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Risco de desabamento de túmulo de Jesus une grupos cristãos rivais

Em meio às rixas, a estrutura instável de 206 anos – que continua em pé graças a uma jaula de ferro de 69 – é um símbolo das divisões cristãs que, de vez em quando, explodem em tensões 07/05/2016 às 19:25
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Andaimes foram erguidos no primeiro passo de um acordo raro entre os diferentes grupos para impedir que o santuário desabe de vez (foto: Uriel Sinai/The New York Times)
Diaa Hadid © 2016 New York Times News Service

Era um dia como outro qualquer no templo próximo ao que muitos acreditam ser o túmulo de Jesus, na Cidade Velha; um coral ortodoxo grego cantava dentro de um salão, de frente para a estrutura barroca, mas as vozes foram engolidas quando os padres e monges armênios que davam a volta no local levantaram as suas.

"Às vezes, eles saem no soco", conta o segurança da igreja Farah Atallah, que usa um fez, observando com indiferença.

Atallah é testemunha calejada das rivalidades entre as comunidades ortodoxas gregas, ortodoxas armênias e católicas que compartilham, apesar do ciúme – que, muitas vezes, gera até briga –, o que consideram o local mais sagrado do cristianismo, o interior da Igreja do Santo Sepulcro.

Em meio às rixas, a estrutura instável de 206 anos – que continua em pé graças a uma jaula de ferro de 69 – é um símbolo desconfortável, constrangedor até, das divisões cristãs que, de vez em quando, explodem em tensões. Em 2008, monges e padres brigaram feio perto do templo, trocando socos e puxões de cabelo praticamente ao lado do local de onde, os cristãos acreditam, Jesus ressuscitou.

Entretanto, de umas semanas para cá, andaimes foram erguidos perto dali, às sombras melancólicas do Arco da Virgem, no primeiro passo de um acordo raro entre os diferentes grupos para impedir que o santuário dilapidado, também conhecido como Edícula, desabe de vez.

A iniciativa, firmada em 22 de março, quer uma reforma de US$3,4 milhões que deve começar no início de maio, depois da celebração da Páscoa ortodoxa. Cada facção contribuirá com um terço dos custos; um banco grego contribuiu com 50 mil euros, ou US$57 mil, para a montagem dos andaimes, em troca de ter seu nome exibido no maquinário.

A ideia é remover centenas de anos de história, fazer uma boa limpeza, e recolocar tudo no lugar. O processo pode parece simples, mas foi adiado durante décadas por causa das regras centenárias complicadas e as tradições minuciosas, conhecidas como "status quo", que definem a maneira como os locais sagrados de Jerusalém são administrados e rezam que o próprio reparo pode implicar em propriedade.

"Uma das questões mais sérias dentro da Igreja é o fato de o 'status quo' se sobrepor a toda e qualquer consideração, o que não é bom. A união é mais importante que uma disputa de território", diz o franciscano Athanasius Macora.

E a inspiração para tal pacto foi a ameaça de perder o templo de vez. Alarmada com os relatos de que a estrutura corria o risco de ruir, a polícia israelense a manteve isolada durante várias horas, em 17 de fevereiro do ano passado, expulsando os monges que a protegiam e impedindo a entrada de centenas de peregrinos.

O recado não poderia ser mais claro: "Consertem-na, senão..."

Então, após um ano de muito estudo e negociações, uma equipe de especialistas na conservação de monumentos agora planeja primeiro retirar a gaiola de ferro que o governo colonial britânico construiu, em 1947, em uma das primeiras iniciativas de evitar a ruína da Edícula, depois que um terremoto de 1927 e o excesso de chuvas a deixaram cheia de rachaduras, as lajes de mármore se soltando.

E elas, que compõem a estrutura ornamentada construída em 1810, durante o regime otomano da cidade, serão retiradas uma a uma; a seguir, os conservacionistas tratarão dos restos do templo cruzado do século XII que há por baixo, erigido depois que al-Hakim, o líder xiíta egípcio, ter destruído a primeira Edícula, em 1009. Ela foi erguida por Helena, mãe do imperador Constantino, o romano cristão responsável por elevar o status do Cristianismo em todo o império.

Por fim, os operários vão consertar as rachaduras no que restou da tumba escavada na rocha que há sob ela, onde a grande maioria dos cristãos acredita que Jesus foi colocado depois de ser crucificado. (Há uma Tumba de Cristo concorrente, do lado de fora dos muros da Cidade Velha, defendida principalmente pelos protestantes, mas essa é outra história.)

Antonia Moropoulou, responsável pelo projeto, garante que o monumento permanecerá aberto aos visitantes durante praticamente todo o processo.

Dia desses, centenas de peregrinos aguardavam para entrar enquanto os católicos rezavam uma missa perto da Edícula, bloqueando a entrada com os bancos de madeira. O templo é coberto por uma cúpula imensa cinza decorada com ouro, ícones, pilares, velas, luminárias pesadas de bronze, inscrições e uma pintura enorme do Cristo.

"Essa é uma superexperiência espiritual. Nada no mundo me desperta o sentimento que tenho por esse lugar, essa tumba. É um lugar extremamente sagrado", afirma Anil Macwan, padre católico indiano de trinta anos.

As três comunidades cristãs protegem vigilantemente a propriedade que já controlam, a ponto de surpreender quem chega a primeira vez ao Santo Sepulcro, uma combinação cavernosa das arquiteturas bizantina e cruzada, com domos altíssimos, salas em diferentes níveis, luz pálida, luminárias pesadas de bronze, pilares robustos e arcos elegantes.

Na entrada há um mosaico dourado tão chamativo em uma das paredes, de propriedade dos membros da Igreja Ortodoxa Grega, que até distrai da presença da Pedra da Unção, ali perto, ou o mármore que cobre o local onde Jesus foi ungido.

Ao lado há uma escada de propriedade dos católicos, que não vão tirá-la dali. Ela fica perto de um corredor curto, controlado pelos armênios, que leva à Edícula, por onde sacerdotes não-armênios paramentados podem passar, mas não parar, o que sugeriria que estão desafiando o controle do local.

A última reforma significativa ocorreu na década de 50, quando as autoridades jordanianas que controlavam Jerusalém Oriental na época forçaram os representantes cristãos a formar um grupo de técnicos para cuidar dos danos causados pelo terremoto de 1927 – mas o processo foi interrompido mais de uma década depois, segundo Macora.

Depois da última disputa constrangedora, em 2008, registrada no YouTube, as comunidades rivais começaram a tentar recuperar as relações com seriedade, consertando os banheiros como sinal de boa vontade. Em 2014, o Papa Francisco se encontrou com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I de Constantinopla, líder espiritual dos cristãos ortodoxos, na Edícula, para promover a união.

"Mesmo assim, alguém teve que nos pressionar; se o governo israelense não tivesse se envolvido, ninguém teria feito nada", confessa o reverendo Samuel Aghoyan, representante do Patriarcado Armênio no Santo Sepulcro, que saiu no braço com o antigo patriarca ortodoxo grego, Irineu I, dentro da Edícula no sábado de Aleluia de 2002.

Antonia, a conservacionista que supervisiona a reforma, espera que a estrutura mantenha o clima intangível de "um monumento vivo".

"Esta tumba é o lugar mais intenso que qualquer outro em que estive na minha vida", afirma. "O maior desafio é preservar esse espírito", conclui.

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