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Cotidiano
PODERES DIVERGEM

Guerra de facções ou não? Massacre dividiu opiniões entre SSP e Ministério da Justiça

SSP fala em confronto Família do Norte (FDN)x Primeiro Comando da Capital (PCC), e Ministério da Justiça minimiza a briga 08/01/2017 às 05:00
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Foto: Antonio Lima
Silane Souza Manaus (AM)

Familiares de internos assassinados no massacre do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), há uma semana, contestam a versão de que todos os mortos pertenciam a facções ou eram estupradores. O secretário de Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fontes, reconhece que alguns não faziam parte destes grupos, contudo, ele assegura que o principal motivo para a chacina foi a guerra entre as organizações criminosas Família do Norte (FDN) e Primeiro Comando da Capital (PCC).

No início da semana, durante visita a Manaus, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, minimizou a briga entre os grupos criminosos e afirmou que esta análise é simplista. “Isso é um erro que não podemos cometer, achar que, de uma forma simplista, esse massacre e essas rebeliões são simplesmente guerra entre facções. Aqui, dos 56 mortos, mais da metade não tinha ligação com nenhuma facção”, afirmou na ocasião.

Mas essa não foi a primeira vez que o ministro sustentou essa tese. Em outubro de 2015, ele falou que a guerra entre facções não passava de uma “fanfarronice”. Na sexta-feira, depois de 31 presos terem sido encontrados mortos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima, Moraes afirmou que, “aparentemente”, as mortes não são uma “retaliação” a rebelião ocorrida no dia 1º deste ano no Compaj, que deixou 56 mortos.

Para o secretário Sergio Fontes, a briga entre as facções existe sim e foi ela que desencadeou o massacre carcerário em Manaus. “A maioria dos internos mortos era integrante do PCC. Eles ficavam isolados e eram chamados de ‘oprimidos’ porque eram a minoria. Não pertenciam ao grupo que dominava na cadeia, nessa (Compaj) era a Família do Norte. É uma verdadeira guerra entre facção e está migrando. Foi confirmada em Roraima”, ressaltou.

Todavia, Fontes salientou que entre os presos isolados na área que se chama “seguro” estavam não PCC. “Havia grupo que não pertencia a nenhuma facção e estava no seguro porque vivia em constante ameaça como estupradores e ex-policiais. Quanto aos assassinatos não tenho duvida que foi uma ação orquestrada pela FDN contra o PCC. Mas, no bolo, foram outros presos que não eram PCC. Também deve ter alguém da FDN que acabou morrendo no confronto”, apontou.

Número

60 internos foram assassinados entre domingo e segunda-feira, sendo 56 no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, e quatro na Unidade Prisional do Puraquequara.

Destaque

Apesar do Governo de Roraima afirmar que os 31 presos mortos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, durante a madrugada de sexta-feira, não pertenciam a nenhuma facção criminosa e que a ação não foi uma retaliação do PCC a FDN. Os autores do massacre são integrantes do PCC e há um vídeo circulando nas redes sociais em que os próprios membros do PCC reforçam que é disso que se trata.

Vinculada

O filho da cabeleireira Iramaia Araújo da Silva, 52, Marlon de Araújo da Silva, 30, estava preso há dois anos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) pelo crime de furto. Ela afirmou que ele não pertencia a nenhuma facção. “Ele dizia para nós que nunca ia entrar em facção nenhuma porque sabia que isso comprometia a família e era mais perigoso, não para ele, mas para a família. Então eu creio que ele não era de nenhuma facção”, relatou.

O irmão do microempresário Hoston Avelino de Oliveira, 34, Jackson Avelino de Oliveira, 24, é outro que, segundo ele, não era integrante de facção. “Meu irmão não tinha nada a ver com facção nenhuma. Ele estava no ‘seguro’, onde estava o pessoal do PCC, porque era ameaçado pelos próprios comparsas. A maioria dos que morreram não pertencia a organizações criminosas”, disse. O corpo de Jackson foi identificado um dia após o massacre e liberado na sexta-feira para a família.

A comerciante Claudiane Pereira dos Santos, 44, mãe de Rafael Pereira Vieira, 23, que estava preso há três meses, também desconhece o envolvimento do filho com facção. “Tem mãe que encobre o que o filho faz, eu não sou esse tipo de mãe. Ele era errado sim, roubava, usava droga, mas não era de matar ou está em facção. Brigar por causa de facção isso não existe. Muitas pessoas morreram de graça. O vizinho de minha mãe por causa de três meses de pensão atrasada morreu no mesmo bolo”, afirmou.