Publicidade
Cotidiano
ENTREVISTA

Após 20 anos de SEC, Robério Braga fala do passado, futuro e de seu amor pela arte

Procurado para entrevista no dia da exoneração da Secretaria de Cultura, ex-secretário pediu um tempo para a “emoção baixar”. No último dia 10, mais inteiro do que nunca, recebeu a reportagem em sua gigante biblioteca 14/10/2017 às 14:30
Show roberio braga
Robério Braga concede sua primeira grande entrevista "pós-SEC". Foto: Márcio Silva
Aruana Brianezi Manaus

Em 1975, com 23 anos de idade, Robério dos Santos Pereira Braga assumiu seu primeiro cargo importante na administração pública, o de chefe de gabinete do prefeito Rui Adriano. Desde então, foram mais de quatro décadas trabalhando em cargos do alto escalão, com intervalo de um mandato e meio como vereador de Manaus.

Metade desse tempo, exatos 20 anos e nove meses, ele esteve à frente da Secretaria de Estado da Cultura (SEC). Robério foi, até o último dia cinco, o primeiro e único titular da pasta. Substituído pelo mesmo político que criou o cargo e o escolheu para ocupá-lo, o agora quatro vezes governador Amazonino Mendes, Robério Braga recebeu a equipe de A Crítica no último dia 10 para falar de passado e de futuro.

Na primeira grande entrevista após quase 21 anos de SEC, o ex-secretário fala com orgulho do trabalho realizado, conta como fez para “vender” o projeto a cada novo governador eleito (foram quatro), comenta sua fama de megalomaníaco e fala, fundamentalmente, de seu amor pela cultura. “Com quatro anos de idade eu estava no palco do Teatro Amazonas. Com cinco anos ganhei meu primeiro prêmio de declamação, ali mesmo. Então isso nasceu comigo, perpassa minha vida”.

Procurado pela equipe de A Crítica ainda no dia da exoneração, Robério pediu alguns dias para a “emoção baixar”. Temia, contou ele, chorar quando deveria falar. Cinco dias depois, mais inteiro do que nunca, recebeu a reportagem em sua especialíssima biblioteca, montada em um imóvel de 125 metros quadrados. Conheça mais sobre a biblioteca clicando aqui

Não chorou nem uma vez. E ao lembrar a posse como chefe de gabinete em 1975, revelou: “A juventude me entusiasma. Não olho com desconfiança pois não foi assim que olharam para mim as pessoas mais velhas de quem me aproximei desde sempre. Fui amigo do avô das pessoas da minha geração. E sempre fui recebido com esperança e entusiasmo. Esse mesmo tratamento ofereço hoje”.

 

Quais são os seus planos para o futuro?

Em março fiz 45 anos de serviço público, já estou a caminho dos 46. Sou advogado, professor universitário e procurador efetivo da UEA. Já estou retomando as atividades do escritório jurídico e me reorganizando para o próximo semestre voltar à universidade. Estou também tentando concluir tese para uma universidade da Espanha, sobre patrimônio histórico nas cidades sul-americanas. E escrevendo meus livros, meus artigos. Agora mesmo estou concluindo o material de uma conferência que vou fazer depois de amanhã sobre dois grandes escritores nordestinos, muito pouco conhecidos, Emilia Freitas e Arthunio Vieira, que foram iniciadores do movimento espírita na Amazônia. Também acabei de receber uma solicitação da professora Marilene Correa para apoiar pesquisadores de Angola que estão fazendo pós-doutorado sobre Mário de Andrade e querem saber como foi a passagem dele em Manaus.

Você foi vereador duas vezes, não pensa em voltar a se candidatar?

Fui vereador e suplente de deputado estadual. Hoje não tenho mais filiação partidária e nenhuma pretensão político-partidária, o que não me exime da política em si. Mas candidatura não quero. Quando, ainda na década de 90, tive o apoio e o acolhimento do governador Amazonino Mendes para a ideia que apresentei de uma política de Cultura, eu era vereador. E ao assumir a nova tarefa, decidi que não mais disputaria um mandato político. Eu estando na Cultura, não poderia utilizar o trabalho em benefício próprio. Se houvesse uma mínima chance daquele trabalho se converter em votos para mim, não teria condições políticas de realizá-lo, pois sofreria oposições radicais, naturais do processo. Então abdiquei da carreira política em 1996 para construir essa proposta e este trabalho que acabou durando 20 anos e nove meses.

