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Após 40 anos, Eva Wilma volta ao Teatro Amazonas com espetáculo

“Visitei o Teatro Amazonas algumas vezes na minha carreira. Na primeira vez eu tinha 14 anos”, lembra a atriz, que apresenta este mês “Azul resplendor” em Manaus 10/10/2015 às 10:41
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Atriz volta ao Teatro Amazonas após 40 anos
JONY CLAY BORGES Manaus (AM)

Ela abandonou o palco há mais de 30 anos, e desde lá alimenta um amargurado desprezo pelo mundo teatral. Não estamos falando de Eva Wilma, é claro, mas de Blanca Estela, personagem que ela vive em seu mais recente trabalho no teatro, “Azul resplendor” – e também sua perfeita antítese. “Nada a ver comigo, que estou completando 62 anos sem parar”, compara a dama do teatro.

Também diferente de sua personagem, a atriz de 81 anos mantém viva a paixão por atuar, da qual a nova montagem é um grande exemplo: a peça marcou os 60 anos de carreira de Eva, em 2013, e desde lá a atriz vem circulando com a peça pelo País. “Faço com muito entusiasmo, porque considero um espetáculo muito bom”, declara.

Com “Azul resplendor”, Eva volta ao Teatro Amazonas após quase 40 anos de ausência, para três apresentações de 24 a 26 de outubro, dentro das comemorações pelos 346 da capital.

A atriz falou com exclusividade e muita simpatia ao BEM VIVER sobre o espetáculo. Também contou os segredos de sua vitalidade e lembrou a recente “Verdades secretas”, onde viveu uma bonne vivante sem papas na língua. “A Fábia enchia a cara e tinha um humor crítico maravilhoso. Gosto desse lado também em ‘Azul’, que aborda a questão do universo artístico com humor”, diz.

Como foi seu encontro e depois seu trabalho com esta peça, que marcou seus 60 anos de trajetória?

Eu tinha terminado a peça “O manifesto” e estava fazendo “Fina estampa”, de Aguinaldo Silva. Enquanto fazia a novela, estava escolhendo o próximo texto. Quando achei que tinha encontrado, o (diretor da peça, Renato) Borghi me trouxe este texto, e desisti do primeiro. Quando li “Azul resplendor”, fiquei completamente apaixonada.

A comédia mostra um pouco dos bastidores do ofício do ator. Em que medida ela é próxima do real?

Ela vai fundo no ofício do ator, do diretor, do artista de teatro em geral. E com uma coisa que adoro: o humor crítico. Damos muita risada de nós mesmos, e felizmente o público ri com a gente (risos). Além de tudo, consegue chegar delicadamente a assuntos mais poéticos, como o fim de carreira.

A peça reúne pessoas de três gerações em cena. Borghi e eu somos uma. Depois vêm o (Guilherme) Weber, que faz o diretor histriônico, um barato, e a assistente dele, que é engraçada em suas frustrações. E uma dupla de jovens atores lutando para entrar no mercado. E nisso tudo o autor Eduardo Adrianzén – é um nome lindo o dele –, coloca muito humor crítico e um lado delicado. Por isso me apaixonei!

Como é Blanca Estela, sua personagem na peça?

É uma grande atriz que se aposentou muito antes do tempo – nada a ver comigo, que estou completando 62 anos de carreira sem parar! A Blanca se aposentou aos 30 anos, bem no meio da trajetória, e o público só fica sabendo no final os motivos que a levaram a isso. Borghi me disse, sobre quando recebeu o texto: “Eu acabei de ler e falei, ‘É ela!’”. Mas o que tem de mim é mais o humor crítico, que adoro, com uma crítica profunda e um tempo de humor preciso.

E como você encara o ofício do ator hoje, do alto de seus 60 anos de trajetória?

É uma luta ferrenha, pois a questão cultural continua relegada a último plano. Há 40 anos, a gente fazia teatro de terça a domingo, com duas sessões aos sábados e domingos, às vezes uma matinê. Os espetáculos se sustentavam na bilheteria, no interesse do público. Hoje os espetáculos são feitos de sexta a domingo, uns raros de quinta a domingo. E passaram a depender do aval dos governos, que consegue um aval de empresas, e acaba sendo um jogo de marketing delas.

Costumo plagiar uma frase que ouvi muito a minha colega Fernanda Montenegro dizer aos jovens: “Não se preocupe, meu filho, nós não existimos”. Nós não existimos, mas devagarinho vamos indo. Vamos ver como termina essa esbórnia hoje no Brasil.

Ao contrário de Blanca, você está em plena atividade. Como mantém a energia e a vitalidade?

O que posso dizer? Digo que a gente tem aquilo que é o significado de “entusiasmo”. Vem do grego, e quer dizer algo como “ter um deus dentro que lhe mantém vivo”. Uma paixão. No momento, tenho uma família que é sensacional, meus dois filhos e cinco netos. Isso alimenta. E também o amor pelo ofício do ator.

Como é seu cotidiano? E você se preocupa com alimentação, exercícios, coisas do tipo?

