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Universidades usam a internet para recrutar estudantes estrangeiros

À medida que o setor de consultoria em educação internacional cresce em outros países, acordos levam estudantes internacionais para universidades americanas que enfrentam dificuldades para preencher suas vagas 07/05/2016 às 15:59 - Atualizado em 07/05/2016 às 16:18
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à medida que as universidades recorrem a esses recrutadores internacionais, os educadores temem que os estudantes sejam vítimas de táticas de venda escusas (foto: Michael Noble Jr./The New York Times)
Stephanie Saul © 2016 New York Times News Service

“Corram!!!”, dizia o post na Internet. “Matricula sem vestibular” para a Universidade Western Kentucky, incluindo a possibilidade de bolsas de estudo de até US$17 mil. “Receba a carta de admissão no mesmo dia”. A oferta, feita por um recrutador indiano, fazia parte de uma campanha tão chamativa que mais de 300 estudantes se inscreveram em uma universidade da qual a maioria nunca tinha ouvido falar.

A mais de 12 mil quilômetros de distância, na Western Kentucky, os professores ficaram surpresos quando ficaram sabendo no ano passado da iniciativa agressiva de recrutamento, patrocinada pelo escritório de matrículas internacionais. Muitos no campus começaram a falar sobre a possibilidade de uma avalanche de estudantes estrangeiros no primeiro semestre de 2016.

O problema – ou um dos problemas – é que muitos dos estudantes não tinham o nível exigido pela instituição, de acordo com diversos funcionários e com os administradores.

O acordo firmado pela Western Kentucky com a empresa de recrutamento, a Global Tree Overseas Education Consultants, é um tipo de contrato que tem se tornado cada vez mais comum, à medida que o setor de consultoria em educação internacional cresce na Índia e em outros países, atraindo estudantes internacionais para as universidades americanas que enfrentam dificuldades para preencher suas vagas. A universidade concordou em pagar uma comissão de 15 por cento da primeira anuidade dos alunos matriculados, ou cerca de US$2 mil por aluno, à Global Tree.

Contudo, à medida que as universidades recorrem a esses recrutadores internacionais, os educadores temem que os estudantes sejam vítimas de táticas de venda escusas, e que as universidades estejam deixando de lado seus padrões acadêmicos em favor de estudantes menos qualificados que pagam mensalidades mais altas.

“Existem alguns incentivos para não trazer alunos terrivelmente ruins, mas a principal motivação da universidade e dos agentes é trazer alunos pagantes para a sala de aula”, afirmou Philip G. Altbach, fundador e diretor do Centro de Educação Internacional em Nível Superior do Boston College.

Na Western Kentucky, 106 dos 132 estudantes que foram admitidos por meio da campanha de recrutamento internacional tiveram notas inferiores às exigidas pela universidade na prova de proficiência em inglês, de acordo com uma resolução adotada no semestre passado pela comissão de graduação da instituição, que levantou uma série de dúvidas sobre o programa. “A vasta maioria não tinha notas ou não trazia documentação comprovando seu nível de inglês”, afirmou Barbara Burch, docente e membro da reitoria.

O conselho universitário e o diretório acadêmico dos alunos expressaram preocupações. “É eticamente errado trazer estudantes para a universidade e convencê-los de que podem ser bem sucedidos quando não existe nenhum programa que os ajude a serem bem sucedidos”, afirmou o presidente do diretório acadêmico, Jay Todd Richey.

Com cerca de 1.400 estudantes estrangeiros e pouco mais de 20 mil alunos ao todo, a Western Kentucky está na dianteira dos esforços para trazer alunos internacionais para os EUA. O slogan da instituição é: “Uma das melhores universidades americanas com alcance internacional”.

Os gestores afirmam que o Projeto Piloto Indiano, como ficou conhecido o processo de recrutamento, é um experimento que visa aumentar o número de alunos e diversificar o corpo discente internacional, como parte dos planos de dobrar o número de alunos estrangeiros.

Eles também afirmam que os estudantes – 57 dos quais se matricularam em janeiro – foram admitidos com a condição de realizar cursos preparatórios para ajudá-los na adaptação.

“Experiências internacionais são boas, mas nem sempre são fáceis. Não podemos tratar isso como um empreendimento qualquer. Estamos descobrindo isso aos poucos, em um processo que não está livre de problemas”, afirmou Gary Ransdell, reitor da universidade.

O diretor da Global Tree, Subhakar Alapati, também reconheceu que o programa tem falhas, afirmando em uma entrevista por telefone que “um dos problemas com os estudantes advém do fato de que o sistema educacional indiano é mais teórico do que prático”.

Ransdell afirmou que a universidade decidiu recrutar alunos internacionais há anos, com o objetivo de expor os estudantes locais a culturas globais. Contudo, nos últimos tempos a motivação passou a ser financeira, em parte por conta dos profundos cortes nas verbas do ensino superior.

Para reagir a esses cortes, as universidades começaram a ver os estudantes estrangeiros que pagam mensalidades sem desconto como sua salvação financeira. E, embora as leis federais proíbam o uso de recrutadores pagos de acordo com o número de alunos matriculados, existe uma brecha na lei para alunos estrangeiros.

