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Cotidiano
saúde pública

População apoia adoção de 'padrão de produtividade' e de biometria no SUS

Usuários da rede pública apóiam a adoção de medidas propostas pelo ministro da Saúde para garantir um ‘padrão de produtividade’ nos atendimentos, enquanto categoria vê camuflagem dos problemas estruturais 17/07/2017 às 09:41 - Atualizado em 17/07/2017 às 09:51
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Francisco Amorim, 62, diz que os atendimentos hoje são ruins em muitas unidades de saúde da capital (Foto: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

A adoção de biometria em todas as unidades de saúde e de um “padrão de produtividade” para fiscalizar o trabalho de profissionais que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), em especial os médicos, defendida pelo ministro da Saúde, Ricardo Barros, é bem vista pelos usuários, assim como também o tempo da consulta, de no mínimo 15 minutos como preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS), ser respeitado. Para eles esta será uma forma de garantia de uma boa assistência. 

Em Manaus, as reclamações sobre os atendimentos médicos nas unidades de saúde não são poucas. É difícil encontrar um usuário do SUS que não tenha uma experiência ruim para contar. “Fui ao médico um dia desses por causa de uma dor no joelho e ele nem olhou na minha cara direito. Perguntou qual era o problema, eu falei, ele passou um remédio e pronto. Tem muitos lugares que você é tratado desta forma mesmo”, disse o autônomo Francisco Amorim, 62.

O pintor Waldemir da Silva Furtado, 54, é outro que vivenciou experiências nadas atenciosas nas unidades de saúde da capital. “Você chega com o médico e ele pergunta o que você tem, como se a gente soubesse, e passa um medicamento sem ao menos ter certeza do verdadeiro problema”, destacou. “Fora a falta de médico, quando é horário de troca de turno, se é para ele entrar 7h, só entra 8h e a gente tem que ficar esperando até lá”, completou.

As declarações do ministro Ricardo Barros sobre biometria e “padrão de produtividade” foram feitas na última quinta-feira, durante o anúncio de R$ 1,7 bulhão para qualificação e ampliação do atendimento à população. Na ocasião, ele afirmou ainda que muitos pacientes buscam diretamente o pronto-socorro dos hospitais porque médicos não cumprem a carga horária contratada nas unidades básicas de saúde, que deveriam responder pelo primeiro atendimento.

“O grande problema de saúde é que não conseguimos fazer com que o médico fique quatro horas na unidade de saúde. A pessoa que tem problema vai diretamente no hospital, porque lá ele sabe que vai estar o médico”, disse citando o fato de que a maioria dos médicos tem mais de um emprego e, com isso, não consegue cumprir a jornada. “Eles têm quatro, cinco empregos e não dão conta de cumprir o horário. Trabalha um pouquinho e faz de conta que está tudo certo. Vamos ter que pagar um salário justo aos médicos e exigir que estejam lá à disposição da população", completou.

“Hoje o médico vai lá, faz quatro horas de concurso e marca 16 consultas. Ele faz cinco minutos de consulta e vai embora. Queremos o médico no tempo que concursou”, disparou. “A biometria do funcionário vai permitir que essas pessoas cumpram o contrato que fizeram com o poder público”, defendeu.

Em números

50% é o número de médicos das redes públicas dos municípuios  que pedem demissão após a instalação do sistema de biometria, pelo qual  as entradas e saídas são registradas pela leitura da impressão digital,  de acordo com o ministro da da Saúde, Ricardo  Barros.

Custos repartidos

De acordo com o ministro Ricardo Barros, o governo já publicou um credenciamento para selecionar empresas de informática para informatizar e ter a oferta de biometria nas unidades de saúde até 2018. O custo deve ser dividido entre União e municípios.“Vamos estabelecer metas, e quem estiver abaixo do seu desempenho vai ser chamado a aumentar sua produtividade”, afirmou.

Conselhos pedirão explicações de ministro

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam), José Bernardes Sobrinho, as declarações do ministro da Saúde, Ricardo Barros, “foram extremamente infelizes, e de uma pessoa que desconhece o que é medicina”. “Temos quarta-feira uma reunião com ele e representantes dos CRMs de todo o País e esse assunto será abordado com certeza. Vamos querer saber o que ele quis dizer”.

Sobrinho ressaltou que o trabalho do médico é muito relativo, tem cirurgia que pode demorar meia hora, outra seis ou mais horas. O atendimento de cada doente também é diferente, tem alguns que duram 15 minutos ou menos, já têm outros que demoram meia hora. “Se for o caso de biometria tudo bem, agora querer avaliar a produtividade, cada especialidade é diferente, depende da complexidade dos procedimentos”.

Na opinião do presidente do Cremam, o ministro, com as declarações, quis tirar o foco das péssimas condições da saúde no Brasil, colocando a culpa nos médicos. “Antes de cobrar, deveria se preocupar em oferecer condições de trabalho para o médico. Falta equipamento, medicamento, falta tudo. No Amazonas, tem paciente internado em cadeira. Esta semana mesmo atendi pacientes nestas condições”, afirmou.