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Após 60 anos da sua morte, Monteiro Lobato está no centro de uma polêmica sobre racismo

Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”. A frase foi retirada do livro “Caçadas de Pedrinho”, um clássico da literatura infantil escrito em 1933 pelo escritor 13/10/2012 às 18:11
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Instituto de Advocacia Racial (IARA) questiona no Supremo Tribunal Federal (STF) elementos racistas nas obras de Monteiro Lobato. A Corte deve apreciar o caso logo após o julgamento do Mensalão
Rosiel Mendonça Manaus

Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”. A frase foi retirada do livro “Caçadas de Pedrinho”, um clássico da literatura infantil escrito em 1933 por Monteiro Lobato, e relata a fuga da personagem negra do Sítio do Picapau Amarelo, a criadora da boneca Emília, ao se deparar com uma onça.

Esse e outros trechos que, supostamente, fazem referências depreciativas à empregada negra levantaram uma discussão sobre a presença de elementos racistas na obra de Lobato – polêmica que acabou indo parar no Supremo Tribunal Federal (STF).

No mês passado, o Instituto de Advocacia Racial (Iara) reanimou uma polêmica iniciada há dois anos. O instituto entrou com um mandado de segurança na Suprema Corte para que o Governo Federal modifique a nota explicativa já existente nas edições e capacite melhor os professores para lidar com o assunto.

Logo após, o instituto e o pesquisador Antonio Costa Neto entraram com um pedido para que o livro “Negrinha”, publicado em 1920, também seja considerado no processo. Em último caso, o Iara defende que o governo deixe de adquirir as obras para uso nas escolas.

Impasse
Como nenhum acordo vingou, mesmo após duas reuniões entre o Iara e representantes do Ministério da Educação, a decisão final caberá ao plenário do STF – o que deve acontecer após o julgamento do mensalão. Por enquanto, o processo está aberto para que entidades civis deem sua contribuição.

O advogado e imortal da Academia Amazonense de Letras (AAL), Júlio Antonio Lopes, acha pouco provável que a Suprema Corte decida pela retirada dos livros do Programa Nacional Biblioteca na Escola, o que poderia ser considerado um ato de censura.

“Mas nenhuma questão pode ser afastada da apreciação do Judiciário”, complementou ele, que foi leitor de Monteiro Lobato. “Li-o quando criança e confesso que nunca vi racismo nas suas obras. Elas são frutos de seu tempo, nada mais”.

Análises
Em um tempo em que estereótipos racistas aparecem disfarçados de humor na televisão, a discussão envolvendo Monteiro Lobato pode parecer exagerada. O escritor e mestre em Letras – Estudos Literários, Alexandre Serrão, vai além na análise da polêmica.

“Devemos lembrar que Lobato resistia à estética moderna. Ainda assim ele é clássico e é importante estudá-lo, de preferência de forma contextualizada. Talvez houvesse nele resquícios de tradição, mas acho que ele não era racista, apenas mostrava o negro em um tempo em que as noções de ser ou não racista não eram muito claras”, opinou Serrão.

Monteiro Lobato é um autor que também faz parte do imaginário infantil do escritor e imortal da AAL Tenório Telles. Segundo ele, o movimento que aponta racismo na obra de Lobato considera o leitor como um ingênuo.

“Se for para levar ao pé da letra essas teses, então é preciso tirar de circulação a Bíblia, Machado de Assis, Shakespeare e uma série de obras que, em determinadas passagens, fazem referência a temas considerados pecado pelo politicamente correto”, enfatizou Telles.

Autor simpatizava com as teses da Eugenia
Em reportagem publicada em maio do ano passado, a revista “Bravo!” trouxe à tona trechos de cerca de 20 cartas que Monteiro Lobato trocou com o escritor mineiro Godofredo Rangel e os cientistas Renato Kehl e Arthur Neiva. A correspondência foi garimpada nos arquivos da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e em livro publicado pelo próprio Lobato em 1944.

As cartas revelam que o escritor, no fim dos anos 1920, era entusiasta, junto aos dois cientistas, das ideias da eugenia, pretensa ciência que colocava a raça branca em um patamar superior em relação às outras. Nessa época, a eugenia era abertamente divulgada e estava na origem das ideologias racistas propagadas pelo nazismo.

Trechos
Em suas cartas, dentre outras coisas, Monteiro Lobato fazia referências à Ku Klux Klan, organização que aterrorizou a população negra do estado do Tennessee após a Guerra Civil Americana.

Em carta a Arthur Neiva datada de 10 de abril de 1928, Lobato escreveu: “País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux Klan (sic), é país perdido para altos destinos. (...) Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan”.

“Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde”, também escreveu em carta a Godofredo Rangel.

Alexandre Serrão prefere se ater à discussão sobre a presença ou não de racismo na obra do escritor. “O homem é sempre falho. Lúcio Cardoso, por exemplo, tinha umas colocações no mínimo estranhas em relação aos negros, mas sua obra tem qualidade”, declarou.