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Série de reportagens mostra a busca dos haitianos por uma nova vida no Brasil

De acordo com estimativas extra-oficiais, aproximadamente 2,7 mil haitianos já fizeram essa viagem desde o final de 2010 22/01/2012 às 21:57
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Para a maioria deles é a primeira vez que fazem uma viagem de barco tão longa
Leandro Prazeres Manaus

As redes armadas no segundo andar do barco Itaberaba I coloriam o interior da embarcação, fazendo-o lembrar uma pintura em tons de azul, verde, amarelo e vermelho. De dentro delas, um canto ecoava na popa do barco, a poucos minutos de zarpar rumo a Manaus. Chovia fino naquela tarde quente de quarta-feira, mas uma brisa vinda das margens do Solimões amainava o calor, tornando tudo aquilo suportável. 

O canto era em creóle e, por isso, a maioria dos passageiros não podia entendê-lo. No entanto, mesmo sem saber o idioma que inundava a viagem, era fácil perceber o porquê daquele canto. Era um canto de alívio.

Deitadas cada qual em sua rede, Francia Charles, 20, e Despinasse Thude Mitherline, 25, manuseavam com cuidado um livro de cânticos evangélicos surrado, com capa de couro preto e as folhas amareladas, prestes a se descolar. As duas amigas, que se conheceram ainda no Haiti, pela Internet, partiam naquela tarde rumo à capital amazonense, depois de três meses em Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus). Para elas, o simples fato de deixar a fronteira para trás já era uma vitória.

“Essa viagem foi a melhor coisa que nos aconteceu desde que saímos do Haiti. Já estávamos perdendo a esperança porque não sabíamos se iríamos sair daqui ou não. Em Tabatinga o tempo passa, mas não podemos fazer nada, porque não temos documentos. Sobrevivemos com a ajuda da igreja e com o pouco dinheiro que nossos parentes ainda conseguem nos mandar”, diz Francia, uma negra magra, de olhos pretos graúdos e pele mais amorenada que a maioria de seus compatriotas.

Espera

A satisfação de Francia e dos milhares de haitianos que já conseguiram deixar Tabatinga tem uma explicação. A parada na cidade fronteiriça tem sido, talvez, a etapa mais dolorosa da saga que milhares de homens e mulheres vêm empreendendo para sair do Haiti - o país mais pobre do hemisfério ocidental - rumo ao Brasil - a sexta maior economia do mundo. Enquanto aguardavam o protocolo do pedido de refúgio - e a consequente autorização de entrada em território brasileiro - concedido pela Polícia Federal, elas, assim como milhares de outros haitianos, tinham muito pouco o que fazer.

Rapidamente, Francia e Despinasse descobriram que em matéria de burocracia, o Brasil não está assim tão longe do Haiti. Sem dinheiro, elas foram morar em casas alugadas pela Igreja Católica, onde mais de dez pessoas tinham de se acomodar no chão de um quarto que não deveria comportar mais de duas pessoas. Comeram com o pouco dinheiro que seus parentes lhe enviaram e com as doações, cada vez mais escassas.

Sonho começa a se tornar realidade

O motor do barco Itaberaba I soltou seu primeiro ronco pouco antes das 14h e alguns haitianos levantaram de suas redes. Muitos ainda sequer tinham conseguido armá-las. Estavam confusos, pois o aparato tão comum à vida cabocla é praticamente desconhecido da maioria dos habitantes da ilha caribenha.

“Nosso sonho está começando a se realizar”, diz Francia, emocionada. “Não vejo a hora de chegar a Manaus, e depois, quem sabe, ir a São Paulo, Rio de Janeiro”, disse Despinasse. 

Lysnie Debreus, 28, e seu marido, Willie Sineis, 25, também não viam a hora do Itaberaba I zarpar. Eles chegaram a Tabatinga no dia 20 de setembro e só naquela quarta-feira de janeiro é que conseguiram seguir para Manaus. A pressa tem justificativa: eles deixaram os dois filhos, de 8 e 3 anos, com a mãe de Willye, no Haiti.

“Quanto mais rápido a gente começar a trabalhar, mais rápido vamos mandar dinheiro para os nossos filhos e trazê-los pra cá”, explicou Lysnie. Além da demora causada pela PF, o casal ainda teve de esperar que a família enviasse o dinheiro das passagens. Para um país onde a renda per capita é de US$ 2 (R$ 1,78),  os R$ 400 das passagens são uma pequena fortuna.