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‘Vamos tirar Coari das páginas policiais’, diz novo prefeito do município Raimundo Magalhães

Um dia depois de receber o diploma de prefeito e assumir a Prefeitura de Coari, Raimundo Magalhães recebeu a reportagem do jornal A CRÍTICA e falou dos planos que têm para administrar o município mais rico do Estado do Amazonas 18/04/2015 às 11:54
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Raimundo Magalhães, novo prefeito de Coari (AM)
Aristide Furtado ---

Estreante em cargo conquistado em eleição, o empresário Raimundo Magalhães, que disputou apenas um pleito em toda sua vida, o de prefeito de Coari, afirma que o município, na gestão dele, vai sair das páginas policiais. “A corrupção no município, tenha certeza, vai acabar”, disse Magalhães, em entrevista para o jornal A CRÍTICA, um dia antes de ser diplomado pela Justiça Eleitoral.

O empresário chega ao comando do município mais rico do interior do Estado do Amazonas após a cassação do prefeito Adail Pinheiro, que está preso em um quartel da PM, em Manaus, por condenação em um processo por pedofilia. A decisão foi tomada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no dia 17 de dezembro do ano passado. Mas só foi publicada no dia 19 de março.

Magalhães seria diplomado no dia 25 de março, mas foi impedido por liminar (decisão rápida e provisória) do juiz do TRE-AM, Délcio Santos, em processo movido por partidos da órbita de Adail. A sentença foi derrubada pelo plenário da corte em votação apertada na terça-feira. O processo principal deve ser votado até o final deste mês e pede a anulação da eleição. Polêmica, a ação taxada por dois membros da corte de inexistente no mundo jurídico, defende a nulidade dos votos do terceiro colocado, o ex-prefeito Arnaldo Mitouso (PMN), cujo registro foi aprovado pelo TSE em 2012.

De janeiro a abril, Coari teve quatro prefeitos. O vice de Adail, Igson Monteiro, que estava no cargo desde o dia 8 de fevereiro de 2014, renunciou em fevereiro deste ano depois de manifestações que depredaram a casa dele e de familiares. Deixou o irmão Iliseu Monteiro, presidente da Câmara, no posto de prefeito. Com a anulação da eleição da Câmara pela Justiça, o vereador Carlos Batista, o mais velho, assumiu o comando do município. Depois foi substituído pelo novo presidente do Legislativo, Iranilson Medeiros. A seguir a entrevista.

Como o senhor vai conciliar sua atividade de prefeito com a de empresário?

Já tenho uma filha formada em administração. Estou passando a empresa para ela administrar.

O senhor se considera um homem rico?

Não.

Quantas eleições o senhor já disputou?

Só uma. Eu nunca tinha acompanhado nenhum político na vida. Quando decidi por essa candidatura em 2012, governador não sabia quem eu era, deputado nenhum me conhecia. Nem eu conhecia eles. Nunca tinha sido político. Me filiei pela primeira vez num partido, PRB, e a população soube. E foi aquela pressão.

Além da mulher e filhos, tem outros parentes em Coari?

Um irmão.

Alguns prefeitos que o antecederam encheram a prefeitura de parentes. O senhor vai contratar parentes?

Existe uma lei que proíbe o nepotismo. Mesmo assim, as pessoas ficam indo de encontro à lei. Acho muito errado. De jeito nenhum. Não vou contratar parente nenhum. Só mora um irmão meu em Coari. E ele trabalha na minha empresa e vai continuar lá.

Com quantos vereadores o senhor pode contar na sua base de apoio?

Eu queria dizer para os vereadores que eu não tenho mágoa contra nenhum deles. Espero ter a confiança e compreensão de todos.

Como vai ser a sua relação com a Câmara?

Quero ter uma relação amigável e de respeito e vou cumprir com a lei. Os repasses que forem de direito da Câmara vou repassar integralmente porque Coari não aguenta mais tanta briga. Tenho certeza que vou contar com o apoio de todos os vereadores.

O senhor não teme represálias do grupo que apoiava o ex-prefeito Adail Pinheiro?

Não. Eles sabem que o sucesso do meu trabalho vai ser o sucesso da Câmara. Acho que isso é passado, que agora acabou. Porque a minha postura é diferente da de todos os prefeitos que já passaram ali. Sou uma pessoa antiviolência e tenho certeza que a gente vai, na base do diálogo, conviver bem.

Coari ficou conhecida por escândalos de pedofilia. Como o senhor avalia essa situação e como vai tratar essa questão?

Esse problema é lamentável porque colocou Coari nas páginas policiais do País inteiro. Mas a Justiça está cuidando dessa situação. E claro, com certeza, a população pode contar com o meu apoio para combater esse tipo de crime.

Como o Conselho Tutelar do município vai ser tratado na sua gestão?

Os conselheiros tutelares estão sem apoio e estrutura. Pretendo reestruturar e dar apoio a eles.

