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Cotidiano
Glenn Greenwald

Impeachment: ‘Está fortalecendo ou atacando a democracia?’, indaga Greenwald

Jornalista norte-americano, que ficou famoso ao divulgar vazamentos de Edward Snowden, tornou-se uma das principais vozes na mídia internacional sobre o processo de impeachment brasileiro 08/05/2016 às 12:59 - Atualizado em 08/05/2016 às 14:58
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O jornalista Glenn Greenwald ficou famoso ao divulgar vazamentos de Edward Snowden / Foto: Reprodução/ Internet
Mariana Lima São Paulo (SP)

Glenn Greenwald, jornalista norte-americano, foi o escolhido por Edward Snowden para divulgar o programa de espionagem dos Estados Unidos. Com a repercussão da reportagem, inaugurou a era de vazamento de informações sigilosas para a imprensa, comuns hoje em operações como Lava Jato e Panama Papers. Morador do Rio de Janeiro há 10 anos, o jornalista que também é escritor e advogado especializado em Constituição, tornou-se uma das principais vozes na mídia internacional sobre o processo de impeachment brasileiro. A seguir, confira trechos da entrevista exclusiva de Glenn sobre o impeachment, operação Lava Jato e o papel da imprensa no atual cenário do País.

Em recente entrevista com o ex-presidente Lula o senhor falou sobre a lei antiterrorismo que possibilita o governo espionar a população. O que o senhor acha sobre os países que tem legitimado os seus atos de espionagem?

Quando entrevistei o Lula ele justificou a legitimação dizendo que o governo tem medo de terrorismo nas Olimpíadas e, com a lei, o País estaria mais protegido, mas para mim isso não parece ser verdade. Essa lei não é temporária, não estará em vigor só no período das Olimpíadas, ela é permanente. Essa onda de legitimação dos países mostra como os governos, as pessoas que estão no poder, sempre querem espionar. Quanto mais você sabe sobre a população, seus adversários, movimentos políticos, mais poder o governo tem para produzir contra as pessoas que são adversárias, afinal eles podem saber o que os inimigos estão fazendo. Para mim foi muito interessante porque pouco tempo antes, Lula e Dilma haviam denunciado o fato de o juiz Sérgio Moro estar grampeando e depois divulgando as conversas privadas deles. E também na época do Snowden, Dilma e Lula também criticaram muito os Estados Unidos e de repente agora estão fazendo uma lei para dar esse poder para o próprio governo. Eu vejo ai uma contradição, uma hipocrisia em relação a como eles estavam agindo e o que eles estão fazendo agora.

O jornalismo vive uma era de vazamentos como o caso Snowden, o Panama Papers e aqui no Brasil a divulgação das delações premiadas da Operação Lava Jato. O senhor acha que essas vazões para a imprensa fortalecem a democracia?

Eu acho que tem uma parte muito importante com a Lava Jato que está fortalecendo a democracia porque está mostrando que independente do poder, da posição e da riqueza, todas as pessoas estão sujeitas a lei. E há muitos países, como os Estados Unidos, onde as pessoas muito poderosas ainda estão a cima da lei. Então para mim é muito bom ver empresários e políticos influentes indo para a prisão por corrupção. Também acho muito interessante o fato que os procuradores e juízes que conduzem a operação são muito jovens, com 35 e 40 anos e já cresceram em democracia e acho que eles acreditam muito na independência judicial. E um Poder Judiciário independente é o mais importante para uma democracia madura. E acho que esse aspecto da Lava Jato é muito bom, o problema está em como o processo judicial tem cunho político, e não é tema, é o poder que isso tem gerado. Está havendo um abuso de poder muito perigoso. Eu estava apoiando muito a operação até o mandado de condução coercitiva do Lula e a divulgação das conversas entre ele e Dilma e outras pessoas. Nesse momento mostrou que agora o motivo é político e para mim isso isso é algo muito perigoso.

No início da cobertura do impeachment a mídia internacional fez fortes críticas ao governo Dilma, mas atualmente vemos que os veículos mudaram de opinião e chegam até a falar em golpe. Por que o senhor acha que teve essa mudança?

