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Após o sucesso do 16º Festival de Ópera, secretário de Cultura faz uma avaliação da pasta

Confira na íntegra a entrevista com o Secretário de cultura do Amazonas, Robério Braga 28/04/2012 às 14:35
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Secretário de Cultura, Robério Braga
Jony Clay Borges Manaus

Por trás de cada gesto de Robério dos Santos Pereira Braga como secretário, há uma ideia fixa: quando sair do cargo, quer poder continuar usufruindo das coisas que ajudou a fazer. Por isso, explica, pensa sempre em projetos que ultrapassem mandatos, enriquecendo o patrimônio cultural do amazonense. Em pleno 16º Festival Amazonas de Ópera e prestes a abrir a primeira Bienal do Livro no Amazonas, ele conversou com A Crítica. Confira aqui a entrevista na íntegra.

À época em que foi anunciada a realização do Festival Amazonas de Ópera, muita gente disse que era loucura a ideia de fazer ópera em Manaus. O que o senhor lembra daquele primeiro ano do evento?

Realmente foi uma loucura. As pessoas acharam que seria somente a ópera pela ópera, somente para se ter um evento erudito em Manaus. Mas a ideia era utilizar a ópera como um impulso para as manifestações artísticas e como um eixo de promoção positiva, capaz de sobretudo de realizar aquilo que é indispensável, que é a formação – de plateia, técnica ou artística. Não ficamos na ópera pela ópera: fizemos o Claudio Santoro, a Universidade com curso de Música, Dança e, agora, Teatro, e fizemos a Central Técnica de Produção (CTP). Essa variação em torno da ópera estava embutida na proposta, e naquele primeiro momento as pessoas não compreendiam porque não sabiam que haveria esse desdobramento. Porém ele estava no bojo de nossa proposta desde o primeiro instante. E ele é o responsável por muitas das transformações nas vidas no setor.

O que de inusitado aconteceu ao longo desses 16 anos de ópera?

Tem muita coisa, das mais variadas. Primeiro, há necessidade de se compreender que, em determinados momentos, era preciso mudar um comportamento, uma linha de ação, mas sem perder todo o fio central. Fizemos dois anos com um artista alemão (Michael Jelden), que foi importante para deflagrar o processo. Ali se conjugaram os dois interesses: ele queria fazer uma ópera e eu queria fazer um festival. Ele sabia fazer mais ou menos, e eu não sabia quase nada de como fazer esse processo. Ele tinha uma experiência europeia com ópera e eu não, mas sabia que ela ia repercutir na autoestima do amazonense, retomar para o Teatro Amazonas a função primordial para a qual ele foi construído, e gerar todos os desdobramentos que precisávamos que fossem gerados para a construção de uma política pública de cultura ampla, setorizada. Num outro momento, foi preciso fazer a ruptura com ele – foi feita. Num outro, fazer com que a orquestra Amazonas Filarmônica, criada para cumprir este papel e também formar novos músicos, ganhasse uma nova orientação – e ela ganhou essa nova orientação. Não nos acovardamos diante das situações que foram aparecendo, algumas complexas, difíceis de serem gerenciadas, e o resultado continuou sendo positivo.
A partir de certo momento foi preciso decidir também o seguinte: não vamos financiar ópera para deleite de especialistas, mas patrocinar para formar uma nova geração de artistas, formar uma plateia, atrair para o Amazonas um público que possa representar um turismo cultural, influindo na geração de renda e emprego, além de constituir um patrimônio para o nosso povo. Faço contraponto com o Pará: num determinado momento, o Pará também passou a fazer festival de ópera, cinco ou seis anos depois do nosso. Qual a diferença? Eles já pararam de fazer. Chegaram a vir a Manaus em 2005 para reestabelecer a ação. Não compramos produções, mas produzimos ópera. É importante a presença dos maestros, do pessoal técnico da CTP, da bordadeira, do ferreiro, do pintor, do pessoal de Parintins, de Maués, de Manacapuru, de Manaus – enfim, de todo esse caldo de experiências artísticas. Isso permitiu que tivéssemos hoje um acervo patrimonial enorme na CTP, que permite o barateamento dos custos de produção. Estamos financiando a ópera pelo Estado com um patrocínio no mesmo, há praticamente dez anos. Os recursos que gastamos para fazer um festival, São Paulo usa para fazer uma ópera.


