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Preguiça-real tem pata amputada após ser eletrocutada em avenida de Manaus

Animal comum na fauna urbana de Manaus, a preguiça continua sendo vítima de espancamentos, atropelamentos, perda de vegetação  e choques elétricos 04/01/2012 às 16:41
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Preguiça-real encontrada caída na avenida Torquato Tapajós nesta terça-feira após ser eletrocutada
Elaíze Farias Manaus

Uma preguiça-real fêmea adulta encontrada caída no chão da avenida Torquato Tapajós, na Zona Norte, nesta terça-feira (03), após ser eletrocutada em uma fiação de poste elétrico onde havia se pendurado, traduz a atual situação desta espécie na zona urbana de Manaus.

A preguiça-real (espécie de pelagem mais longa e aparência vistosa) foi resgatada pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres do Refúgio Sauim Castanheiras, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas).

Devido à força da descarga, suas patas dianteiras foram lesionadas. Uma delas (lado esquerdo) precisará ser amputada. Após a cirurgia, o animal será avaliado para verificar se tem condições de voltar à vida livre em ambiental natural.

“Há indivíduos que têm chance de retornar porque a preguiça é esperta. Consegue se virar mesmo com algum tipo de problema”, diz veterinário Laérzio Chiezorin, gestor do Centro.

Agressão

Vítima de espancamento, atropelamento, choque elétrico e perda de espaço florestal, a preguiça é um dos animais silvestres da fauna urbana da cidade que mais sofre com a desinformação e crueldade da população de Manaus.

Somente ano passado, 116 preguiças foram resgatadas pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres do Refúgio Sauim Castanheiras. Muitos destes animais vão parar no Centro ainda filhotes, levados pelos “donos” quando estes percebem a dificuldade de criá-los em cativeiro.

Segundo o veterinário Laérzio , a incidência de preguiças eletrocutadas ainda não está entre as principais causas envolvendo resgates, mas é emblemática pois reflete as conseqüências da expansão urbana de Manaus.

Na ausência de copas altas de árvores, seus hábitos são alterados e elas acabam indo parar na rede elétrica.

As áreas onde há ligações elétricas clandestinas agravam ainda mais a situação já crítica do animal. “As redes clandestinas não têm cabos de isolamento. Este fato aumenta casos de choques elétricos”, conta Laérzio.

Laérzio Chiezorin diz que preguiça é um animal comum dentro de Manaus porque não exige uma área muito extensa e pode sobreviver em local degradado. Em geral, ela se adapta em áreas de regeneração e fragmentos isolados onde outros animais não conseguiram sobreviver.

Mas pelo comportamento passivo e pela conhecida lentidão em se locomover (apesar da habilidade em se defender), a preguiça acaba vítima da maldade alheia, segundo Chiezorin. Ou, da fatalidade provocada pela expansão urbana.

Agressão

A desinformação e o despreparo em lidar com animais silvestres ainda é o principal preocupação em relação a fauna silvestre que vive em Manaus.

Na condição de ameaçadas, a preguiça tende a se defender. E esta defesa, em geral, é feita por meio das garras.

Uma das mais agressivas na defesa é a preguiça-real (também chamada de preguiça-de-dois-dedos). Seu padrão é peculiar porque é uma espécie não é muito lenta, nem dócil e se defende bem. Para se defender, pode morder.

“As pessoas entendem como agressão e revidam matando ou machucando muito. Isso é relativamente comum em Manaus”, disse.

Segundo Laérzio, há casos de preguiças resgatadas em Manaus filhotes cujas mães foram mortas pelo ser humano. Algumas pessoas chegam mesmo a comê-las.

“A maior parte das preguiças que a gente recebe está saudável. São preguiças que aparecem nas residências, atravessam as ruas. Mas também há casos de atropelamento e até de espancamento. Há pessoas que fazem isso por pura crueldade”, conta o veterinário.

Áreas verdes

Com a redução de áreas verdes em Manaus, sem uma consciência ambiental e a elaboração de uma legislação que puna atos de crueldade e a criação de corredores ecológicos, espécies como a preguiça podem ter um futuro sombrio.

“Cada vez mais vai diminuindo o ambiente e complicado um pouco a questão da segurança do animal. Algumas áreas remanescentes seriam interessantes para que os animais se conectem”, comenta Laérzio, que reconhece que a consciência da população já mudou relativamente em relação ao tratamento dado à preguiça.

“Antes havia mais casos de animais espancados, tiros disparados e atropelamentos de propósito. Hoje ocorre menos, mas isto é um trabalho de formiguinha”, comenta.

Em Manaus, as duas espécies mais comuns de preguiça são a preguiça-bentinho, considerada mais lenta e tranqüila, e a preguiça-real, cuja característica física exuberante destoa da mais comum.

A outra espécie, conhecida apenas como “comum” tem uma distribuição maior do que a Bentinho, mas é mais comum em áreas como o Distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba.

A preguiça Bentinho alimenta-se apenas de frutas e flores. A real, além de frutas e folhas, também come pequenos animais. O habitat natural da preguiça em Manaus não é muito abrangente.

Em geral, ela se adapta em áreas de regeneração e fragmentos isolados onde outros animais não conseguiram sobreviver.