Ah, sempre! Quando estreei em “Verdades secretas”, seis meses, tropecei num degrau do elevador, tive uma fratura de vértebra. A vértebra F9. Tinha feito só um dia de gravação, e pensei, “Não vai dar, vou sair”. Mas baixa a Mulher-Maravilha, e eu digo, “Vou continuar!” (risos).

Pedi atenções especiais apenas, e hoje estou recuperada do acidente. Lembro que brincava com minha filha, que é preparadora de atores, quando ela estava no início da carreira. “Pelo amor de Deus, despe a capa de Mulher-Maravilha!”, eu dizia. E ela respondia, “Não posso, eu herdei!” (risos). Mas não é heroísmo, é só amor e entusiasmo.

A peça também toca a questão...

Só um minuto, apenas algo que queria acrescentar, pois é algo que gostei na sua pergunta: eu não tenho nada a ver com minha personagem de “Verdades secretas”! (risos) Durante quatro meses, eu tomei muita água fingindo que era cachaça; muito suco de uva fingindo que era vinho; e muito chá, fingindo que era uísque. Realmente bebo muito, mas são essas coisas! (risos). Mas não dispenso, num encontro com amigos da classe, quando conseguimos nos sentar e desfrutar de uma pizza, uma taça de vinho. Uma ou duas vezes por semana, faz bem à saúde.

Sem dúvida! Eva, quem são suas referências no Teatro?

Tive dois grandes mestres. Um foi o Teatro de Arena da América Latina, instaurado por José Renato. Meu começo teatral lá foi fazer espetáculos no Museu de Arte Moderna, em residências, em fábricas. Foi um aprendizado. Outro foi o Antunes Filho, que me dirigiu quatro vezes intensamente.

Você atuou em tragédias gregas, peças de Shakespeare, Martins Pena, Tennessee Williams, Beckett e por aí vai. Que papéis mais marcaram sua trajetória?

Com o Zé Renato, cito “O demorado adeus”, do Tennessee Williams, e “Judas em sábado de Aleluia”, do Martins Pena. Com Antunes, houve “Esperando Godot”, do Beckett, e duas peças do Arthur Miller, “As bruxas de Salem” e “O preço”. E “Um bonde chamado desejo”, outro de Williams, nos anos 1970.

É um grande texto, não?

No “Azul” a gente fala muito dessa peça. A Blanca comenta que foi com esse texto que ela se retirou do trabalho de atriz. E, em “Verdades secretas”, o Walcyr Carrasco me fez uma homenagem me fazendo dizer uma fala da Blanche Dubois (protagonista da peça de Williams). É uma personagem intensa e maravilhosa. Enfim, depois de Antunes, veio uma bola de fogo, que ensaiei em cinco dias, que foi “A megera domada”, com Armando Bogus e Regina Duarte. É uma boa salada, não? (risos).

“Verdades secretas” trouxe um tom mais adulto às novelas. Como foi participar dessa produção?

Minha análise é a da ousadia de fazer o que acho que tem de ser feito: as novelas têm de encurtar. Não dá mais para ficar sete, oito meses numa trama. A gente costuma dizer, “Ah, entrou na barriga da novela”. Você fica preso. É uma proposta inteligente e boa para nós. E o horário permite a abordagem de problemas difíceis como como drogas e sexo. (A produção) trouxe uma linguagem que abordava esses assuntos a fundo e com delicadeza. É uma imagem que me agrada. Foi uma façanha da empresa, do diretor de núcleo (Mauro Mendonça Filho), do autor (Carrasco) e dos atores – e me coloco, humilde, entre estes.

Com “Azul resplendor” você circulou bastante pelo Brasil. Acha importante sair às vezes do eixo Rio-São Paulo?

Acho da maior importância. Se ficar só em São Paulo ou Rio, você perde a oportunidade de entrar por um Brasil maravilhoso, de conhecer artes populares importantes, atores maravilhosos do Brasil inteiro. Para mim, levar um espetáculo para o grande público do Brasil é muito gratificante.

Saiba mais

Comédia

Em “Azul resplendor”, Blanca Estela, diva afastada dos palcos, recebe de um antigo fã o convite para voltar a atuar. Depois que ela aceita, um diretor teatral tido como “gênio” é chamado para dirigi-la.

Montagem

A peça tem texto de Eduardo Adrianzén, e direção de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas. Além de Eva Wilma, estão no elenco Borghi, Guilherme Weber, Luciana Borghi, Débora Veneziani e Carlo Porto.

Apresentações

A temporada em Manaus faz parte das celebrações pelos 346 anos da cidade e tem patrocínio da Petrobras, com apoio da SEC.

Serviço

O que é? Comédia teatral “Azul resplendor”, com Eva Wilma e grande elenco
Onde é? Teatro Amazonas, Largo de São Sebastião, Centro
Quando é? Dias 24 e 26, às 20h; e dia 25, às 19h
Quanto é? Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), à venda na bilheteria do local
Informações (92) 3232-1768

Gratuito

“Azul resplendor” terá duas apresentações populares no Centro de Convivência da Família Padre Pedro Vignola, rua Gandu, 119, Cidade Nova. As encenações, com entrada franca, serão nos dias 22 e 23 de outubro, às 19h.