A Bienal do Livro está iniciando esta semana. Quais as expectativas para com esse evento, e suas perspectivas para o futuro?

O Governador Omar Aziz, logo no começo de sua administração, após a eleição, lançou-me alguns desafios. Temos ópera, jazz, teatro, dança, mas temos algumas frentes que não foram ainda enfrentadas pelo Governo, e que ele considerava, e eu considero também, importantes, que eram as artes visuais, e livro e literatura, que não tinham um grande evento para impulsioná-las. Como toda lógica construtiva da política pública de cultura, que eu tenho o privilégio de gerenciar, não se faz evento pelo evento, mas sim para impulsionar um programa que alcance um campo mais amplo possível da sociedade. A Bienal de Artes vem com uma Pré-Bienal, para marcar o ponto atual em que se encontra a produção visual do Estado, trazendo artistas da capital e do interior, de técnicas, experiências e gerações diferentes, do Moacir Andrade ao recém-aluno do Cláudio Santoro. Do artista de Maués, de Parintins, de São Paulo de Olivença. Isso mostra um 'caldo' especial. E daí virá toda uma outra atuação para a elaboração da Bienal do ano que vem, com críticos de fora de Manaus, que possam contribuir para o aprimoramento artístico.
É a mesma coisa na questão do livro e da leitura: é sempre uma discussão se a Bienal tem uma importância para a política nesse segmento. Tem, mas não se for sozinha. Para ter repercussão, o Governo criou o programa "Mania de Ler", um conjunto de 47 projetos, dentre eles a Bienal, que vai funcionar como um impulso para o livro e a leitura, da mesma maneira como a Bienal funcionará para as artes visuais.
Já vínhamos fazendo algumas experimentações para prospectar essas reações. Com o programa "Mania de ler", e a Bienal de Artes, o Governo abarca duas grandes áreas que ainda não tinham a atenção nesta dimensão. Não é que nunca se tenha dado atenção, mas passa a dar na mesma dimensão de outras áreas. O programa vai se desdobrar até 2014, com Bienal em Manaus e participação em bienais fora de Manaus, bolsa de tradução. Enfim, com um conjunto de projetos que vão consubstanciar uma política de livro e de leitura. Ficamos então com um desafio, que espero que seja vencido no próximo ano, que é a política de arte circense. Temos um grupo expressivo de artistas, temos trabalhado com eles, eles discutindo o que fazem e dialogando com a secretaria. Deveremos trabalhar uma proposta, em conjunto com eles, para um programa de política circense.

O que o senhor pode falar a respeito da Diretoria de Inovação Cultural? O que já foi feito e vem sendo feito por essa divisão criada no ano passado?

