Publicidade
Cotidiano
Notícias

Suposto caso de estupro na ‘casa mais vigiada do Brasil’ suscita debate

Abre um debate acerca da fórmula utilizada por esse tipo de programa e os limites que podem (ou não) ser impostos à audiência 21/01/2012 às 16:38
Show 1
O ex-BBB Daniel e a sister Monique
JÚLIO PEDROSA Manaus

As manifestações na Internet e o aumento explosivo da audiência a partir da polêmica instalada com o suposto estupro ocorrido na casa do Big Brother Brasil 12 – reality show produzido e levado ao ar atualmente pela Rede Globo de Televisão –, abre um debate acerca da fórmula utilizada por esse tipo de programa e os limites que podem (ou não) ser impostos à audiência. A reportagem de A CRÍTICA ouviu a opinião de estudiosos (antropólogos, sociólogos e mestres da área de comunicação social) sobre a questão, na tentativa de estabelecer parâmetros para avaliar qual a contribuição dada, de fato, por esse tipo de produção.

A doutora em Antropologia Iraíldes Caldas Torres, diretora do Programa de Pós-Graduação Sociedade e Cultura, da Universidade Federal do Amazonas, considera a fórmula apelativa e ultrapassada. Ela observa que esse tipo de reality show apenas expõe as pessoas, que não estão representando papéis sociais ou seguindo roteiros. “É um modelo norte-americano  apelativo e que não tem um apelo filosófico, nem um jogo que possa desencadear ações educativas ou que promovam a cidadania e a sociabilidade”, explica a antropóloga. Sem roteiros, os participantes desses realities, acabam sendo usados, segundo Iraíldes, de forma temerária.

Ela questiona a postura da emissora no episódio em que um participante foi acusado de abusar sexualmente de uma companheira de programa. “A TV Globo prefere retirar a pessoa, sem dar a ela o direito da ampla defesa, o que foi um péssimo exemplo. É o mesmo que dizer que para não estragar a sua empresa, ela prefere execrar um indivíduo publicamente”, afirma.

Ao longo da semana, diversas críticas foram postadas à emissora na Internet por conta da situação envolvendo os “brothers” Daniel e Monique, e a produção propriamente dita do reality show. Um deles, atribuído ao escritor Luiz Fernando Veríssimo, teve um grande número de compartilhamentos e expõe questões cruciais como a guerra pela audiência, o lucro obtido com os paredões e a preocupação com o faturamento em merchandising do programa, sem se preocupar com questões éticas e de cidadania dos participantes.

Desgaste

A professora do Departamento de Comunicação da Ufam, Ítala Clay de Oliveira Freitas, também acredita no desgaste do formato. Segundo ela, este modelo de programa que alimentou em princípio a falsa ideia de se estar diante de uma realidade sem filtros, sem manipulação, hoje se esgota no sentido de que não agrega valores à sociedade. “No caso do BBB, ao criar um mundo em que se superdimensionam as festas, as intrigas e os romances tipo fast food, construiu-se narrativas que reforçam comportamentos descompromissados com as questões cotidianas politicas e sociais contemporâneas. O que se pode concluir é que a TV brasileira está precisando de mais ética e criatividade”, resumiu Ítala, que é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo  (PUC-SP).

Decisão injusta

A estudante de Jornalismo Marileia Remigio, 32, é telespectadora assídua do Big Brother Brasil e confessa ter considerado estranho o episódio da expulsão. “Fiquei completamente insatisfeita porque não houve respeito para com o público”, explica. Segundo ela, no primeiro momento, o apresentador Pedro Bial não falou com clareza o motivo da saída do participante. Depois, quando a situação já havia sido esclarecida, inclusive com a confirmação da suposta vítima de que a relação havia sido consensual, a emissora manteve a decisão de afastamento do brother Daniel.

“Achei injusto ele estar de fora porque, a partir do momento que ela fez sexo por livre e espontânea vontade, ele estaria, em tese, livre de qualquer acusação”, afirmou. A estudante não esconde a decepção com o programa. “Se a intenção com essa polêmica foi a de alavancar a audiência, acho que acabou surtindo o efeito contrário. Está claro que Daniel foi injustiçado e agora querem fazer o público de idiota, criando um clima de romance entre Monique e outro participante do BBB, depois das manifestações de repúdio ao ocorrido nas redes sociais, a manipulação é total”, admitiu.

A jornalista e ex-BBB  Morango  fala ao A CRÍTICA sobre o episídio

A jornalista e ex-BBB Angélica Martins, a Morango, 25, teve uma participação marcante na edição de número dez do programa. Ela foi a primeira mulher bissexual assumida a passar pela casa, tendo a sua condição revelada para todos os demais. Um marco na história do BBB, mas para a jornalista - e agora DJ - uma experiência que merece reflexões. Nesta entrevista ao Bem Viver, Morango fala da sua concepção sobre esse tipo de programa.

Como você avalia a posicionamento da Rede Globo diante do episódio envolvendo os participantes do BBB12 Daniel e Munique?

O posicionamento foi péssimo, confuso, manipulador.

As pessoas criticam o programa porque se sentiram enganadas pela omissão da emissora em revelar detalhes do que ocorreu. O programa de fato manipula o que acontece lá dentro? Até mesmo para quem assiste pelo Pay Per View?

Com certeza. No PPV isso acontece quando cortam de uma câmera pra outra, de um assunto pra outro, e às vezes cortam os microfones dos participantes também.

O que você acha do formato reality show? Está ultrapassado?

Gosto de reality shows e não acho que esteja ultrapassado não. Pelo contrário, esse formato de programa aguça muito a curiosidade das pessoas, além de exercitar o voyeurismo...

Houve excessos por parte da Globo e de uma certa forma isso não vai acabar prejudicando a própria emissora?

Manchou um pouco da credibilidade, sim.

Como é a vida pós-BBB?

Completamente diferente. Ao contrário do que as pessoas pensam, não acordo linda e maquiada, não tenho vida de princesa... Trabalho muito, mas tenho um retorno muito positivo disso.

O Brasil está preparado para os reality shows no estilo europeu, onde o sexo é liberado na frente das câmeras? Ou ainda existe muita hipocrisia?

Sexo existe nos realities brasileiros também, só que não são mostrados de forma tão explícita. Mostrar cenas de sexo altera a classificação etária do programa, que teria que ser exibido mais tarde, o que é ruim pra emissora.