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Cotidiano
RISCO

Rocha ameaça mais de 30 famílias de comunidade rural de Parintins, no Amazonas

Segundo especialistas e órgãos do município, rocha gigantesca está segura apenas por raízes e árvores nativas. Geógrafo alerta para necessidade de reordenamento de comunidade 28/03/2018 às 20:17
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Foto: Melk Guerreiro/Parintins Filmes
Gerlean Brasil Manaus (AM)

Uma gigantesca rocha na encosta da serra de Parintins, segura apenas por raízes de árvores nativas, além de outras rochas de menores proporções, a qualquer momento pode se deslocar e destruir casas de 36 famílias na comunidade rural São Paulo, na Boca da Valéria, rota de navios de turistas internacionais, área no Projeto de Assentamento Gleba Vila Amazônia. Na rota da grande rocha está a Escola Municipal São Francisco, já com parecer técnico da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil e Defesa Civil do Estado do Amazonas para interdição.

Os riscos às vidas dos estudantes e dos moradores foram diagnosticados pela Defesa Civil Municipal e Estadual, Câmara Municipal de Parintins, Secretaria Municipal de Assistência Social, Trabalho e Habitação (Semasth), Secretaria Municipal de Educação (Semed), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com acompanhamento da TV A Crítica, por meio da Produtora Parintins Filmes.

Na semana passada, os órgãos públicos visitaram a comunidade São Paulo da Valéria para vistoriar e produzir relatórios técnicos sobre os riscos iminentes.

A Agente Comunitária de Saúde (ACS), Vanilza Pires de Souza relatou que a família teve a casa destruída por uma rocha no ano de 1962, ao escapar da morte ainda recém-nascida.

“Eu tinha 13 dias e minha família passou por isso. Nossa casa caiu e perdemos tudo. Hoje, eu espero que seja tomada uma providência, porque a gente tem feito reunião na comunidade e nunca é decidido um lugar apropriado para a escola e a igreja. Aqui é muito arriscado para nós. Queremos que o Incra desaproprie uma área para fazer a mudança da escola e igreja”, cobrou a comunitária.

A agricultora Ronilda Bentes da Silva já mudou a casa várias vezes para escapar das constantes ameaças.

“Nós começamos morar lá na boca (entrada da Valéria) e lá desabou terra com pedra que pegou uma parte de nossa casa. A sorte é que não estávamos lá e decidimos sair para ficar mais adiante. Voltou a cair pedra novamente e passava noites que eu não dormia, porque eu tinha criança pequena. Me mudei para mais dentro, só que é a mesma coisa, tem uma pedra grande, engatada por cipós e terras, que pode arriar. Fico muito preocupada com minha filha e meus irmãos que não dormem direito quando chove muito”, conta a sobrevivente. 

Avaliação técnica

Professor da UEA em Parintins, o geógrafo Brychtn Ribeiro de Vasconcelos esteve na serra de Parintins para vistoria da gigantesca rocha e ficou preocupado com os riscos de a mesma descer ladeira abaixo, influenciada por diversos fatores naturais (sol, chuva, gravidade) e ainda pela compactação do solo da mata ciliar provocada por atividade de pecuária no topo da elevação.

O geógrafo alertou a necessidade de reordenamento territorial da comunidade São Paulo da Valéria, com vista a segurança dos moradores.

“O material rochoso e de solo de alteração se encontra em risco iminente de a qualquer momento ceder para chegar a base final. É um processo natural dessa formação e oferece um risco muito grande para as pessoas que vivem diariamente na comunidade. Deve haver um reordenamento territorial para tirar essas pessoas desse lugar. E se for removido o material rochoso, a característica da formação é de acontecer reiteradamente deslocamentos de terras, como ouvimos relatos dos moradores. O deslocamento das rochas é um processo constante da natureza e a comunidade é uma área de risco”, explicou o professor da UEA.

Medidas adotadas

O coordenador municipal de Defesa Civil, Samuel Reis, reuniu com comunitários para repassar medidas de segurança em uma rodada de conversa com os órgãos envolvidos na vistoria técnica. Uma das prioridades é a mudança da escola, que fica na rota da maior pedra existente na serra acima da comunidade. A assistente social da Semasth, Patrícia Souza, fez levantamento do número de famílias e residências localizadas na área de risco de deslocamentos das rochas de São Paulo da Valéria.

O coordenador estadual Defesa Civil no Baixo Amazonas, Tenente Wilson Silva, demonstrou preocupação com a segurança das famílias e disse que, para evitar uma tragédia, é preciso interditar a comunidade, vulnerável ao deslocamento das rochas. O representante da Semed, professor Augusto Faber Machado, apontou aos comunitários como medida urgente a paralisação das atividades de aula na Escola Municipal São Francisco para prevenção de vidas humanas sob risco iminente.

Já o vereador Tião Teixeira se comprometeu em discutir a situação da comunidade com outros parlamentares para tomar providências junto ao Poder Executivo Municipal e Estadual. O parlamentar apresentou como sugestão encaminhar um requerimento e agendar uma reunião uma reunião com a Superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no Amazonas para desapropriar uma área segura na Valéria, com a finalidade de instalação da nova sede comunitária de São Paulo.

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