O ajustamento operacional da SEC é constante, e é natural que seja porque temos de promover uma autorrenovação. Se nenhum outro setor da atividade pública se preocupar em se reciclar, em identificar o que tem de novo e que interessa para uma boa prática administrativa e gerencial... A Cultura pelo menos tem de fazer. Temos algumas atividades novas sendo desenvolvidas na SEC desde o ano passado, dentro da política do governador Omar Aziz de modernizar constantemente. Não podemos envelhecer, pois a cultura é dinâmica por natureza.
Lá atrás já tínhamos feito a assessoria de Negócios da Cultura, para estabelecer a relação entre o poder público e a iniciativa privada, que atraiu investidores e gerencia investimentos, que não são de grande porte, mas importantes porque são constantes: Coca-Cola, Bradesco, Pepsicola, Ambev, Semp Toshiba, Daycoval. Ano passado, criamos uma assessoria de Assuntos Internacionais, pois não há como não abrir a política pública de cultura, no ponto a que chegamos, para relações com embaixadas, museus, centros culturais e bibliotecas de outros lugares do mundo. Temos um foco de preocupação de vários segmentos. E já começa a dar frutos, por exemplo, com a Grã-Bretanha, e brevemente vamos ter a repercussão desse trabalho. Já vieram pessoas de centros culturais ingleses visitar nossas atividades, nossa assessora já foi a Londres, e estamos construindo como essas coisas vão se desdobrar. Estamos também com a parceria com a Ópera da Filadélfia, que não veio por este canal, mas será gerenciada por ele.
Criamos também no ano passado e implementamos agora uma assessoria especial para pessoas com deficiência. Já temos um trabalho com a Biblioteca Braille, escolas e cursos especializados, e agora temos uma assessoria exclusiva, inclusive com um espaço físico específico para receber essas pessoas e dialogar com elas, além de implantar a acessibilidade 100% em todos os nossos equipamentos culturais. É preciso ter uma pessoa que cuide só disso, um setor que gerencie essas relações.
Nessa mesma esteira, há a Divisão de Inovação Cultural, para trabalhar propostas de modernização de nossos equipamentos e exposições, naquilo que possa dialogar com experiências do exterior e de outros centros do Brasil. É um passo importante, e já vamos ver as primeiras ações no Teatro Amazonas.
A última é a diretoria de Produção Literária, uma transformação da assessoria de Edições. Ela veio dentro deste programa "Mania de Ler" e da orientação do governador de que focássemos três investidas: uma nova forma de interiorização – já tentamos várias formas, e temos uma nova forma de impactar e receber o impacto do interior –, a Bienal de Artes e a Bienal do Livro Amazonas.

Já existem algumas iniciativas para levar a cultura para os municípios, mas o interior ainda carece de bibliotecas e centros culturais, e me corrija se estiver errado, tem pouca participação nos editais da SEC. O que vem sendo feito e será feito para diminuir a distância entre a capital e o restante do Estado?

