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Professor que identificou fraude em vestibular no Amazonas se sente ameaçado

O professor disse que foi ameaçado e que procurou ajuda junto a um membro do MPE, que ele preferiu não revelar o nome. Como resposta, o professor recebeu a informação de nada poderia ser feito, uma vez que nem mesmo os membros do MPE têm esse direito 02/08/2012 às 07:39
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Malote com provas do processo seletivo de 2008; na ocasião, representante da Fundação Getúlio Vargas abre pacote na presença da então reitora, Marilene Corrêa
Joana Queiroz Manaus

O empresário e professor Tirson Benarrós 36, que em 2008 ajudou a polícia a desarticular uma quadrilha especializada em fraudar vestibular, diz que está temeroso pela segurança dele da família, depois que seu nome apareceu como a única testemunha de acusação no processo que a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) move contra seis integrantes do bando. O professor disse que foi ameaçado e que procurou ajuda junto a um membro do Ministério Público Estadual (MPE), que ele preferiu não revelar o nome. Como resposta, o professor recebeu a informação de nada poderia ser feito, uma vez que nem mesmo os membros do MPE têm esse direito. “Depois que ouvi isso de um promotor, não procurei mais ajuda de ninguém”, disse.

Benarrós disse que sua vida virou “de cabeça para baixo” depois que decidiu denunciar a ação da quadrilha que fraudou o vestibular da UEA de 2008. Assim que comprovou a fraude por meio da compra e venda das provas do concurso, ele formulou a denúncia na Secretaria Executiva Adjunta de Inteligência (Seai), junto ao secretário Thomaz Augusto de Vasconcelos Dias. Este lhe garantiu que o seu nome seria mantido em sigilo e que não apareceria no processo. Mas ficou surpreso assim que o MPE  ofereceu denúncia, onde constou seu nome arrolado como testemunha no processo.

O professor disse que depois que fez a denúncia recebeu ameaças veladas por meio de mensagens de celular e que ele informou o fato à Seai. Ele disse que chegou a deixar o celular na secretaria para que fosse investigado. O professor não revelou o teor das mensagens. Ele disse que, na época, precisou sair de Manaus. Hoje, ele teme que tais ameaças sejam cumpridas, já que os réus do processo estão em liberdade.

“Quando fiz a denúncia, recebi garantias de que meu nome e o de minha empresa não seriam expostos e que meu depoimento seria altamente sigiloso. Mas, infelizmente, quem quiser ter acesso ao meu depoimento está aí, livremente exposto na Internet”, disse o professor.

O professor disse que hoje ele vive assustado, teme que alguma coisa ruim aconteça com ele  ou com a sua família, mas que não está arrependido de ser o autor da denúncia e que faria tudo de novo. Entretanto, enquanto cidadão, profissional e chefe de família, diante dos fatos, ele responsabiliza as esferas públicas competentes se algo acontecer com ele ou com alguém de sua família.

Na última segunda-feira, ele teve que ficar cara a cara com os denunciados durante a audiência de instrução processual que aconteceu na 1ª Vara Criminal, no Fórum Henoch Reis. “Seis pessoas foram denunciadas por mim e a vida delas depende do que eu falei para serem condenadas ou não”, disse o professor.

Benarrós foi ouvido em audiência presidida pelo juiz Luis Alberto Albuquerque junto com os réus Marcelo Andrade Bonfim, Reginei de Souza Azevedo, Luciana Ramos da Silva e Kevin Campos Zau.

Cópia da prova foi feita em Tefé
De acordo com o juiz Luis Alberto Albuquerque, Marcelo Andrade Bonfim, Reginei de Souza Azevedo, Luciana Ramos da Silva foram denunciados pelo art.171 do Código Penal que define o crime de quem obtém ou tenta obter para si ou para outrem vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro.

Já o réu Kevin Campos Zau responde somente pelo artigo 180 do CPB, que significa adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, produto de crime, ou influir para que terceiros, de boa-fé, adquiram-no.

No autos, Marcelo Andrade Bonfim aparece como o responsável pelo rompimento do lacre de segurança em Tefé (a 575 quilômetros de Manaus); o professor Reginei de Souza Azevedo como sendo a pessoa que recebeu, via fax e pelos Correios, a prova de cor rosa do vestibular. Luciana e Kevin teriam obtido cópias de prova resolvida de maneiras diferentes.

Mesmo me sentindo ameaçado, Benarrós disse que espera que os responsáveis pela fraude sejam julgados, condenados e presos, o que seria um fato inédito na Justiça amazonense. Para ele, somente com a punição dos responsáveis os concursos públicos no Amazonas voltarão a ter credibilidade.

‘Silêncio’
Na audiência realizada na segunda-feira, que ocorreu a portas fechadas, os acusados foram interrogados pelo juiz titular da 1º Vara Criminal, Luis Alberto Albuquerque, e pelos advogados dos suspeitos. Eles não quiseram falar sobre o caso.

Fraude
De acordo com os autos, o vestibular da UEA de 2008, foi fraudado por uma pessoa que trabalhava no transporte das provas junto à Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ela aproveitou o descuido dos colegas em Tefé, no Médio Solimões, e copiou uma prova de cor rosa que foi distribuída para um professor de aulas particulares em Manaus. Cinco pessoas teriam pagado de R$ 2 mil a R$ 8 mil pelo gabarito antecipado.

Estado oferece garantias
O promotor de Justiça e membro da Comissão de Combate ao Crime Organizado (Caocrimo), André Sefair, disse ontem que não tem como o nome de uma pessoa que faz a denúncia não aparecer no processo. O que pode ser feito é fazer constar apenas as iniciais. “Eu não posso falar com propriedade sobre o caso, mas como promotor posso dizer  é possível preservar a imagem da testemunha diante dos acusados, desde que ela se manifeste”, explicou.

Segundo Sefair, o Estado tem mecanismos legais de proteção a pessoas que se sintam ameaçadas: trata-se do Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita).

Para entrar no programa, a pessoa tem que requerer do promotor do processo e este solicita o ingresso dele na proteção. Atualmente há muitas pessoas que estão sob a proteção do Provita, segundo Seffair.

O secretário executivo de inteligência da Secretaria de Segurança Pública (SSP), Thomaz Augusto de Vasconcelos Dias, disse que durante a instrução do inquérito policial foi mantido o compromisso firmado com o professor Tirson Benarrós: o nome dele não apareceu e foi mantido em sigilo total. Agora, depois que o inquérito foi encaminhado à Justiça, não cabe mais à polícia manter ou não o sigilo.

Thomáz Vasconcelos disse que o professor nunca o procurou dizendo que estava sendo ameaçado e nem pediu proteção. O secretário explicou que quando ocorrem ameaças a testemunhas no curso do processo cabe prisão dos suspeitos, caso fiquem comprovadas as ameaças, mas que a vítima precisa denunciar.

O secretário executivo disse que Benarrós pode procurar o sistema de segurança que lhe será dada toda garantia necessária. Thomáz Vasconcelos disse ainda que todas as pessoas que precisam de segurança de vida podem recorrer ao Ministério Público que dispõe do Provita.