Foram quatro governadores eleitos e um interino... Como foi lidar com cada um?

Cada governador deu o seu tom para o trabalho. E equipe da secretaria teve muita compreensão e habilidade para novas construções. Cada governo tem uma leitura do processo político e organização da entidade no organismo estatal. Amazonino desenhou e organizou o primeiro grande impulso, que foram o Festival de Ópera, a orquestra, o coral, o Corpo de Dança, o Liceu Claudio Santoro. Enfim, a disseminação desse conceito. Depois fez a transferência desse conceito e dessa experiência que a gente já tinha para a UEA, com curso de Dança e Música. Tínhamos professores com muito brilho, em várias frentes, mas eram em pouca quantidade. A orquestra foi dando esse alimento e o CDA esse insumo para a UEA. Equipe técnica foi se formando gradativamente, foi sendo construída.

E não era desconstruída a cada troca de governo?

Não. Essa equipe nunca foi desconstruída. Cresceu, houve perdas por opção pessoal, mudança de rumo da vida de cada um, mas foram muito poucas. Mantivemos o núcleo. Tivemos perdas de 5% ou 6% da equipe. E nenhum governador que sucedeu o Amazonino interferiu na estrutura da secretaria.

Ainda há risco de “interferência”? Qual a proporção de servidores concursados hoje na Secretaria?

Não é perfil do Amazonino fazer esse tipo de interferência. Ele nunca me recomendou coisa do tipo “troque fulano”, “contrate sicrano”. Quando a secretaria foi criada, tinha acontecido um concurso para poucos cargos na configuração anterior. Criamos então uma estrutura de regime temporário e cargo em comissão. Há uns 10 anos fizemos um concurso grande, mas não conseguimos preencher todas as vagas por falta de profissional. Arqueologia, por exemplo, é um problema sério. Há um mercado grande no Brasil, mas são só oito cursos no País. Um é até na UEA. Não conseguimos preencher todas as vagas. Museologia também. Manaus tem três museólogos com registro (um é o próprio Robério). Dos 430 servidores que a secretaria tem hoje, são 147 efetivos e 81% atuam na área fim.  O grupo pensante da secretaria, porém, é um grupo de cargo em comissão, que era o modelo que a gente tinha na época.

Você falou sobre os feitos da gestão Amazonino. E os demais?

Eduardo (Braga) chega focando em outros grandes impulsos: Festival de Cinema, parcerias com a iniciativa privada. Amazonino tinha deixado a Coca-Cola como grande parceira, o Eduardo vem e trás a Ambev, que deu um novo impulso à Cultura. Com Eduardo a gente fez o festival de Jazz, o Jovem Cidadão, que é uma disseminação da política cultural na periferia. Foram 139 escolas, 45 mil alunos. Vieram os centros sociais, e a secretaria com serviços lá. Ao mesmo tempo, ele não desfez o restante. Ele compreendeu o cenário. O Omar (Aziz) vem e diz: ok, mas quero focar o interior. Dai fizemos o Claudio Santoro em Parintins, que alcança o Baixo Amazonas. Omar atendeu pleito de cursos de Audiovisual, Arqueologia e Teatro na UEA. Cada um foi agregando valor ao projeto. (José) Melo ampliou para 12 municípios. Fizemos ações fortes em Envira e Borba. Houve pré-seleção de professores e projetos de obra físicas para Itacoatiara, Itapiranga, Caraurari, Borba, Manacapuru e alguns outros. Tudo interrompido por essa circunstância política que todos conhecem. David (Almeida) teve interinidade, mas também deu atenção com o que podia e tinha à mão.

Qual foi o momento mais desafiador?

A grande dificuldade foi, quando tudo era sonho, fazer alguém acreditar e destinar recursos orçamentários para essa construção. Dizer, como eu disse: “vamos fazer um festival de ópera”, quando não se tinha um violino. Naquele momento, no fim da década de 90, estávamos falando em uma hipótese e o Amazonino investiu nela. Comprou a ideia e deu condições. Todos os outros continuaram fazendo isso e multiplicando, como eu penso que deveria ocorrer na administração pública de modo geral.