A meu ver, há um equívoco de interiorizar a cultura. Não vou fazer isto, o que pode parecer estranho para aqueles que defendem. É uma questão de semântica: a cultura está latente e operante em qualquer grupo social, sobretudo se compreendermos que toda ação do Governo não tem sido uma imposição cultural, mas um aproveitamento da expressão cultural individual ou de grupos, com valorização, aprimoramento e propostas de formação. Não dizemos, como os religiosos diziam para os índios, 'Faça essa cerâmica desse jeito, essa cestaria daquele'. Valorizamos o que é feito originalmente, e abrimos oportunidades para outros fazeres, como no canto, na dança ou na música. A secretaria não inventou uma banda de rock, mas pegou roqueiros que atuam na cidade e, num diálogo com eles, construindo com eles, criou um evento que promovesse a arte que eles desenvolvem, e que atraísse novos interessados em ouvir, gravar, escrever, compor. Essa é a leitura da secretaria.
Já tentamos vários mecanismos de estreitar a relação entre a produção cultural de Manaus e dos municípios, e a destes entre si. Ouve-se aqui e ali uma voz, 'Ah, é tudo centralizado em Manaus'. Quem diz isso não está suficientemente informado, e a falha é do Governo, que não consegue dizer e mostrar tudo o que faz. Várias alternativas e formas dessa relação já foram tentadas. Há quatro anos temos uma extensão da SEC no município de Humaitá: um técnico de nível superior, com estagiários, escritório funcionando todo dia num trabalho rotineiro. E que resultados deu isso? Pesquisas importantes foram desenvolvidas lá em parceria com universitários, de temas como questões religiosas, muito fortes na tradição de lá; pesquisas sobre patrimônio histórico de Humaitá; prêmios para a biblioteca comunitária organizada por um jovem de lá, por dois anos seguidos. Nossa presença está lá.
E que outras formas temos feito? Todas as demandas do interior são patrocinadas pelo Governo. Não há um evento de folclore, produção ou atividade artística no interior que não tenha sempre sido provido, financiado, apoiado e estudado pelo Governo. Recentemente, fizemos todo o trabalho de registro do gambá de Maués, e vamos publicar num livro. Já fizemos com Borba, inclusive no patrimônio religioso. Já fizemos com Itacoatiara. Enfim, há um conjunto de ações contínuas. Foram suficientes? Não. Aí vem outro desafio que o governador me lançou: encontrar um caminho novo que fizesse com que essa relação do Estado na política cultural fosse mais íntima com as expressões e grupos artísticos do interior. Criamos o Projeto Mandaçaia, fizemos uma primeira experiência em janeiro e vamos, espero, alcançar todos os municípios até o fim do ano, num processo de troca de experiência. Não admito que se pense que vamos levar cultura: vamos levar uma manifestação cultural de Manaus para lá, e trazer de lá as manifestações e ações que eles têm para mostrar aqui, e depois mostrar isso entre eles. E é a primeira vez que se faz isso? Não. Já demos 41 bandas de música para o interior. Já fizemos 12 salas de leitura nos municípios de menor IDH. Já demos apoio a todas essas festas, por 16 anos.
Disso se espera uma produção cultural nesses municípios semelhante à de Manaus? Agora que a Universidade chegou lá. É muito novo. O que tínhamos em Manaus antes? Quantas bibliotecas tínhamos em Manaus antes dessa gestão cultural? Só a Pública. Não havia outra. E vamos levantar: hoje todas as escolas públicas do Estado têm biblioteca. Biblioteca Arthur Reis, Biblioteca Mário Ypiranga Monteiro, Biblioteca Padre Agostinho Caballero Martin, Biblioteca Genesino Braga, Biblioteca de Arte no Sambódromo, Biblioteca Emídio Vaz de Oliveira para crianças, Biblioteca Braille para deficientes, e a própria Biblioteca Pública, que tinha 60 mil exemplares, e agora terá 367 mil quando abrir.
As ações do Projeto Mandaçaia já deram um resultado fantástico nos dez primeiros municípios visitados. Agora em maio serão outros dez municípios. Vamos fazer no Povos da Amazônia a segunda etapa do Mandaçaia 1: as manifestações artísticas levadas e aquelas identificadas no município trazidas para cá, com um cadastro/perfil das atividades, ações e equipamentos existentes nesses municípios.
Além disso, temos outras ações específicas: estamos criando um escritório em Maués, como o de Humaitá, em maio. Estamos criando um braço em Itacoatiara, um braço em Parintins por meio de um cine-teatro. Portanto, ampliando a presença física permanente da SEC. Mas não é isto que vai fazer com que as atividades artísticas do interior tenham uma repercussão do tamanho que têm em Manaus. É a Universidade, a escola pública, a abertura de cursos particulares, a manutenção do incentivo aos eventos, e a organização do município com a sua secretaria própria de cultura. Aqui mesmo, enquanto a Cultura foi um apêndice da Educação, não se teve o boom que teve. É preciso ter importância política na estrutura do Governo, definição orçamentária e definição política. O Governador precisa querer fazer – três já demonstraram que quiseram e continuam fazendo. É preciso que o prefeito no interior também priorize isso. Não imaginar que cultura é cara, e sim que cultura é investimento, como é em hospital, em escola, no trânsito, no porto, na comida. Ninguém vive só de feijão com arroz. Todo ser humano, antes da carne, é espírito.
Se um dia eu tivesse tido coragem de ser secretário de Educação, teria trocado: seria Secretaria de Cultura e Instrução, pois vem primeiro a cultura, depois a informação. Não estou querendo ser secretário de Educação, pelo contrário! Longe de mim essa ideia! (risos)


O senhor assumiu no dia 1º de janeiro de 1997 como secretário de Cultura. Que balanço faz desses 16 anos de administração?

