava em uma parte rasa da praia quando, subitamente, desapareceu em um “buraco”, condição que tem semelhança com a mesma situação identificada na vistoria pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) em novembro passado.

Passeio no feriado

“Pode durar o tempo que durar, mas vou brigar na justiça. Meu neto era estudioso, trabalhava como menor-aprendiz na universidade, não bebia, não saia com más companhias. Foi para a Ponta Negra apenas para jogar bola na praia. Todos nós ficamos muito revoltados quando falaram que as vítimas estavam bêbadas e foram as culpadas de sua própria morte. Meu filho foi vítima do lazer da morte”, relata Maria Amélia Mota Muniz, 65, avó de James Veras da Costa, morto no dia 9 de setembro.

James Veras, 18, morava com avó na rua Iranduba, no bairro São José I, Zona Leste, porque a casa dela é mais próxima do ponto onde ele pegava ônibus até à Universidade Federal do Amazonas (onde trabalhava) e do colégio onde fazia o último ano do ensino médio. No dia 9 de setembro, aproveitando o final do feriado prolongado, James saiu para se divertir com a namorada e irmã desta. Quando todos se preparavam para voltar para casa já era quase madrugada. O rapaz, que não sabia nadar e não ousava chegar na água para tomar banho, deu uma escapada “para tirar a areia do corpo”, segundo a mãe, Ineli Mota Veras, 42.

“No que ele fez isso, desapareceu. Meu filho não gostava de tomar banho na Ponta Negra. Dizia que a água era imunda. Ele gostava mesmo era de jogar bola. Naquele dia, antes de sair da areia, ele foi para a parte rasa se lavar e de repente sumiu. As duas (namorada e irmã) foram atrás dele, mas já era tarde. Depois, recebi a ligação de um bombeiro que disse que meu filho tinha sido encontrado num 'buraco' da praia. Ele me deu os pêsames e desligou", conta Ineli.


Laudo

O surpreendente índice de 16 mortes em apenas três meses na praia da Ponta Negra chocou a cidade, provocou a preocupação de especialistas e levou o Ministério Público Estadual/AM a pedir interdição da área enquanto a Prefeitura não efetuar reparos para garantir a segurança e a balneabilidade do local.

O MPE fez a recomendação com base em laudo do CPRM que apontou falhas na obra da praia artificial, atestou o perigo de utilizar o local e recomendou a interdição da área pode ser usado como “um início de prova”.

O número de 16 mortes é 400% a mais do que os casos de morte por afogamento registrados nos últimos dois anos no mesmo local. Segundo dados do Instituto Médico Legal (IML), três pessoas morreram na praia da Ponta Negra em 2010. E, em 2011, também três pessoas vieram a óbito. Em 2012, não há registro de mortes na Ponta Negra por afogamento até junho. A área, porém, estava interditada para as obras no local.


Obra milionária

A praia artificial seria o legado de Amazonino Mendes em sua possível última administração no Executivo Municipal. A obra custou aos cofres públicos R$ 12 milhões (somente a areia da praia perene) e faz parte do projeto de revitalização da Ponta Negra, que incluem diferentes etapas, totalizando um orçamento de R$ 57 milhões. A pretensão era transformar o leito de tal forma que o banhista também utilizasse a praia também no período da cheia do rio.


O alto número de óbitos em um período tão curto chamou atenção da população, mas a Prefeitura Municipal defendeu-se dizendo que os banhistas estavam bêbados. Parentes das vítimas negaram esta situação, com base em laudos dos IML. Vistoria realizada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) em novembro atestou que a área aterrada é inadequada para uso e apontou a existência de "buracos" em alguns trechos do praia perene. Leia mais no link.  

Leia relatos de familiares e veja a lista das 16 vítimas no link