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DA DIVULGAÇÃO AO INCENTIVO

Artistas revelam os desafios de quem escolheu viver de música em Manaus

De gerações diferentes, cantor Nunes Filho e violonista Elias Ferreira falam sobre as barreiras enfrentadas no cotidiano da profissão 26/11/2017 às 08:16
Show show aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Nunes Filho aponta a divulgação como um dos desafios para os artistas da terra (Foto: Márcio Silva)
Juan Gabriel Manaus, AM

A rotina é a mesma há 43 anos. Todos os dias, o cantor e compositor Nunes Filho, caminha pelas ruas da capital distribuindo cópias de alguns dos seus mais de 40 discos lançados. A divulgação feita pessoalmente é traço herdado de uma época em que não havia Internet nem serviços de streaming. A busca por um espaço para mostrar o trabalho autoral é apenas um dos inúmeros desafios de quem tenta viver de música em Manaus. 

Nunes Filho é o reflexo de uma classe que trava constantes batalhas pelo sonho de fazer da música o carro-chefe das finanças no final do mês. Alçado ao status de lenda da música amazonense, o cantor revela que “sobe pelas paredes” para reconquistar um espaço que há tempos vem diminuindo. 

“É complicado, para nós que cantamos e vivemos da música, conseguir mostrar nosso trabalho. As lojas de disco acabaram, hoje a rádio não toca mais artistas locais. Estamos vivendo uma crise ruim porque não temos como se divulgar”, desabafa o cantor. 

Após mais de quatro décadas na estrada, Nunes Filho conseguiu consolidar sua carreira, mas nem sempre foi assim. O começo da trajetória remete aos tempos em que se apresentava na Colônia Oliveira Machado. Nesta época, encontrou uma maneira criativa de superar a barreira da divulgação de um até então desconhecido artista e conseguiu grudar na cabeça do público o que viriam a ser seus grandes sucessos.

“Eu comecei a cantar num bar na Colônia Oliveira Machado, foi quando começou minha trajetória de ir aos lugares. Na época, existiam máquinas de botar ficha pra tocar uma música. Eu ia com a minha irmã, deixava minhas músicas e botava um monte de ficha pra ficar tocando bastante e ficar conhecida”, revela Nunes Filho. 

Deu certo. Hoje, o cantor, que está com agenda lotada até janeiro de 2018, acumula passagens por programas de TV e vários sucessos. Apesar da vasta bagagem, ele ressalta a falta de valorização à nova geração de músicos locais. “Olha, vejo gente fazendo dois shows por noite e ganham no total uns 300, 400 reais. É muito difícil pra quem tenta viver só disso”.

Elias Ferreira se divide como professor de música, violonista de uma orquestra e guitarrista de uma banda de rock (Foto: Divulgação)

Outra geração

Quando Nunes Filho dava seus primeiros passos, o músico Elias Ferreira sequer existia. No auge de seus 30 anos de idade e expoente de outra geração, ele divide o tempo entre as aulas que leciona no Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, os trabalhos na Orquestra de Violão do Amazonas e os ensaios com sua banda, a Midnight, na qual é guitarrista. Tanta dedicação é fruto da escolha da música como única profissão.  

“Bom, tentar fazer isso como fonte de renda foi algo que eu sempre busquei, e viso isso nos projetos que me envolvo. Fazer renda é algo que todo músico precisa estar atento, então sempre procurei cuidar dessa parte também”, revela Elias Ferreira.

O violonista começou a estudar música aos nove anos de idade. De lá pra cá, viu diversas mudanças no cenário regional e acredita que, mesmo em meio a tantas dificuldades, a profissão de músico deu um salto na capital amazonense. “A profissão aqui vem crescendo bastante e sendo valorizada. Acho que é fruto das pessoas se proporem a fazer sempre um bom trabalho ao vivo”, afirma o músico. “Acredito também que o investimento em educação musical vem crescendo e mostrando resultados positivos”, completa.

Nutrir o desejo de viver dessa arte ainda é uma realidade distante para alguns que têm na falta de incentivo um obstáculo antes mesmo de ingressar no universo da música profissional. “Acredito que falta muito um incentivo por parte de todos na comunidade, inclusive dos pais, principalmente para jovens que querem ingressar na universidade ou em cursos”, diz o violonista. E se ainda assim, a vontade de persistir na carreira continuar grande, a dica é foco. “Levar a sério a profissão, procurar se qualificar e se manter sempre atualizado sobre os cenários em que o músico está inserido”, diz Elias.