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"Você tem que viver bem e não criar problemas"

Um dos empresários mais respeitados do Estado do Amazonas, Mário Guerreiro dispensa a aposentadoria  “precoce” e  acredita   que os investimentos no setor produtivo   são uma alternativa para o desenvolvimento da região.  14/04/2012 às 21:41
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Plantações de juta, como as do quadro, são, para Mário Guerreiro, uma oportunidade sustentável e viável para ser explorada no Estado do Amazonas
Leandro Prazeres Manaus

Prestes a completar 92 anos, Mário Expedito Neves Guerreiro parece não se cansar de novas empreitadas. Ao lado dos filhos, ele comanda a Brasjuta, empresa criada em parceria com o Governo do Estado, que tem como principal missão alavancar cultura da juta e levá-la a patamares competitivos. Nesta entrevista, Mário Guerreiro conta como faz para se manter ativo na terceira idade e diz que para vencer a disputa pelo mercado da juta com a Índia, o Brasil terá de evitar o “dumping” praticado pelo país asiático. 

AC - O que definiu sua retomada aos negócios?

Não chegou a ser uma retomada. Eu sempre trabalhei e nunca parei de trabalhar. O que eu parei foi uma atividade em 1980, mas essa parada não foi uma decisão minha exclusivamente. Foi em face de uma questão de mercado. A juta foi perdendo mercado em decorrência da utilização do polipropileno em embalagens. À proporção que ele ia ganhando mercado, a juta ia perdendo, e isso forçou o fechamento de várias fábricas. Até 1980, existiam no Brasil nada menos que umas 40 fábricas.

AC - Quantas o senhor tinha?

Oito. Quatro instaladas em Belém  e outras quatro no Amazonas.

AC - O que fez com que o senhor retomasse o negócio da juta?

Hoje, em face da questão ambiental, e diante da alta do valor do petróleo, está se vislumbrando um mercado para utilizar as embalagens de juta novamente. Paralelamente a essas possibilidades, e visando naturalmente, questões de ordem técnica, a possibilidade de se utilizar juta não apenas para embalagem como também para outras utilidades se mostra viável novamente. Foi pensando nisso que criamos a Brasjuta, que está sendo gerida pelos meus filhos Mário Guerreiro e Sebastião Guerreiro.

 AC - Como está o mercado de juta no mundo?

O mercado está dominado pela Índia, Paquistão e Bangladesh. Eles praticamente monopolizam o mercado de juta atualmente. Lá eles avançaram muito na questão da aplicação dada à juta.  Lá, ela não serve apenas para embalagens. Nós estamos estudando o que se está se fazendo na Índia e esperamos ver se é possível essa aplicação na região amazônica.

 AC - A Brasjuta é fruto de uma parceria da iniciativa privada com o poder público. Essa participação do Estado é primordial para o sucesso desse projeto ou seria possível abrir a Brasjuta sem essa parceria?

A participação do Estado tem sido importante, sobretudo no âmbito da matéria-prima. Na questão de sementes, financiamento ao produtor, inclusive dando subsídio ao custo da matéria-prima. O Estado do Amazonas tem sido um grande incentivador. Estou sentindo que o Governo do Estado está, a cada dia que passa, se interessando mais pelo fomento de atividades econômicas voltadas para o setor produtivo. 

AC - Essa investida da Brasjuta mostra que é possível ganhar dinheiro com o setor produtivo, mas levanta uma dúvida: por que essas iniciativas são tão escassas no Amazonas, sobretudo diante da biodiversidade da região?

Houve uma época em que houve um desânimo com a queda da borracha e dos produtos regionais. Depois, surgiu a juta que deu um ânimo a partir de 1940, 1950, mais ou menos. E surgiram as primeiras usinas de beneficiamento. Com o tempo, essa atividade foi decaindo também e foi-se dando menos atenção aos produtos regionais. Mas agora, eu acho que o governo está dando mais atenção a essas atividades ligadas ao setor produtivo. Estou bastante otimista.