O relatório dos 20 anos da SEC, que saiu no começo deste ano, já era uma espécie de “despedida antecipada” do cargo?

A verdade é que esse livro esteve por ser publicado nos 10 anos da SEC, nos 15 anos. E nunca conseguimos. O cotidiano da secretaria é muito intenso. A diretoria de eventos, em alguns períodos do ano, tinha cinco eventos engatados um no outro. Meio do ano tinha Ópera, Parintins, Festival Folclórico e Jazz. Quando começou chegar perto dos 20 anos, dissemos: não é possível, vai ter que sair. Fizemos então um grande esforço, montamos um salão, que acabou virando um setor novo: CPDOC. E nos debruçamos para escrever. E acabou caindo a “sopa no mel” porque coincidiu com essa transição e me permitiu deixar um documento, que foi atualizado e entregue em pessoa ao secretário Denilson (Novo). O relatório me permitiu fechar bem o ciclo.

Você foi pego de surpresa pela decisão do governador?

Não. Não era possível, do ponto de vista político, você imaginar que essa gestão tão impulsionadora (na SEC) tivesse mais continuidade além dos quase 21 anos... Tu hás de convir que 20 anos é uma coisa inédita. Não sei se no mundo. No Amazonas, sim.

Essa é, aliás, uma das grandes críticas que você recebia: a ausência de alternância no poder. Isso incomodava?

Não é que incomodava, eu me sentia um pouco incompreendido. Aprendi na vida política e desde cedo na minha casa que a democracia é isso. Cada um emite sua opinião e responde por ela. Quando eu digo que cada governador assumiu o governo e deu o seu viés, está ai a renovação. Por outro lado, o que é também discutível na administração pública de um modo geral é a descontinuidade. Cadê tal e qual programa que a gente já aplaudiu em diversas outras áreas? Por que foram interrompidos? Se não tem o tempo, você não consegue construir as coisas.

Essa era uma preocupação constante, fazer algo que durasse?

Ouvi desde menino, de pessoas mais velhas com quem sempre convivi muito, meu pai, André Araújo, minha mãe, João Correia, Rodolfo Vale, Zezito, ouvi um monte de gente dizer assim: “Manaus é a terra do já teve: já tivemos tudo e não temos nada, a água levou”. Procurei evitar isso. E só o tempo permitiu essa construção. Como fazer uma Central Técnica de Produção em três anos? Não faz. Mas a nossa está feita. É um patrimônio incomensurável. Como recompor o funcionamento do Teatro Amazonas em dois, três anos? Não faz. Outros tentaram. Sabe quantas vezes tentaram fazer orquestra? Quatro, só que eu conheço da história recente. E por que não faziam? Porque precisava tempo. Precisava uma universidade, uma escola para crianças, precisava o teatro funcionando, dar função para a orquestra. Precisava um governo que adotasse a decisão política de fazer. Nós conseguimos que vários governos adotassem isto como política de Estado. E aqui, quando digo nós, não é o Robério, é a sociedade. A sociedade conseguiu.

Que característica da sua personalidade você acha que permitiu fosse possível lidar com políticos tão diferentes e convencê-los a manter o projeto?

Eu tive uma experiência político-administrativa anterior à criação da Secretaria de Cultura. Então posso dizer que conhecia razoavelmente os caminhos da administração. Tinha 46 anos de idade, havia exercido outros cargos públicos de secretário e de procurador. Então isso me permitia saber como caminhar. Depois, tive o privilégio de ser amigo de todos eles. E de permanecer amigo. Tenho o prazer de ter as amizades deles: Amazonino, Eduardo, Omar, Melo. Apenas o David eu só conhecia de vista.  Mas o que mais facilitou foi a qualidade do trabalho que estava sendo feito, ele quase falava por si. Amazonino acreditou “no escuro”, mas depois o trabalho se credenciava. Foram várias mentalidades políticas diferentes que perceberam a importância daquilo. São homens sensíveis, que se relacionam diretamente com o eleitor, poderiam até ouvir críticas. E eu não temo as críticas. Eu temo a omissão, sempre temi. Omisso, nunca na minha vida. Crítica é natural. Estou fazendo uma coisa, tem quem goste e quem não goste. Procuro atender ao máximo a coletividade.

