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Refugiados de guerra têm um recomeço em Manaus

Fugindo da violência nos países de origem, homens e mulheres embarcam em uma viagem incerta em busca de uma nova vida 01/09/2012 às 23:45
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Há seis meses em Manaus, Lamini Câmara contou que fugiu do país africano de Guiné-Conacri para o Brasil em um cargueiro em busca de melhores condições de vida
Náferson Cruz ---

Eles passam semanas sem comida, escondidos em navios, muitos são jogados ao mar quando descobertos, isso quando não morrem em decorrência de doenças . Os “leões negros”, como são chamados os africanos, cruzam o Atlântico em uma arriscada e insalubre viagem de 6 mil quilômetros para fugir da guerra, de perseguições religiosas e da fome, em busca de melhores condições de vida no Brasil.

Muitos morrem pelo caminho, outros sobrevivem para contar histórias. Como a do industriário Lamini Câmara, 28, que chegou a Manaus, em fevereiro deste ano, vindo de Guiné-Conacri, país africano que faz fronteira com Serra Leoa, Costa do Marfim e Guiné-Bissau.

Hoje, atuando como industriário, Lamini conta que viajou em um cargueiro por duas semanas e passou fome por cinco dias, até chegar ao Rio de Janeiro, no início do ano. O africano disse que estava certo de que superaria a fome e as péssimas circunstâncias da viagem, mas temia ser jogado ao mar.

“Navios de países pobres costumam jogar clandestinos no mar para evitar arcar com os custos, por conta da lei que impede o desembarque clandestino de refugiados”, disse.

Já no Brasil, após passar alguns dias na capital fluminense, Lamini resolveu seguir em  outra jornada: uma viagem de quase dez dias pelas estradas brasileiras até chegar a Porto Velho e, posteriormente, a Manaus, onde recebeu apoio do Programa de Proteção e Assistência a Refugiados da Cáritas Manaus, em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

Aqui, a sorte de Lamini mudou. Ele legalizou parcialmente sua situação e hoje mora no bairro Colônia Oliveira Machado, na Zona Sul, e garante o sustento como industriário em uma empresa  no Distrito Industrial.

Traumas

No entanto,  Lamine disse que jamais vai esquecer o sofrimento. “São assassinatos em massa, perseguições, mulheres submetidas a torturas e violações, antes de serem mortas. Em alguns casos, militares chegaram ao ponto de introduzir armas em seus corpos para, em seguida, atirarem”, contou.

O guineense-conacri lembrou do pai, que foi preso em Conacri, capital da Guiné-Conacri, quando protestava junto a uma multidão em um estádio, contra uma nova candidatura de Moussa Dadis - atual presidente - às eleições presidenciais, previstas para janeiro. Moussa, que tomou o poder depois da morte do presidente Lansana Conté, em dezembro de 2008, agravando a crise política no país africano, havia prometido não se candidatar à reeleição.

De acordo com Lamini, mais de 1cem pessoas morreram no protesto. Execuções, estupros e ocultação de cadáveres são algumas das atrocidades a que os moradores foram submetidos. “As pessoas estavam desarmadas”.

Africanos refugiados no AM

De janeiro deste ano até o dia 3 de agosto, pelo menos cinco africanos chegaram a Manaus. Em todo o Brasil, os africanos representam 63% dos refugiados.

Andreia Gomes, assistente social da Cáritas Manaus que coordena os Programas de Proteção e Assistência a refugiados e solicitantes de refúgio, ressalta que receber refugiados não é uma ação de boa vontade, mas uma obrigação do Direito Internacional: “Essa responsabilidade está prevista na revisão da Convenção de Genebra, de 1949, e na Declaração de Cartagena, de 1984, às quais  os países da América Latina incorporaram suas legislações”.

No Brasil, os refugiados recebem carteira de trabalho, documento de identidade e têm direito à saúde, educação e moradia.

“No período de adaptação, normalmente de três a seis meses, eles recebem ajuda financeira. Entretanto, diante  de toda a estrutura voltada para que o refúgio se dê da maneira mais tranqüila e organizada possível, a saudade do passado e os traumas físicos e psicológicos das situações que impuseram o exílio, os refugiados são duas vezes sobreviventes: por chegar ao refúgio e por resistir a todas essas dificuldades”, disse Andréa.