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Cotidiano
OURO AMAZÔNICO

O DNA do guaraná de Maués: a produção do fruto amazônico passada de pais para filhos

O cultivo e a comercialização dele ainda são a base econômica do município e o sustento das famílias. Por ano, são 300 toneladas exportadas 07/01/2018 às 18:46 - Atualizado em 07/01/2018 às 18:58
Show guaran
Foto: Divulgação
Paulo André Nunes Maués (AM)

A produção de guaraná para a exportação em Maués, cidade a 253 quilômetros de Manaus, já está na terceira geração de famílias como a do casal Sebastião Moraes do Amaral, o “Sabá”, 51, e dona Ester Meister Amaral, 47, que mora na comunidade do Lago do Rio Limão Grande, distante 30 minutos da sede do município. A família é considerada um exemplo de produtores-modelos na extração do fruto, tendo 10 hectares de plantação onde foram colhidos, nesta temporada, uma tonelada e meia.

Para chegar à comunidade onde o casal mora, é necessário pegar uma “voadeira”, típica embarcação amazônica movida a motor com estrutura e casco de metal (geralmente alumínio), em Maués. A viagem dura, em média, 30 minutos pelo rio.

No local, a produção começou com o pai de Ester, o descendente de alemães Alfredo Meister - já falecido-, e passou para a filha e o marido, que agora está na terceira geração com os filhos deles, com Rafael Meister, 28, e a caçula Suelen Meister, de 12 anos. “Meus pais já plantavam guaraná numa época onde o fruto era muito barato e tinham muitos filhos pequenos. Meus irmãos também estão empenhados nisso”, disse Ester.

“É um orgulho porque começou com meu pai, ainda num guaranazal todo capinado de enxada. É um produto que corre o mundo todo em vários produtos e cosméticos”, contou.

Ainda de acordo com a agricultora, a plantação de guaraná é uma renda extra. “Hoje não compensa mais plantar na roça para produzir farinha, que é um trabalho muito grande e não dá preço. Só dá mesmo para comer. Há muitas opções para plantar como macaxeira, mandioca, banana e agora o açaí. A pessoa só não planta aqui se não quiser pois a terra é boa e fértil”, destacou ela.

Regime de chuvas


Família Meister reunida na fazenda de guaraná (Foto: Divulgação)

O plantio do guaraná começa no período chuvoso levando, quando o solo começa a ter mais água, favorecendo a produção.

A época de colheita do guaraná é entre outubro a dezembro, às vezes chegando a janeiro. Na fazenda de seu Sabá e dona Ester, após a colheita, o processo a seguir é deixar o guaraná condicionado em um barracão para ele murchar a casca.

Depois a casca é extraída manualmente por meio de paneiros, onde é lavado e colocado para torrar. Em seguida, a venda é feita para a empresa Ambev, que o transforma o produto no guaraná “Antarctica”.

Herdeiros querem avanços

Da terceira geração de produtores da família Meister, Suelen Meister, 12, a caçulinha da casa, atua ajudando os pais colhendo, lavando e torrando guaraná, além de ajudar a “bater” o fruto. Desde os 9 anos ela participa desse processo familiar.

Ela falou da importância da participação dela no cultivo da fruta, símbolo de Maués, e do que representa ajudar seus os pais e continuar a tradição. “Quero ajudar até crescer no trabalho que os meus pais fazem”, disse a estudante do 7º ano da escola municipal Escola Municipal Alfredo Master.

Já Rafael Meister, 28, trabalha na roça com os pais desde os 10 anos. “Desde a infância já atuamos aqui na área plantando diversas culturas. Trabalhei na roça plantando mandioca, fazendo farinha”, comentou ele, que estudou em Maués, mas voltou à comunidade para ajudar os pais na produção de guaraná para a exportação. “Passei um tempo fora, para estudar, e morei em Maués, na Embrapa, e em alguns órgãos públicos. Depois, eu retornei para cá e hoje estamos na ativa novamente, produzindo e aumentando cada vez mais a nossa produção”, afirmou ele.

De acordo com o jovem, foi na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Maués, que ele aprendeu novas técnicas para melhorar a produção do guaraná e decidiu levar para casa, para facilitar o trabalho da família.

“Hoje nós conseguimos ter um padrão de trabalho igual a que as grandes empresas fazem, como adubação e limpeza. O que a gente percebe é que se não for dessa maneira não há uma produção do jeito que a gente espera. Ou se trabalha padronizado, ou nada”, explicou ele.

“Estamos cuidando daquilo que nossos avós e pais começaram anos atrás. E para mim é um privilégio estar aqui continuando o trabalho que eles lutaram e sonharam. É muito prazeroso trabalhar com a plantação e produção de guaraná. E tem certeza que os meus pais ficam muito felizes por estarmos seguindo nessa luta, junto com eles”, contou o jovem.


O guaraná é símbolo do município de Maués (Foto: Arquivo A Crítica)

Base da economia

Até hoje a economia de Maués  gira, principalmente,  em torno da cultura do guaraná.  De acordo com a prefeitura do município, mais de 300 toneladas do fruto são exportadas anualmente.  O município também produz em pequena escala outras culturas como: milho, feijão, melancia, pupunha, limão, cupuaçu, entre outros. Pecuária, avicultura e pescado também têm impacto significativo na economia local.

Pesquisas feitas em Maués indicam que o guaraná pode contribuir para a maior longevidade dos idosos. Grande parte da população costuma misturar o pó de guaraná com água e açúcar para ter mais disposição durante o dia.

Hábito que vem dos índios da região que há muito tempo fazem a bebida para ter energia para caçar e cuidar dos afazeres diários. O que estes índios descobriram há muito tempo tem sido estudado nos últimos anos. Muitas pesquisas são feitas com guaraná para dar crédito científico ao que a sabedoria popular diz. É antioxidante, energético, afrodisíaco, tira a fome e é considerado parte do que garante longevidade às pessoas.

Tradição

O casal Sabá e Ester trabalha em Maués há 28 anos, mesmo tempo em que os dois  estão juntos. Eles se conheceram em Manaus, mas se mudaram para o município, de onde não saíram mais. “Viemos para Maués, onde começamos a trabalhar e estamos junto até hoje. Isso aqui é tudo para mim, nossa vida, nosso lugar. Fonte de vida, fonte de renda, de onde nos alimentamos. E agora nossos filhos Rafael e Suelen. É a terceira geração. Eu já tenho 51 anos e queria alguém para ajudar e eles estão aí para isso”, explicou.

De acordo com o agricultor, o filho mais velho já sabe “tocar” o negócio e a caçula já sabe como lidar com a plantação. “Ele passou um tempo em Maués e adquiriu conhecimento que foi essencial para nós. Ele como fazer a muda do guaraná, mostrou para nós como é, e eu aprendi a técnica. Deu certo”, comentou.

Em relação à antiga produção, ele disse que o estilo de trabalhar mudou. “Antigamente meus avós e eu mesmo, ninguém adubava, nem podava as árvores. Isso foi mudando, e naquela época não dava tanto quanto dá hoje. Hoje dá mais guaraná que nos tempos passados”, explicou o produtor.

*O repórter viajou a convite do Guaraná Antarctica

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