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Sem preparo para o alerta: Manaus não tem cultura de credibilidade em serviços meteorológicos

Manaus não tem cultura de credibilidade em serviços meteorológicos, o que prejudica divulgação de previsões de temporais. No último dia 30, vento atingiu 85 km/h. Em alguns locais da cidade, árvores foram arrancadas. 11/11/2012 às 17:14
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Temporal do último dia 30 fez estragos enormes pela cidade de Manaus
Carolina Silva Manaus (AM)

Poucos dias depois de terem sentido os efeitos da tempestade Sandy, moradores de Nova York e Nova Jersey, nos Estados Unidos, já esperavam, com receio, a passagem de um novo fenômeno na região na tarde da última quarta-feira. É que durante a manhã, em alguns bairros, foram divulgados novos avisos de evacuação, antes que a nova tempestade, apesar de mais fraca, ameaçasse inundar mais casas e deixar as regiões sem energia por mais tempo.

Com base na previsão dos meteorologistas, os americanos já haviam sido avisados com alguns dias de antecedência da tempestade, o que levou muitos moradores a procurarem abrigo em outras regiões, longe das que seriam atingidas.

Para Manaus, instituições meteorológicas descartam a possibilidade de tempestades com tamanha intensidade como o Sandy, com ventos de mais de 140 km/h. Mas, durante o período do verão amazônico, as condições climáticas favorecem temporais com rajadas de ventos fortes. Foi o que aconteceu na noite do último dia 30, por exemplo.

Conforme o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), a capital sofreu, naquela noite, por volta de 21h30, as consequências de uma forte tempestade ocasionada pela chegada de uma linha de instabilidade que se intensificou devido ao forte aquecimento.

“As linhas de instabilidade são sistemas de tempo e são de vários tipos. Mas se formam na costa e propagam-se pelo continente adentro podendo chegar ao oeste da Amazônia. Trazem a umidade gerada pela evaporação do oceano e são responsáveis por mais de 50% das chuvas que caem na Amazônia”, explicou o chefe da Divisão de Meteorologia do Sipam, Ricardo Dallarosa.

No aeroporto Eduardo Gomes foram registrados ventos de 85 km/h naquela noite. Ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos, em Manaus, grande parte da população não conseguiu se livrar de alguns transtornos, como os congestionamentos em muitas vias por conta da forte chuva e a queda de energia que também deixou o trânsito mais complicado. Mas o Sipam informou que havia emitido um alerta às defesas civis e à concessionária de energia às 20h15 sobre a previsão de chegada do temporal. Mesmo assim, a população não foi alertada pelo poder público.

Cultura diferente

Dallarosa afirma que a diferença entre os alertas de tempestades dos Estados Unidos e Manaus está na “cultura sedimentada de credibilidade nos serviços de meteorologia”. O meteorologista argumenta que nos Estados Unidos, onde existe um sistema de detecção com invejáveis recursos tecnológicos, um canal nacional de televisão dedicado exclusivamente à Meteorologia, a população tem a cultura de dar credibilidade às informações.

“A cultura a que me refiro foi construída ao longo de décadas, enquanto aqui estamos realizando enorme esforço para obtermos um mínimo de reconhecimento. Aqueles que veem nas informações da meteorologia, muito mais do que os alertas uma ferramenta de planejamento diária, são uma minoria, ou seja, estamos longe daquela realidade e não vamos certamente construí-la começando pelo lado inverso”, afirmou.

Previsão de cheia é feita pelo CPRM

Com base na observação da estação hidrológica do Porto de Manaus (Roadway), cuja série histórica iniciou em setembro de 1902, tem-se permitido estabelecer uma correlação entre as cotas de um determinado dia com a cota do pico da cheia.

É assim que superintendência regional do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) tem previsto a magnitude da cheia, com um alto nível de acerto e antecedências sucessivas de 75, 45 e 15 dias do evento.

Mesmo assim, moradores dos municípios do interior do Amazonas e até mesmo da capital amargam prejuízos com a cheia dos rios.

Mas, para o supervisor de hidrologia do CPRM, Hertz Rebelo de Sousa, a dificuldade também não está em alertar o poder público e nem nas ações de resposta, mas sim, na preparação da população. “Todo boletim com nível de subida dos rios é enviado semanalmente à Agência Nacional de Águas, com cópia para as defesas civis. Porém, muitas vezes as pessoas não querem sair das suas casas”.