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Aldeia do Estreito de Ormuz, em Omã, tem língua ameaçada de extinção

Escondida por montanhas áridas que caem em picada nas águas turquezas do Golfo, povoadas de golfinhos, Kumzar é uma aldeia de pescadores, acessível, apenas por barcos. Seus habitantes omanis não parecem temer uma guerra na zona, que fica bem no centro das tensões entre o Irã e os Estados Unidos 11/04/2012 às 18:20
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A aldeia de Kumzar, localizada no território de Omã, tem língua ameaçada de extinção
Lara SUKHTIAN / AFP ---

KUMZAR, Omã, 11 Abr 2012 (AFP) - Em uma aldeia isolada, na entrada do estreito estratégico de Ormuz, uma região pela qual circula 35% do petróleo mundial, transportado por via marítima, os moradores de Kumzar vivem da pesca e falam um idioma único. Seus 4.000 aldeões falam uma língua indo-europeia, o Kumzari, mistura de vários idiomas, entre eles o árabe, o persa e o português, vestígio da passagem dos navegadores portugueses nos séculos XV e XVI.

Seus habitantes omanis não parecem temer uma guerra na zona, que fica bem no centro das tensões entre o Irã e os Estados Unidos.

Escondida por montanhas áridas que caem em picada nas águas turquezas do Golfo, povoadas de golfinhos, Kumzar é uma aldeia de pescadores, acessível, apenas por barcos.

Durante várias épocas, os Kumzaris estiveram à frente na história, assistindo ao desfile dos exércitos dos grandes impérios e ajudando às vezes, segundo alguns pesquisadores, a manter o controle de toda esta região de tanta importância para o comércio marítimo mundial.

"Há muitas palavras árabes e persas", explicou Erik Anonby, um linguista canadense que viveu em Kumzar de 2007 a 2009.

Com sua parceira Christina van der Wal, da Universidade de Leiden na Holanda, assumiu a missão de salvar esta língua "ameaçada" segundo ele.

Trabalham juntos na elaboração de um dicionário kumzari, com Anonby ocupando-se da fonética e, Christina, da gramática desta língua transmitida apenas por via oral.

"Este idioma vai se perder se ninguém fizer alguma coisa para salvá-lo", afirmou Christina van der Wal.

Acaba o isolamento

À primeira vista, Kumzar parece cortada da civilização, mas há mais de uma década, seus moradores passaram a contar com uma rede elétrica, água corrente, uma escola, um hospital e um heliporto. Recebem, também, canais por satélite e têm acesso à internet.

Essas influências externas contribuem para fazer desaparecer sua língua que, segundo van der Wal, sobreviveu tanto tempo devido ao isolamento da aldeia.

"As crianças estudam na escola em árabe (...) e falam o kumzari muito pior que seus avós", observou ela.

Mas para os adolescentes da aldeia, a televisão e a internet são fontes bem-vindas de distração. "Não há muitas coisas a fazer por aqui, além das caminhadas na montanha", disse Jamayel, uma garota de 15 anos que passeava pelas ruelas estreitas da aldeia.

"Agora, podemos ver televisão, nos ligar à internet, ouvir música on-line", acrescentou a jovem que gosta muito de Michael Jackson.

Sua amiga Mariam sonha tornar-se arquiteta, para renovar as velhas casas de pedra que formam a aldeia.

Apesar das tradições muçulmanas conservadoras, os moradores enviam seus filhos - tanto as meninas como os rapazes - às universidades em Mascate, a capital do sultanato de Omã, e ao exterior.

"Minha filha estuda informática em Mascate", disse Mariam Ahmad, 34 anos, ela própria casada aos 13 anos.

Os aldeões passam o verão em Khasab, principal cidade do encrave omani de Musandam, para ajudar na colheira de tâmaras, e as outras três estações em sua cidade, onde vivem da pesca.

Os pescadores de Kumzar, separados do litoral iraniano por Ormuz, cruzam com frequência navios de guerra americanos e patrulhas militares iranianas e omanis.

Uma curta viagem de barco afasta a aldeia de uma base militar omani numa pequena ilha, enquanto que do outro lado do estreito, um pequeno arquipélago abriga bases militares iranianas.

Mas os aldeões permanecem impassíveis, enquanto aumentam as tensões entre os Estados Unidos e o Irã, que chegou a ameaçar fechar o estreito de Ormuz.

"Se uma guerra explodir, vamos todos morrer, não apenas os moradores da aldeia, mas todos os habitantes da região", afirmou Zeid, 31 anos. "Nada poderemos fazer. Então, por enquanto, vamos continuar a pescar e a viver normalmente, porque todo o resto escapa a nosso controle", acrescentou.