São saldos muito positivos, nas mais diferentes áreas. Claro que há percalços, dificuldades, erros, acertos, até porque isso tudo representou, tem representado e espero que continue representando um aprendizado. Não paro de aprender. Ninguém deve achar que sabe. Não sei nada, estou aprendendo a cada momento na construção de cada atividade. Cada uma tem uma particularidade, um desenho, uma forma, uma relação diferente. A maneira de fazer um festival de cinema e uma política de polo de cinema, por exemplo, são diferentes de se trabalhar com livro e leitura, ou teatro. São formas diferentes de relação, de construção da atividade, de repercussão e de alcance. É um aprendizado permanente.
Mas penso: será que teriam deixado essa equipe ficar por tanto tempo sem resultado? Não creio. Todos os resultados que possam ser entendidos pela população como positivos, na avaliação mais da sociedade do que minha; tudo o que o povo – intelectuais, escritores, músicos, bailarinos, a sociedade como um todo – leia como importante decorreu do fato de termos tido tempo para fazer. Em pouco tempo não se faria. Seria possível que ninguém antes de mim tenha tentado? Claro que sim. Nossa equipe não era a única que tinha boa vontade, boa intenção, bons planos. Foi preciso conjugar uma série de fatores: uma definição política, sobretudo, de tornar a cultura uma política pública; um empenho para estabelecer um diálogo saudável, pontos de opinião contrária sendo respeitados. É natural que haja, e importante e bom que haja. Mas é bom também que se reconheça, pois aquele que não vê virtudes também não está cometendo justiça. Há muito mais acertos que erros, isso tenho tranquilidade em dizer.
E o que considero mais importante: não tivemos medo de errar. Não nos omitimos nunca: vencer a burocracia da administração, fazer as coisas dentro da lei, criar as condições adequadas para as pessoas realizarem seus sonhos e desejos. Sem grupos: não tenho amigos ou inimigos, ninguém na secretaria tem adversários ou apaniguados. São editais públicos que as pessoas disputam, e quando estamos errados mudamos o edital sem constrangimento. A secretaria não comanda a política de cultura, e sim a articula. Os segmentos estão aí para dizer. Não temos o democratismo ou assembleísmo; temos o empenho em realizar. Na área do Patrimônio Histórico, das bibliotecas, dos museus. Onde estavam nossos acervos? Qual era o tamanho do acervo do Estado, em Numismática, Imagem e Som, Arqueologia? A primeira vez que cogitei, e aqui quero falar em causa própria, em transformar a sede do Comando da Polícia Militar num museu do Estado, foi em 1975. Assumiu o Governo o ministro Enoch Reis, um erudito, com uma equipe aberta e nova, e realizou um seminário na Associação Comercial para ouvir os segmentos sociais e fazer o seu plano de Governo (...) Estive lá num grupo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, presidido então pelo Dr. Mário Jorge Couto Lopes, e propus a transformação do quartel da Polícia num museu do Estado, a ser exatamente o que é hoje, um conjunto de acervos. Várias outras pessoas também pensaram, desejaram, como, no campo da música, Dirson Costa, Nivaldo Santiago. Apenas o que havia eram ações pontuais, do esforço individual, que vencia dificuldades inacreditáveis para realizar o que se realizava. O que se fez? Foi organizar, reconhecer essas experiências e construir uma ação nova. Logo que fui nomeado secretário, a primeira entrevista que dei foi para A CRÍTICA. A jornalista Leyla Leong me perguntou quais eram meus planos. Eu disse, 'Fazer a roda girar'. Não vou fazer dirigismo cultural. Não vou publicar este livro porque o cara é meu amigo, ou deixar de publicar porque é meu inimigo. Ainda não escolhi meu boi, ninguém acredita, mas é verdade. Não tenho grupo folclórico, não tenho escola de samba. Não posso ter o direito de ter, e isto é uma intuição introspectiva. Não tenho partido político, vereador, deputado. Governador eu tenho. É preciso que haja esse esforço de isenção. Se eu tenho sido bem sucedido nessa minha tentativa de isenção, não sei. Mas tenho me esforçado e tenho isso como fundamental.