Eu acho que ao chegar em um país complexo como o Brasil, o jornalista estrangeiro tende a entender tudo de um jeito mais simplificado, e a forma mais simples de ver o momento é: tem milhões de brasileiros protestando na rua contra o governo corrupto. Além disso, nos Estados Unidos e Europa há um peso histórico de não gostar de governos de esquerda na América Latina. Sabemos que os Estados Unidos e seus aliados tentam fazer golpes contra esses governos de esquerda nessa região. Então os jornalistas já vem com a concepção que qualquer governo de esquerda na América Latina é corrupto e precisa ser destruído, mas eu acho que o Brasil é um país muito grande e não conseguiram esconder os fatos. A coisa mais importante para mudar a opinião da imprensa internacional foi quando começaram a olhar para os políticos que estão liderando o processo de impeachment contra a Dilma. Olhando para pessoas como Eduardo Cunha e Aécio Neves eles puderam ver que é um fato incrível! As pessoas que estão liderando o impeachment e terão muito mais poder depois da saída da presidente são muito mais envolvidos em corrupção do que ela. E quando você percebe esse fato imediatamente entende que o impeachment não é sobre corrupção, porque se é sobre corrupção quem vai apoiar o processo para aumentar o poder dos corruptos? Ninguém que é contra corrupção vai apoiar o processo que dá mais poderes a Michel Temer, Eduardo Cunha e outras pessoas assim. Então é muito óbvio que corrupção é uma desculpa, um pretexto para o processo e não o motivo. Acredito que entender isso fez mudar o modo da imprensa internacional ver e noticiar esse processo.

O senhor acha que estamos vivendo um golpe?

Para mim o debate sobre ser ou não um golpe não é muito importante, é algo mais semântico. A primeira coisa que a gente tem que se perguntar é 'o que é um golpe?'. O golpe é uma palavra política, não é muito específica. Para muitos aqui golpe é quando militares usam a força para invadir um prédio, tirar, matar ou forçar o presidente sair do país e isso não é exatamente o que está acontecendo no Brasil. Há outras formas de golpe, mas essa palavra para muitas pessoas é associadas a isso. Essa questão de ser um golpe ou não ajuda muito as pessoas que estão apoiando o impeachment porque é muito fácil falar: não é um golpe, estamos usando a lei, estamos usando a Constituição e estamos sob a autoridade dos tribunais. Para mim, a questão mais importante e interessante é: isso está atacando ou fortalecendo a democracia? E acredito ser algo muito forte contra a democracia. O objetivo é destruir um partido que ganhou quatro eleições consecutivas que os adversários não conseguiram vencer nas urnas e é estão buscando uma possibilidade de destruir o partido fora do processo democrático e colocando uma pessoa que nunca poderá ser eleita como presidente no lugar de Dilma. E isso é algo muito forte.

 O senhor disse que as pessoas não percebem que o impeachment é uma forma da elite brasileira de proteger os ladrões. O senhor pode explicar melhor isso?

Eu acho que agora as pessoas estão percebendo que o plano, o motivo não é punir a corrupção, é o oposto, é proteger a corrupção. Porque eu acho que no minuto que a Dilma sair, Globo, Veja o Estadão vão perder muito interesse no escândalo da Lava Jato e com a história sobre corrupção. Acho que o público vai ser persuadido a achar que o problema foi resolvido. E um grupo novo em Brasília, que vai ter muito mais poder, Cunha ou Temer ou os aliados deles implicados em corrupção, poderá usar o poder deles para matar essa investigação. Para mim esse é o objetivo com o impeachment.

O juiz Sérgio Moro é visto como herói por uma parte da população, como o senhor vê a postura dele em relação a isso?

É muito perigoso. Para ter um processo judicial independente que analisa lei e poderes políticos precisa ter um juiz quase invisível, sem muita personalidade. Para mim no início do processo o juiz Sérgio Moro estava fazendo o que deve ser feito aplicando leis independente de resultados políticos. Mas eu acho que essa adoração, essa fama que agora ele tem está afetando muito o comportamento dele. Moro agora está achando que é um herói mesmo e que deve acabar com as pessoas mais poderosas. Eu acho que ele tem uma obsessão com o presidente Lula e Dilma, ele quer mostrar que pode acabar com eles e para mim quando esse processo começou a focar só no partido virou algo muito ruim.

Frases de Glenn Greenwald

"Dilma e Lula criticaram muito os EUA e, de repente, agora estão fazendo uma lei para espionar como eles".

"As pessoas que estão liderando o impeachment, e terão muito mais poder depois da saída da presidente, são muito mais envolvidos em corrupção do que Dilma".

Perfil

Glenn Greenwald

Idade:  49 anos

Nacionalidade: Norte-americano (Nova York)

Profissão: Jornalista, escritor e advogado

Formação: Universidade de New York e Universidade Law School

Prêmios: Prêmio Pulitzer (EUA) sobre "Caso Snowden"; primeiro jornalista estrangeiro a ganhar o Prêmio Esso de Reportagem (Brasil) sobre "A espionagem a cidadãos e empresas no Brasil", Prêmio George Polk (EUA) sobre segurança nacional.