AC - Essa competição com os indianos é uma briga que pode ser vencida?

Sim, se evitarmos o que eles estão fazendo: dumping. Eles colocam o manufaturado de juta no mercado a um preço mais baixo que o nosso, e isso só pode ser dumping. Mas o governo está estudando a baixa dos custos de nossa matéria-prima para podermos brigar com eles.

AC - Mas só tem como ingressar nesse mercado com o apoio do Estado ou é o empresariado que não está atento às oportunidades?

Veja...São Paulo é grande produtor de borracha e eles concedem muitos incentivos aos produtores. Bahia e Espírito Santo também. Eu acho que tanto o governo quanto os bancos, como o Basa, por exemplo, estão interessados e podem investir.

AC - Em que outros produtos o senhor apostaria?

A borracha. Se procurarmos fazer como já foi tentado com algum sucesso em outras regiões, que é o adensamento do plantio, acho que seria uma das grandes coisas que poderia acontecer ao Amazonas. E eu tenho a impressão de que o setor da borracha devia buscar a tecnologia da Malásia e aplicar aqui na região. Se eles levaram a borracha daqui pra lá, por que a gente não pode pegar a tecnologias deles agora?

AC - Como o senhor analisa a dependência da economia do Estado em relação ao modelo de Pólo Industrial baseado em incentivos fiscais?

Vejo com certa normalidade. A cada dia que se fala que o polo vai acabar surge uma indústria nova. Umas fecham, outras abrem. É lógico que tem muita gente que busca se instalar nos grandes centros consumidores, mas nada impede que o Amazonas possa ser um polo de grande produtividade.

AC - O senhor não acha arriscado o Estado ficar tão dependente de um único modelo econômico?

De certa forma, sim. Agora mesmo, por exemplo, criaram um polo (industrial) em Santa Catarina que está dando dor de cabeça ao Brasil inteiro. Aí o Governo Federal baixou alíquota de ICMS no País todo para acabar com essa guerra fiscal. Mas estamos certo de que não é só incentivo, mas temos que ter condições de mão de obra altamente qualificada para produzir bem.

AC - Como se manter competitivo em uma idade em que a maioria das pessoas já está aposentada ou se aposentando? Qual é a sua fórmula para tamanha disposição?

O segredo é não questionar. Não procurar problemas. Você tem que viver bem, não criar problemas e evitar que eles surjam. Como se pode evitar isso? Fazendo uma organização altamente criativa e altamente ordenada. E você tem que conciliar os interesses. As discussões são normais, mais dentro delas é que se encontram as novidades. 

AC - Com quase 92 anos de idade, como é que o senhor consegue manter essa vitalidade nos negócios?

Pensando sempre bem para tudo. Sendo otimista. Precisamos ser mais otimistas. Temos aqui elementos altamente dedicados ao bem do nosso Estado. Durante algum tempo eu me dediquei a ajudar meus filhos nos seus negócios e hoje estamos aí tentando reativar a juta.

AC - Como é trabalhar com os filhos?

É ótimo. Há um entusiasmo geral para tudo dar certo. Não buscamos apenas resultados financeiros.

AC - Mas como o senhor faz para resolver os conflitos?

Não existe conflito. Só existe harmonia (risos)

AC - E quem dá a última palavra?

Não tem última palavra. Tem que ter unanimidade (risos).

AC - O senhor foi oficial do Exército Brasileiro durante a 2ª Guerra Mundial. O que é mais difícil: vencer uma guerra ou vencer na vida?

A guerra é mais difícil. Quase ninguém vai para uma guerra porque quer. Você vai obrigado e precisa lutar para sobreviver. Na vida, é mais fácil. Você vai vivendo um dia de cada vez, crescendo, aprendendo.

AC - Que aprendizado o senhor tirou dos tempos de Exército e que o senhor utilizou na sua vida profissional?

A disciplina militar e o convívio com as pessoas. Na guerra você convive com muitas pessoas e precisa saber fazer isso direito.