Mas como você apresentava essas credenciais? No dia a dia, em seminários?

É preciso saber construir as relações internas no grupo de poder, no grupo que está no governo. É o conhecimento. Levar as pessoas a assistirem os espetáculos. Levar o secretário de Fazenda, de Educação, de Esportes. Levar o governador. As pessoas assim vêem, não só ouvem. O político é como o artista, tem muita sensibilidade. Não pode chegar na secretaria de Planejamento ou no governador pedindo mais orçamento para o seu trabalho sem mostrar o resultado. Ninguém vai te atender. Nem na crise nem fora da crise. Então, para dar certo, é preciso construir relações internas. E eu sempre fiz isso, me relacionei muito bem com todos porque pensava no Estado. Ali eu estava realizando uma missão. Para mim a Secretaria de Cultura era uma missão. Missão de amor, de realização, de prazer.

Você se preparou para o cargo?

Fui estudar para isso. Fiz pós-graduação na Universidade de Brasília, com bolsa da Organização dos Estados Americanos, de administração de política cultural em 1978. Fui trabalhar com museus e me registrar como museólogo esperando uma oportunidade de realizar mais. Fui ser presidente da Emantur para realizar mais nessa área. Então eu me preparei. Meu mestrado e doutorado são em patrimônio cultural. É uma coisa que perpassa minha vida. Então, eu me sentia compromissado com a Cultura. E continuo me sentindo. O fato de eu sair da secretaria não rompe meu compromisso pessoal, e da minha família, com a Arte, com a Cultura. Interrompe e rompe, sim, compromisso com a gestão, que acabei de entregar. Entreguei mesmo, não terei nenhuma interferência a não ser “se e quando” chamado a contribuir. E o novo secretário me abriu também a possibilidade de sugerir. Afinal, este é o governo do meu amigo Amazonino Mendes, esta é minha terra. Não vou sair daqui. Tudo que eu tenho está aqui. Então ainda me sinto compromissado.

Se tivesse que escolher uma grande ação desses 20 anos à frente da SEC, qual seria?

Formação artística. Educação artística para as crianças, que agora podem vislumbrar uma universidade, vislumbrar profissionalismo. Começam com quatro anos de idade e podem dizer: eu vou chegar na Amazonas Filarmônica.

E você pensa que o projeto está maduro? Há risco de ruptura, na sua avaliação?

Não acredito em rupturas. Acredito em transformações. Desejo muito que a atual gestão faça melhor do que eu fiz. Como acho que ele vai desejar, quando sair, que o outro faça melhor. Construímos na secretaria uma grande família, em prol desse trabalho, sem imaginar podermos dizer de novo que “no nosso tempo tinha”. Quero continuar usufruindo. E agora com mais tranquilidade. Agora vou poder ir ao teatro, ao museu, à biblioteca sem me preocupar com os problemas. Então creio em mudanças, que são naturais. E não me afetarão em absoluto.  O programa de educação artística tem hoje mais de 12 mil alunos em Manaus, tem alunos no interior, tem possibilidade de expansão pronta, para vários municípios, tem educação artística no telefone, à distância, com a melhor universidade da Europa em educação à distância (das Ilhas Baleares, em Palma de Mallorca), tem equipes montadas. Nem me passa pela cabeça que se possa romper com isso. O curso de Dança da UEA, hoje, tem 72 alunos egressos do Cláudio Santoro. Você tem uma orquestra experimental de egressos do Cláudio Santoro. Metade da Filarmônica é egressa do Claudio Santoro, ex-alunos com mestrado, com pós-graduação. Haverá um novo olhar sobre as coisas? Sim. Haverá um novo ritmo? Sim. Tomara e confio, porque confio na juventude, que será melhor.

Você participou da escolha do novo secretário?

Não. É uma escolha do Amazonino. Estive com ele em uma de várias reuniões, antes mesmo de começar a campanha, quando fui levar o relatório dos 20 anos da secretaria. E disse: são 21 anos, mano, também quero fazer outra coisa na minha vida. Nessa ocasião, sem falar em pessoas ou mesmo imaginar que ele fosse voltar a ser governador, avaliamos um pouco esse cenário. E no curso da campanha, que eu participei, não o procurei para tratar disso. Fui à diplomação e naquela hora foi que tomei conhecimento, como todas as outras pessoas. No dia seguinte, fui à posse dele com o mesmo prazer e a mesma alegria. Não sou amigo do governador. Sou amigo das pessoas. E de todos com quem trabalhei. Até hoje a família do Paulo Nery (ex-governador) tem comigo uma relação fraterna. E já faz muito tempo que ele faleceu e eu trabalhei com ele.