Se o senhor pudesse escolher, permaneceria indefinidamente à frente da SEC, ou tem outros planos para o seu futuro?

Não. Primeiro não escolhi ser, fui convidado para ser. Nunca pedi para ser secretário de Cultura nem de pasta alguma. Já tive oportunidade de, em vários governos, exercer vários cargos. Fui secretário de Comunicação Social, diretor da Fundação Cultural, presidente da Emamtur, secretário da Casa Civil do Governo, chefe de gabinete da Prefeitura de Manaus. Exerci vários cargos, mas nunca pedi para ser em nenhum deles. Tenho sempre atendido à convocação da autoridade que imagina que eu possa ser útil na gestão que venha a ser implantada. Tenho 38, 39 anos de serviço público, 37 de advogado. Não tenho nem de longe, seria impossível imaginar que só eu ou nossa equipe poderíamos fazer um trabalho nessa área. Estamos dando nossa contribuição, e continuaremos dando enquanto o Governador, no caso agora o Omar Aziz, entenda que podemos contribuir.
Agora, tenho planos pessoais. Estou fazendo meu doutorado, e espero ter cabeça e conhecimentos suficientes para vencer todas as etapas. Grande parte já está vencida. Continuo estudando, escrevendo, produzindo, tentando manter minhas pesquisas sem que isso prejudique minha atividade. Não posso advogar porque isso é incompatível com minha função, e isso também me faz falta. Da mesma forma me faz muita falta não estar na sala de aula numa universidade, pois não tenho tempo, nem posso me comprometer para não cumprir, a não ser uma palestra ou conferência esporádica. Mas uma rotina de professor, que é o que mais gosto, e está no meu sangue. Sou de uma família de professores. Da minha mãe a mim, que sou o irmão mais novo, somos todos professores. Minha mãe deu aula dos 17 anos aos 97, quando faleceu. Esteve dentro de uma escola a vida inteira. Faz falta para mim a tranquilidade de atuar na imprensa. Meu pai foi jornalista, líder sindical, político. Fui viver a minha experiência política, e já vivi.
Sinto a necessidade de desenvolver outras ações e atividades. Tanto quanto possível vou desenvolvendo em paralelo, mas muitas não consigo, embora gostaria. Esta opção, enquanto eu for funcionário público, não é minha, ou pelo menos não exclusivamente minha. Se o Governador me faz a deferência de me convidar para exercer uma função, por exemplo continuar na secretaria de Cultura ou não, tenho de analisar com ele as condições de trabalho, minha vida pessoal, a oportunidade de continuar produzindo para a minha terra, ou não. Pois quando ele é eleito, ele encarna a representação da maioria da sociedade. Ele não está falando por si, mas pela maioria das pessoas que o elegeram para gerir a coisa pública.
Mas a secretaria dispõe hoje de equipe técnica, de quadros, de estrutura, de organização. Os equipamentos culturais estão aí à vista de todos. Hoje seria mais fácil, a meu ver, conduzir a secretaria, do que todo o período em que tivemos de construir – com uma grande dose de descrédito no início. 'Por que ópera? Que ópera? Isso é coisa de Robério. Coisa de maluco, coisa de erudito'. Quem vai ao teatro vê que é raríssimo o membro da dita elite – embora o Governo tenha de ser para todos – assistindo à ópera ou trabalhando nela. É o povo, o estudante, o professor, a dona de casa, o aposentado, o turista, e sobretudo o artista e o técnico se realizando como profissional. Não há maior frustração de vida do que não conseguir realizar o seu sonho. A vida é um sonho, às vezes muito fugaz, muito rápido. Tomara que a minha seja longa.

