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Cotidiano
SAÚDE MENTAL

Preconceito impõe sofrimento dobrado para pessoas com transtornos mentais

É preciso informação contra a falta de conhecimento de quem tacha de ‘frescura’ doenças que podem matar, como depressão, estresse e ansiedade 21/01/2018 às 08:47 - Atualizado em 21/01/2018 às 20:50
Show saude mental
A jornalista Bhia Borges revelou estar fazendo tratamento contra a depressão (Foto: Jair Araújo)
Silane Souza Manaus (AM)

Uma luta contra a doença e outra contra o preconceito. Assim é a vida de muitas pessoas que sofrem com algum tipo de transtorno mental. De acordo com elas, em pleno século 21, muita gente ainda acha que depressão, estresse e ansiedade são “frescuras”. O que não é verdade. São males graves, que podem matar. E ninguém está imune a eles. Por isso, é necessário falar de saúde mental e emocional, como propõe a campanha “Janeiro Branco”. 

A jornalista e musa da Vitória Régia Bhia Borges, que revelou esta semana estar fazendo tratamento contra depressão, ansiedade e estresse, disse que nunca pensou em chegar ao estado em que chegou, de não se reconhecer, não querer se ver no espelho, não ter vontade de sair, de encontrar pessoas. O pior é que algumas pessoas acham que ela está assim porque quer. “Isso não é frescura ou opção. Precisamos abandonar conceitos equivocados e buscar a informação porque transtorno mental é uma doença”, ressalta.

Para Bhia, a falta de conhecimento aumenta os casos de psicofobia, preconceito contra a pessoa que tem transtorno e deficiência mental, que ela própria enfrenta constantemente. “Vamos lá, deixa de preguiça. Menina, você é bonita, depressão pra quê? Vai ser feliz. Fiquei sabendo que a musa de vocês está perturbada - doida, louca. O que aconteceu?”. “Ou seja, vai de um extremo a outro. É triste você ter o preconceito no lugar onde trabalha ou no lugar que frequenta”, observa.

A jornalista conta que começou a sentir os primeiros sintomas da depressão em 2011, após a morte da mãe. Mas na época, como tinha que trabalhar para se sustentar e ajudar o irmão, sua única família, não deu importância até mesmo pela falta de informação sobre a doença. O trabalho foi sua válvula de escape. Porém, no início do ano passado, ela observou, em função de um quadro de saúde mental que tinha em seu então programa de TV, que sua situação estava ficando mais séria.

Ela então pediu socorro ao seu terapeuta e começou a fazer terapia. Sentiu-se bem com as sessões, mas em novembro do mesmo ano teve uma recaída agravada pelo estresse. O quadro foi tão intenso que ela pediu afastamento do emprego. “Desta vez, o trabalho não foi minha válvula de escape. Hoje tomo dois remédios para depressão e ansiedade e estou fazendo terapia. O apoio da minha família, do meu noivo e dos amigos foi fundamental para conseguir lidar com tudo isso no dia a dia”, afirma.

Bhia conta que emagreceu dez quilos em dois meses devido ao agravamento do seu quadro de depressão, que em seu caso ainda é hereditária. Sua mãe tinha a doença e o irmão também tem. Foto: Jair Araújo

Luta solitária

Ao contrário de Bhia, uma professora de 22 anos, que preferiu não se identificar, diagnosticada com depressão e ansiedade generalizada, conta que não teve o mesmo suporte junto à família. Conforme ela, desde criança passou por crises depressivas, mas os pais nunca a levaram a um psicólogo. Só quando ela tinha 12 anos, começou a entender mais sobre o transtorno, resolveu procurar ajuda sozinha. Mas só conseguiu conversar com um psicólogo dois anos depois.

Fez algumas sessões, mas como ainda era menor de idade teve que falar com a mãe para poder continuar o tratamento. Mas a mãe, depois de conversar com a psicóloga, não acreditou em nada e disse que ela só queria ganhar dinheiro. “Minha mãe não falou para mais ninguém da minha família e eu fiquei sem terapia um tempão. Quando comecei a ganhar meu próprio dinheiro voltei à psicóloga, mas de novo minha mãe me fez parar com o tratamento. Só quando fiquei maior de idade que não desisti”, conta.

A professora diz que teve problema com automutilação, ficou viciada em remédio, tomava de sete a oito comprimidos para ficar dopada. Atualmente, ela não tem mais tendência suicida. A mãe, por ter mais acesso a informação, está ciente de que a depressão não é loucura, é doença, tem inclusive que tomar remédio para tratá-la. “Busque informação e tenha compaixão pelo outro, tenta se colocar em seu lugar, deixa sua perspectiva de lado. Precisamos de mais compreensão”, alerta.

Uma vida ofuscada pela doença

A professora de inglês Nayara Medeiros, 24, teve contato com a depressão aos sete anos de idade, depois aos 12, 15 e 16. Conforme ela, tinha uma tristeza profunda, mas achava que era normal por estar na fase da adolescência. Porém, aos 15 anos, quando foi ao psicólogo, ficou constatado que ela tinha depressão. “Ninguém sabia o que fazer, nem eu”, conta. “Depois fiz tratamento por seis meses e como estava me sentindo bem parei, achando que não teria mais crises”.