Durante a operação Vorax, foram encontrados R$ 6 milhões em malas na casa do ex-prefeito. Como o senhor vai administrar o dinheiro público?

Tenho consciência de que o dinheiro público não é meu. O que será meu é só o salário de prefeito. O dinheiro público é do povo. É para infraestrutura, para levar qualidade de vida para a população. Vou ter muito respeito e cuidado com o dinheiro público. A corrupção no município, tenha certeza, vai acabar. Vamos tirar Coari das páginas policiais. Sou empresário. Os empresários de Coari sofrem porque o dinheiro do povo não fica em Coari. Está indo para o ralo da corrupção. A população pode ter certeza que o dinheiro público vai ser aplicado para o povo.

Muitos municípios não divulgam, como manda a lei, as despesas na Internet. Como vai ser a questão da transparência na sua gestão?

Coari está assim. Hoje, se o cidadão precisar de alguma informação, não tem. Não encontra em lugar nenhum. Tem site da transparência mas não publica. Comigo vai ser diferente. Quero que a população acompanhe cada passo, cada real que for investido em Coari. Vou divulgar.

Qual vai ser o critério de contratação de fornecedores na sua gestão?

O critério para fornecedor é que seja feita as licitações com transparência, de verdade, não em lugares combinados. Precisamos trabalhar com transparência.

E sobre o atraso no pagamento de servidores?

Eles fazem calendário (ex-prefeitos) e nunca cumprem. Como empresário, sei de quanto o trabalhador precisa do salário dele no final do mês. O servidor público pode ter certeza que vai ter um calendário de pagamento.

Coari já foi conhecida pela produção de banana. O que o senhor pretende fazer pelo setor primário do município?

Todo mundo fala que a solução do País é investir no setor primário. Mas não vemos ações. Na festa da banana, que tinha em Coari, o produtor colocava os seus produtos. Aquela festa era um momento de alegria. Estava apresentando o produto do seu esforço. Quando veio o petróleo, abandonaram. Agora, tem outro problema. As enchentes têm sido grandes. A banana é na área de várzea. Pretendo resgatar a festa da banana. Mas tem que investir primeiro na produção.

No passado, dois juízes foram aposentados pelo CNJ e uma juíza foi removida do município por envolvimento com esquemas do ex-prefeito Adail. Como vai ser a sua relação com o Judiciário e o Ministério Público?

A minha relação vai ser limpa, transparente. Porque a própria Justiça hoje quer um gestor em Coari que dê certo, que trabalhe corretamente. O gestor de Coari hoje tem que trabalhar correto. Quero dizer à Justiça desse Estado e ao Ministério Público que eu vou trabalhar com transparência e em parceria com esses órgãos.

As contratações de pessoal que foram feitas pelos seus antecessores serão revistas?

Vou revê-las, sim, principalmente os cargos comissionados. Mas quero tranquilizar os trabalhadores. As pessoas que trabalham podem ficar despreocupadas que vão ter o meu respeito. Não vou perseguir ninguém. Os próprios funcionários públicos, hoje, são perseguidos. Isso vai acabar.

Iranilson vai à Justiça para ficar na prefeitura

O presidente da Câmara Municipal de Coari, Iranilson Medeiros (DEM), entrou, ontem, com uma medida cautelar (urgente) pedindo a anulação da posse do prefeito Raimundo Magalhães (PRB) por ilegalidade e desrespeito à Lei Orgânica do Município e ao regimento interno da Casa Legislativa.

Na quinta-feira, Magalhães, após ser diplomado pela juíza eleitoral Dinah Câmara, foi empossado em sessão solene realizada por sete dos 15 vereadores do município. Nenhum membro da mesa diretora da Casa participou do ato. A Câmara só pretendia dar posse ao novo prefeito no dia 28 deste mês.

“Houve ilegalidade no ato de posse. Pedimos a reintegração de posse da prefeitura por meio de uma cautelar. Os motivos são o desalinhamento da atitude com o regimento interno da Câmara. O fato de não ter membros da mesa diretora é outro aspecto que contribui para a ilegalidade. O regimento diz que os vereadores têm que ser notificados com 48h de antecedência para as sessões extraordinárias. E as posses são em sessões ordinárias. A sessão solene é para homenagens”, não se presta a evento como a posse”, disse o ex-secretário de comunicação, Franklin Thompson.

Para a advogada Maria Benigno, o pedido de Iranilson é absurdo. “O vereador estava apenas exercendo temporariamente o cargo de prefeito enquanto não havia definição sobre quem assumiria. Ele não tem legitimidade para requerer o mandato. E não havia razão de esperar 12 dias para dar posse. A sessão solene foi legal. Inclusive, eles mesmos deram posse na quinta-feira da semana passada, em sessão solene, ao vereador Márcio Almeida, do grupo de Iranilson. A sessão de homenagens é a especial”, disse.