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Baú de histórias da Jovem Guarda

Morando no Amazonas há 37 anos, carioca faz parte da banda ‘Os Abutres’, que alcançou relativo sucesso em meados dos anos 1960 e foi um dos muitos grupos que nasceram no período da pré-Jovem Guarda. 04/08/2012 às 20:46
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Fernando Lobão é cidadão benemérito do município de Manicoré
Rosiel Mendonça Manaus

Aos 66 anos de idade, o clínico-geral Fernando Lobão é um arquivo vivo da época que ficou marcada como os anos dourados da vida de muita gente. O médico carioca desembarcou de vez no Amazonas em 1975, mas vivenciou e participou da efervescência cultural do Rio de Janeiro da década de 1960. Nessa época, a música já fazia parte do cotidiano das pessoas, moldando estilos e comportamentos. “Eram duas coisas que o jovem fazia: música e futebol. Todo mundo queria ser jogador de futebol e tocar um instrumento”, conta Lobão.

O médico não fugiu a essa tendência: seu contato com a música começou aos 13 anos de idade. Mais tarde, Lobão fez parte da banda Os Abutres, que alcançou relativo sucesso em meados dos anos 1960 e foi um dos muitos grupos que nasceram no período da pré-Jovem Guarda.

Na banda, Fernando Lobão, ou Nando, tocava guitarra solo e também se arriscava no vocal. Os irmãos dele, Lobo e Tuna, assumiam a guitarra base e a bateria. Fechando a formação, José Carlos (Careca) comandava o vocal e Chico o baixo. “Tínhamos uma imagem mais para Rolling Stones do que para Beatles”, revelou Lobão.

O grupo gravou seu único LP em 1968, pela Riosom, apenas com composições autorais. Um dos hits do disco, “De com força pra frente”, faz referência ao bordão usado por José Messias, produtor do programa na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, onde os meninos se apresentavam aos domingos. Além de otimismo, a letra da música traz a essência destemida da juventude sessentista: “De com força pra frente, essa é a onda da gente, ser um jovem pra frente, não ligar pra ninguém”.

Fazendo música no Rio

Na época em que gravaram o primeiro disco, Os Abutres tocavam nos bailes de clubes da capital fluminense, além dos programas de TV e rádio. Era assim que os integrantes conseguiam comprar instrumentos e curtir adoidados a Cidade Maravilhosa. “Mas acontece que nós éramos estudantes universitários e não podíamos passar do limite. Viajar para fora do Rio era difícil”, conta Lobão, que se formou em 1971 pela UERJ.

A banda Os Abutres chegou ao fim junto com os anos 1960, e cada integrante seguiu rumos diferentes. Mas o médico não se arrepende de ter encerrado a curta carreira musical. “Profissionalmente, não tinha como continuar na música porque eu não abandonaria nunca minha profissão como médico”. De acordo com Lobão, a formação superior dos filhos era um sonho da mãe, costureira abandonada pelo marido. “Fomos meninos muito pobres, e ela prometeu que ia fazer quatro doutores. Hoje, somos um médico e três engenheiros. Eu prometi e cumpri, e isso nunca me deixou frustrado, porque a música me proporcionou muitos amigos”, disse.

Lobão veio para o Amazonas para trabalhar em Manicoré, onde montou o grupo ALSom ao lado da esposa, prova de que a música nunca deixou de fazer parte da vida dele. Hoje, o médico ainda toca em festas que promove para os amigos e a família aos fins de semana. “Meu lazer é tocar, mas não faço mais composição”. Sobre o neto de 18 anos, guitarrista e estudante de Direito, Lobão declara: “Ele sou eu no passado”.

Convivendo com astros

Fernando Lobão viveu uma época em que o Brasil se resumia musicalmente ao eixo Rio-São Paulo. Nas apresentações que Os Abutres fizeram nos circuitos de clubes e programas de TV e rádio, Lobão teve a oportunidade de conhecer e acompanhar grandes nomes música brasileira, dentre eles Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Silvinha Araújo, os Golden Boys e Roberto Carlos. A esposa de Lobão, Alcea, era conterrânea do Rei e chegou a estudar com ele no ginásio em Cachoeiro de Itapemirim (ES).

“Lembro como se fosse hoje ele [Roberto] atravessando com o violão, indo gravar um programa na Rádio Rio de Janeiro. Tivemos contato com ele no estúdio, antes de ser o Roberto Carlos famoso”, contou. “Como nós éramos o conjunto do programa, tive o prazer de fazer parte daquele bolo de artistas. Zé Roberto ensaiava com a gente e, certa vez, tive o prazer de acompanhar Clara Nunes”.