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A vida após os 60

Aposentados decidem aproveitar o tempo de sobra para realizar sonhos e curtir a vida

'Sonhos a gente sempre vai ter. Embarca nele e se manda', aconselha a aposentada Dorli Campestrini 16/05/2016 às 19:47 - Atualizado em 17/05/2016 às 16:34
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Depois de se aposentar, a professora Dorli Campestrini foi conhecer o mundo, fazer teatro, estudar inglês e fez até uma tatuagem.(Arquivo Pessoal)
Felipe Wanderley Manaus (AM)

A vida é breve. E dizem que é só uma. Na dúvida, é preciso vivê-la com intensidade, alegria e, sobretudo, sonhos. É certo, por outro lado, que os percalços do caminho, o trabalho e eventuais preocupações financeiras limitam aquilo que muitos chamam de curtir a vida.

Mas quando a aposentadoria bate na porta e é chegada a hora de pendurar as chuteiras de uma vida inteira dedicada ao jogo sem intervalos da superação, há duas saídas: resignar-se e sucumbir ao cansaço (ou comodismo) de uma velhice sem sobressaltos, ou aproveitar o tempo de sobra e a maturidade dos filhos para tirar da vida o que ela tem de melhor. Confira três histórias que contam as delícias de se fazer a segunda opção.

Da sala para o mundo

Uma vida trabalhando com educação, no Brasil, não permite luxos. Assim, mesmo adorando viajar e dona de uma personalidade disposta e alegre, a professora aposentada Dorli Campestrini conhecia apenas um quinto dos países que conhece hoje. “Não tinha nem tempo nem dinheiro, era tudo voltada para comprar apartamento, ter casa própria...”, diz ela, que depois de se aposentar já visitou 25 países em três continentes, foi fazer teatro, inglês e fez até uma tatuagem.

“A vida passa tão ligeiro. Temos mais é que viver. E viver intensamente”, diz Dorli, amante de desafios que já escalou montanha para andar de esqui, subiu num balão na Capadócia, na Turquia, e hoje sonha pedalar os 800 quilômetros do caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Também morre de von- tade de saltar de parapente (depois de entrevistada para esta matéria, ela tentou cumprir o desejo, mas o parque do Morro do Macaco, em SC, de onde saltaria, estava fechado).

“Sonhos a gente sempre vai ter. Embarca nele e se manda”, aconselha ela, para quem a aposentadoria é uma dádiva.

“Se aposentar é uma graça, porque a gente trabalhou tanto. Então é uma recompensa e tem que ser aproveitada ao máximo. Além de que você tem muitos direitos, meia entrada em teatro”, diz Dorli, que procura, para manter o pique, fazer atividades físicas regularmente, se alimentar bem e, como uma saudável obsessão, experiências novas. As aulas de teatro já proporcionaram a participação em duas peças e um filme. Orgulhosa de si, ela diz que já planeja os próximos 30 anos de sua vida. “Resto da vida? A vida não tem resto”, diz ela.

 

 

 

Fazendo valer o suor de uma vida

Moacy Freitas era um só menino quando veio para Manaus com o pai, que imigrou do Ceará como soldado da borracha, no período da Segunda Guerra. Aos 13, já trabalhava no comércio e aos 16, de pintor comercial. “De carteira assinada”, conta ele, orgulhoso de ter participado do desenvolvimento da cidade que aprendeu a amar: pintou os primeiros ônibus de Manaus e, mais tarde, já como técnico em telecomunicações, instalou aqui as primeiras tevês, o primeiro telefone celular. Aprendeu a amar sobretudo os igarapés, dos quais, como costuma dizer, testemunhou a vida e a morte.

Mas foi depois de uma vida de trabalho duro desde a infância, que seu Moacy, amante da natureza, do conhecimento e das artes, renasceu para a vida que conquistou com o seu suor. E foi viver. Já aposentado, mudou-se para um sítio com a esposa, onde criou peixes e virou líder comunitário. Mas a vida tem das suas e, em 2011, ele perdeu a esposa. A convite da filha, Alice Freitas, para tirá-lo da “fossa”, foi participar de uma oficina de cinema. E viu, ali, uma fuga da angústia e um campo de expressão para sua alma irrequieta.

De lá pra cá, casou de novo, já fez vários curtas, um deles sobre a vida na terceira idade: “Renascendo a Cada Dia”, disponível no YouTube, ao que conta sua vida de jovem aos 70 anos, ao lado da esposa Maria. O filme “Se Não”, o mais importante deles, conta a história do Velho do Saco, uma singela anedota sobre histórias de infância e preservação ambiental.

No filme, Moacy interpreta o homem idoso e esquisito que catava lixo e consertava em segredo o brinquedo das crianças. O segredo de tanta disposição pra ser feliz? “Eu vivo cada dia, cada instante, porque não sei quando vai ser o último. A gente começa a morrer quando nasce”.

 

 

Um novo mundo visto pelas lentes

“Ao se aposentar, você tem que procurar algo novo para dar sentido à sua vida. A gente passa a vida fazendo aquilo que precisa fazer e acho que nada mais gratificante, na aposentadoria, fazer aquilo que você gosta”. Assim, de acordo com suas próprias palavras, fez Nailê Corado.

Depois de se aposentar no funcionalismo público, a que dedicou a vida profissional, ela decidiu se dedicar à arte das lentes. Mas primeiro, pausa para reconstruir a vida após uma separação e dois anos de dedicação à construção da casa nova.

Sonho terminado, filha formada na faculdade, abraçou de vez a fotografia. “A fotografia me suplanta, dá sentido a minha vida”, diz ela, que foi em busca de retratar a natureza e o homem da região. O resultado de três anos de trabalho estão na exposição “Mormaço”, em cartaz no Paço da Liberdade, no Centro.