Você já foi chamado de megalomaníaco. Acha justo?

Não diria injusto. Senso de justiça é de cada um. Mas acho equivocado porque demonstra pouca informação do que foi feito. Claro que isso é resultado do fato de que o que tem mais visibilidade, que chega mais na mídia, são os grandes eventos, os espetáculos. Agora, para fazer por exemplo, o concerto de Natal, trabalhamos quantos anos? Para chegar no grande evento, estamos gerando economia, promovendo a cidade. Oferecendo lazer, entretenimento e cidadania à população – porque ali está a tradução em libras, a áudio descrição, ali está o lugar do cadeirante. Para que isso aconteça há um trabalho de base, que é grão a grão. Esses grandes eventos não foram importados, diferente do que aconteceu na época da borracha. Nós criamos raízes. Manaus, na Belle Époque, teve conservatório de música. Meu tio avô, que foi desembargador, era pianista, maestro e diretor de uma escola de arte para adultos. Já tivemos pontualmente ações muito fortes no canto coral, por exemplo. Mas ai estava um equívoco, na minha forma de ver: ele (coral) sozinho não se sustentava. Artur Reis (governador na década de 60), por exemplo, fez uma pinacoteca. No começo era uma grande surpresa, todo mundo visitava, havia aulas com grandes pintores e depois... Onde exponho meu quadro? Estado não tem galeria. O que faço com o que eu escrevo, com minha produção artística? Ai está a importância dos festivais, que não é só glamour, festa, tapete vermelho. 

O Festival de Ópera, até quinta edição, era único do gênero na América Latina. Por que você resolveu apostar na ideia?

Algumas coisas resultam de minha experiência anterior e do aprendizado e observação do meu curso de pós-graduação em Brasília. Desde 75 acompanhava a cena, o que estava acontecendo. Muitas vezes até por dentro, pelos cargos que ocupei nas gestões estaduais e municipais. Fora isso, a ópera é a síntese de todas as artes. O Teatro Amazonas foi feito para a ópera. A cidade tinha uma memória de ópera. O inconsciente coletivo falava de ópera. Era preciso utilizar esta memória para impulsionar o que ninguém conhecia, só eu. Eu precisava disso para impulsionar o que estava só na minha cabeça. A ópera foi escolhida por essas características: reuniria orquestra, canto, balé – infantil e adulto – acervo, patrimônio, uso adequado do teatro, recuperação da memória tradicional da cidade, impulsão nacional e internacional do Estado. Então, ela era o bolo perfeito. E foi. E continuará sendo. Ópera e Parintins são as âncoras dessa impulsão.

E a ópera gerou muitos frutos, não?

Sim. A Central Técnica de Produção (CTP) tem hoje mais de 50 mil peças, cenário, figurino, sapataria. Tudo bem arrumado, catalogado, classificado. Isso representa patrimônio para o Estado, é fruto de investimento feito ao longo de quase 21 anos e nos permite reduzir o custo do evento. O que se fazia com R$ 6 milhões hoje é possível fazer com R$ 2 milhões. Bem diferente da época da borracha e do que aconteceu recentemente no Pará, onde fizeram festival de ópera com a produção toda importada de São Paulo. Quando mudou o governo, não tinham acervo e projeto foi interrompido. Nós, a partir do 3º festival começamos a aprender. E este acervo movimentou muito a economia. Hoje quando você entra numa loja Bemol, tem telefone celular de um lado e instrumento musical do outro. Se não estivesse vendendo, se não houvesse procura, não estava ali, na entrada da loja. Criou-se um mercado. A ação cultural impulsionou a economia em várias frentes: som, placo, luz, gradil, segurança, cadeira, costureira, bordadeira. Comecei minha vida no palco e durante quase 21 anos fiquei na coxia, lugar onde o artista se prepara e é preparado para entrar em cena. Hoje vou para a plateia.