Mas aos 22 anos a depressão voltou. Na época, Nayara diz que teve uma tristeza profunda, não saia da cama, não queria conversar com ninguém, não queria beber água, tomar banho. Então voltou a fazer acompanhamento com o psicólogo. “Mas parei novamente quando estava boa. Em junho do ano passado tive uma crise enorme, que paralisou minha vida. Agora estou fazendo tratamento com psicólogo e estou procurando também tratamento holístico”, revela.

Ela afirma que foi um baque quando foi diagnosticada com depressão. “Sou superextrovertida, tenho muitos amigos, gosto de me comunicar. Como uma pessoa com esse perfil fica com depressão? Ninguém acreditava quando eu falava que estava com a doença. Isso mostra que a depressão não escolhe perfil, idade, e qualquer coisa a desencadeia. Encontrando apoio na família e nos amigos é mais fácil seguir em frente. Sozinho muitas vezes ninguém consegue”, frisa.

"Encontrando apoio na família e amigos é mais fácil seguir em frente", afirma Nayara Medeiros. Foto: Acervo pessoal/Divulgação

A jornalista Nauzila Campos, 26, começou a sentir os sintomas da depressão com uns 22 anos de idade, três anos antes da doença se agravar. “Antes de pensar em suicídio, a gente começa a não sentir mais prazer nas coisas que costuma fazer, perdi o apetite, perdi 12 quilos, preferia estar dormindo do que ficar acordada. Negligenciei muito minha saúde mental, demorei a procurar ajuda. Eu sempre soube da doença, mas eu mesma tinha preconceito de procurar um psiquiatra e tomar medicação, paguei por isso”, conta.

Quando procurou ajuda e começou o tratamento, Nauzila tomou medicamento antidepressivo, mas como a doença estava num nível muito agravado, não deu certo. Então passou a fazer estimulação magnética transcraniana, um procedimento médico que utiliza estímulos elétricos e magnéticos excitatórios ou inibitórios para reestabelecer o funcionamento cerebral. “Fiz por um ano e hoje não preciso mais. Estou bem definitivamente”, garante.

A jornalista evidencia que muita gente diz que depressão é frescura, que a pessoa com o transtorno quer aparecer, até os próprios familiares demoram a entender o que está acontecendo. Mas não é nada disso. É uma doença como qualquer outra. "Eu sofri muito pela falta de informação das pessoas. A falta de empatia, por desconhecimento e por não ter vontade de conhecer, faz o paciente sofrer mais do que já sofre com a depressão. Por isso, disseminar informação sobre o tema é muito importante”.

"A falta de empatia, por desconhecimento e por não ter vontade de conhecer sobre a doença, faz o paciente sofrer mais do que já sofre. Por isso, disseminar informação sobre o tema é muito importante", diz Nauzila. Foto: Acervo Pessoal/Divulgação

‘É problema de saúde pública’

A psicóloga Aline Félix, coordenadora da campanha Janeiro Branco Manaus, diz que transtorno mental jamais pode ser considerado uma brincadeira. É um problema de saúde pública, que precisa receber uma atenção maior até pelos índices que vêm aumentando, como de suicídio. "Precisamos psicoeducar as pessoas para que elas falem sobre o que sentem, quebrando essa relação de isolamento, tratando de modo mais sério e mais humano o tema", afirma.

A campanha “Janeiro Branco”, conforme Aline, vem para isso, fazer alusão a cultura de saúde mental, ou seja, destacando a importância de falar sobre as emoções, os sentimentos, ao olhar para o outro e para si mesmo, principalmente. “Ela traz essa reflexão de cuidar da saúde, de prevenir as doenças, não só tratar. E uma das maneiras de manter nossa saúde mental e emocional mais saudável é promover o bem-estar para nós mesmos”.

Isso é bem subjetivo, afirma ela, pode variar de pessoa para pessoa. “Para alguns pode ser uma atividade física, uma música, estar com a família, amigos; para outros, que se encontraram numa vulnerabilidade, pode ser uma psicoterapia, uma terapia alternativa, atividade física, lazer.  Tudo é bem relativo. Você promove saúde mental olhando para si mesmo e percebendo as suas necessidades e vulnerabilidades, ou seja, se autoconhecendo”, aponta.

A psicóloga Luziane Vitoriano, presidente do Núcleo de Apoio à Vida Manaus (Navima), ressalta que há ainda muitos estigmas ligados à questão da saúde mental. Esse preconceito faz com que as pessoas não procurem ajuda emocional e o “bem-estar psíquico”. Diante disso, é importante que campanhas como o “Janeiro Branco” mobilizem cidadãos, psicólogos e demais profissionais para levar mensagens e reflexões aos indivíduos e às instituições.

“Quem cuida da mente, cuida da vida. E é a partir desta reflexão que podemos chamar a atenção de cada ser humano para os cuidados consigo, com os outros e, também, para a relevância das lutas por políticas públicas em defesa da Saúde Mental em nosso País”, destaca.

A psicóloga Luziane Vitoriano ressalta que ainda há estigmas ligados à saúde mental. Foto: Jair Araújo

Ações especiais ao longo do mês

Em alusão a campanha "Janeiro Branco", a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) está com uma extensa programação ao longo deste mês, nos Centros de Atenção Integral a Criança (CAICs). Outras informações podem ser obtidas através do site: www.saude.am.gov.br. A Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) também está com atividades nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde (UBS). Informações pelo site: semsa.manaus.am.gov.br

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