Preocupada com possíveis abusos, a Associação Nacional de Processos de Admissão Universitária (ou NACAC, na sigla em inglês), sugeriu em 2011 que a lei se estenda a alunos estrangeiros.

“O uso de agentes pagos na forma de bônus, comissões ou outros incentivos pagos com base no número de estudantes recrutados ou matriculados cria um ambiente em que os conflitos de interesse são inevitáveis”, afirmava o texto.

Contudo, a organização nunca colocou essa política em prática após a pressão de muitos de seus membros. Desde que essa decisão foi tomada em 2013, o uso de recrutadores internacionais aumentou, de acordo com Eddie West, diretor de iniciativas internacionais da organização. “De acordo com pesquisas e outras fontes, podemos dize que houve um crescimento desse tipo de recrutamento”, afirmou West.

Uma das principais críticas dos recrutadores é que suas táticas de venda podem criar um senso de urgência nos estudantes.

Outras empresas de recrutamento internacional também oferecem “matrículas na hora”, ou “avaliação na hora” para uma série de universidades norte-americanas. Uma delas é a Study Metro, de Bangalore, Índia, que fez postagens no Facebook oferecendo matrículas rápidas aparentemente para a Universidade de Oklahoma, além da emissão acelerada de um documento chamado I-20, necessário para a obtenção do visto.

“Caros estudantes, a Study Metro convida vocês de braços abertos para a oportunidade de matrículas imediatas e acesso ao programa I20 no dia 31 de janeiro de 2016. Não perca a oportunidade de realizar seu sonho de estudar nos EUA. Ligue agora e registre-se gratuitamente. Os primeiros a chegar ficam com as vagas”, afirmava o anúncio.

Abhishek Bajaj, diretor-executivo da Study Metro, afirmou que a empresa se referiu à Universidade de Oklahoma por engano. O cliente, na verdade, era a Universidade Central de Oklahoma.

Ele defendeu o tom de urgência do post, afirmando que os representantes da universidade estavam em seu escritório naquele dia. “A urgência tem o objetivo de deixar claro que aquela é uma oportunidade de ouro para uma reunião”, afirmou Bajaj.

A Global Tree, a empresa que trabalha com a Western Kentucky, também ofereceu no Facebook “avaliações imediatas” para “uma das principais universidades do mundo”, a Universidade Purdue, com um aviso que dizia: “Notas baixas? Não tem importância”. O texto em letras pequenas revelava que o anúncio era válido para a Universidade Purdue Calumet, em Hammond, Indiana, a cerca de 160 quilômetros do campus principal, em West Lafayette.

Depois de ser notificado sobre a postagem no Facebook, um porta-voz da Purdue Calumet afirmou que a universidade estava revendo seu relacionamento com a Global Tree, afirmando que a mensagem era “infeliz e desconcertante”.

“Não exigimos menos dos estudantes internacionais”, afirmou Wes Lukoshus, o porta-voz.

O diretor da Global Tree, Alapati, afirmou na entrevista por telefone que a Purdue Calumet havia aprovado os materiais de divulgação antes da postagem.

Recrutar estudantes que não são qualificados ou encorajar estudantes que não são ideais para a vaga pode acabar com a ideia de que estudar nos EUA é vantajoso, de acordo com Dale Gough, diretor do serviço de formação internacional da Associação Americana de Collegiate Registrars and Admissions Officers.

“As famílias vão pagar para que seus filhos venham para cá, mas eles serão rejeitados porque não têm o preparo acadêmico necessário e irão voltar para casa. Isso não é nada bom”, afirmou Gough.

O Departamento de Estado e seu programa EducationUSA, que promove intercâmbios de estudo em nível superior nos Estados Unidos, também proíbe acordos com recrutadores internacionais pagos com base no número de alunos matriculados como forma de evitar esse tipo de conflito.

Alapati afirmou que a Global Tree trabalha em parceria com a Western Kentucky há anos, mas que o projeto indiano foi o primeiro em que a universidade enviou funcionários “diretamente para a Índia para avaliar candidatos”. A ideia da “matrícula na hora” era eliminar os longos períodos de espera, afirmou.

Ele visitou recentemente o departamento de Ciências da Computação da instituição, onde boa parte dos estudantes se matricularam. Um professor contou que o conhecimento dos estudantes era inferior ao dos graduandos do segundo ano. “Mas o reitor disse que o departamento irá ajudar os estrangeiros”, afirmou Alapati.

Eric S. Reed, pró-reitor interino de graduação, afirmou que quase todos os estudantes só poderão continuar na instituição se fizerem aulas de inglês e que alguns deles precisam de aulas de “reforço” para aprender matérias específicas.

James Gary, diretor do departamento de Ciências da Computação, afirmou que sua área aprovou os alunos matriculados este semestre. “Do meu ponto de vista, o processo não foi desastroso”, afirmou Gary. Contudo, reconhece que talvez nem todos tenham condições de acompanhar o curso.

“Mas só poderemos afirmar isso com certeza no final do semestre”, ponderou.

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