Caso o senhor deixasse a SEC por qualquer motivo, pensaria em voltar à vida política? Cogitaria se candidatar a qualquer cargo público?

Não, não me candidataria. Vivi a experiência política, em alguns momentos até tive expectativa de outros cargos políticos, mas procurei fazer esta separação bem clara: não poderia estar no cargo de secretário, propor uma gestão como pretendia e estamos conseguindo executar, ao menos sob minha ótica, e ao mesmo tempo ter um interesse pessoal em jogo. Renunciei à minha carreira política. Era vereador quando fui para o Governo, reeleito, primeiro suplente de deputado estadual. Deixei de assumir a Assembleia Legislativa para vir para o Governo com Amazonino em 1995, ele eleito em 1994. Fui ser secretário de Comunicação Social e depois chefe da Casa Civil, mas já em 1994 havia entregado a ele uma proposta de política cultural. Àquela altura, política cultural e de turismo, eu imaginava construir as duas em conjunto, o que me parecia mais adequado. Naquele momento em que vim para o Governo, e sobretudo em 1997, quando vim para a Secretaria de Cultura, havia encerrado o meu mandato e eu não disputaria mais, para ter liberdade de fazer aquilo que era o meu sonho, para o qual fui estudar, custeado pelo povo do Amazonas. Fui fazer um curso de pós-graduação de Administração de Política Cultural, com uma bolsa da Organização dos Estados Americanos, dentro da Universidade de Brasília. Senti a necessidade de dar respostas para mim mesmo e para a sociedade, que nem sabia que estava me financiando, mas estava. Sempre estudei em escola pública, do grupo escolar à universidade. Tinha de dar resposta à sociedade. A sociedade pagou meus estudos. Meus pais investiram para que eu servisse à sociedade, para que tivesse uma vida útil, voltada para a família, para crenças pessoais, para as artes. Isso desde cedo, todos nós: tenho um irmão que é desembargador federal, advogado, juiz, e tem curso superior de Música e Violino. Minha irmã é assistente social, e toca piano e acordeon. Outra que faleceu era médica, tocava piano e bandolim. O Lourenço (Braga), que foi reitor, toca bandolim e violão. Sempre tivemos uma formação artística em casa. Desde cedo que ouvia meu pai falar como orador, ou escrever, eu menino, discursos para proferir; a me levar para o teatro, eu com 4 anos de idade estava no palco do Teatro Américo Alvarez, declamando, fazendo discurso, aprendendo a enfrentar o público, a decorar poesia. Ao mesmo tempo, estava estudando Português, Matemática, Geografia, História, daí minha paixão pela História. Todos nós tivemos uma construção familiar preocupada em servir.

Para concluir, gostaria de deixar uma dica ou mensagem para o leitor de A CRÍTICA?

Espero que todo esse esforço seja reconhecido com justiça. Que tudo aquilo que porventura tenha redundado em equívoco seja relevado, pois terá sido feito com as melhores intenções. E tudo o que tenha sido feito com justeza seja mantido. Que haja um esforço da sociedade para manter, que a sociedade tenha uma compreensão de que não está nada acabado. O processo cultural é contínuo e permanente. É preciso estar sempre adquirindo acervo, valorizando o artista, consertando prédio, renovando a cidade. Na questão cultural nada se engessa, tudo é dinâmico. Agora precisa haver a vigilância da sociedade. Mais do que apontar os erros, é dizer as alternativas. E, ao chegar aos lugares, dar sua contribuição. O que precisa é que as pessoas contribuam – fiscalizando, ajudando, falando positivamente, oferecendo suas experiências, e inclusive não jogando fora os arquivos de suas famílias, valorizando os acervos de que dispõem em casa, reconhecendo a experiência de cada um. Tudo isso é uma construção coletiva, permanente. Quero sair do cargo e poder continuar usufruindo das coisas que ajudei a fazer. E quero que outros venham e façam melhor. Não quero ser Rei Momo.