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Boas vindas em casa: somente este ano, 28 bebês nasceram no aconchego do lar em Manaus

Amazonenses compartilham experiências de dar a luz no aconchego do lar e equipes especializadas garantem: não existe lugar melhor para nascer 14/10/2015 às 10:12
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É preciso uma preparação especial para garantir a saúde do bebê e da mãe
Natália Caplan Manaus (AM)

A música de fundo é “All we need is Love”, dos Beatles. Embaixo do chuveiro, Larissa Carvalheira, 23, recebe uma massagem e relaxa. Ela respira fundo, fecha os olhos e... nasceu! Foi neste cenário que Arthur chegou ao mundo, há exatamente 29 dias, em um Parto Domiciliar Planejado (PDP). Ele faz parte dos 28 bebês nascidos no aconchego do lar SOMENTE neste ano, em Manaus, com ajuda de equipes de parto humanizado.

Apesar de ser comum na maioria dos países e recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a opção de parir em casa ainda enfrenta resistência da comunidade médica e da sociedade organizada no Brasil. O sistema obstétrico nacional é conhecido como o campeão de cesáreas eletivas: 85% dos partos realizados na rede médica particular são procedimentos cirúrgicos, muito acima do limite de 15% estipulado em todo o mundo.

“Muitas vezes, fui chamada de louca por causa da minha escolha. Mas entendo que isso só ocorre por falta de informações, medos e mitos estabelecidos por esse sistema atual de partos, repleto de intervenções desnecessárias”, diz Larissa, mãe de Arthur, ao ressaltar que venceu o sistema. “Fizeram as mulheres acreditar que é ruim, dolorido, que não somos capazes. Mas, eu sou prova viva de que isso não é verdade”, completa.

Segundo a acadêmica do curso de veterinária, o trabalho de parto durou aproximadamente 16 horas e o plano era que Arthur nasceria em uma piscina inflável. Com a playlist e ambiente preparados para receber o primeiro filho, acompanhamento dos pais, de uma doula e de uma equipe médica especializada, o desfecho foi no boxe do banheiro mesmo. Ela não se arrepende e não tem medo de declarar: faria tudo de novo.

“Quanto mais eu conversava e me conectava com o bebê, mais fácil se tornava todo o processo. Com a bênção da água escorrendo sobre o meu corpo, eu ouvi o mais lindo dos acalantos: o choro do meu filho. Meu coração disparou, os olhos se encheram de lágrimas, tudo em minha volta deixou de existir. Fixada naqueles olhinhos brilhantes, fui invadida por uma série de emoções. A melhor experiência da minha vida”, lembra emocionada.

Questionada sobre o que diria a uma grávida ou a uma família que ainda teme o parto normal, seja domiciliar ou hospitalar, Larissa não pensou duas vezes. "Por quê não parir em casa? A própria OMS recomenda. Como podemos ser contra o processo natural da vida? Nós fomos feitas para isso, a natureza é perfeita! Recomendo que façam muita pesquisa de estudos científicos baseados em evidências", finaliza.

Plano B

De acordo com o presidente da Sociedade de Assistência ao Parto Alternativo (Sapa), Gabriel Saldaña, a comunidade precisa conhecer a opção do Parto Domiciliar Planejado (PDP), para evitar que mães e bebês se tornem vítimas de violência obstétrica. Entretanto, isso não significa que as maternidades não façam parte do planejamento da equipe humanizada. Sempre é feito um "plano B", diante de possíveis imprevistos.

"Das mães que já acompanhei em domicílio, apenas duas tiveram que ser transferidas. Uma por apresentar Hipertensão Gestacional Transitória no período expulsivo. Porém, teve parto vaginal de um bebê com mais de 4kg. A outra teve bolsa rota por mais de 48 horas e parada da progressão da dilatação; a cabeça não descia. Neste caso, o bebê foi retirado via cesárea. Em ambos, realizamos o acompanhamento até o pós parto", afirma.

Segundo ele, que já assistiu 1,5 mil partos normais e que foi coordenador da Escola para Doulas e Gestantes e da disciplina de Enfermagem Obstétrica e Ginecológica da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o acompanhamento profissional é efetivo. "É seguro, mesmo quando acontecem eventualidades. Realizamos a transferência, temos o plano B, conforme preconiza a OMS", enfatiza.

Número

93,3% dos partos domiciliares acompanhados pela Sociedade de Assistência ao Parto Alternativo (Sapa), em Manaus, foram naturais, enquanto apenas 6,7% precisaram de intervenção cirúrgica (cesárea). Os dados se referem aos últimos nove meses.

Quem pode ter parto em casa

Integrante do “Arte de Doular e Cuidar” junto com mais duas enfermeiras obstetras, Isabela Persilva explica que a equipe segue todas as normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) quando se trata de parto domiciliar. “São partos altamente planejados, com uma estrutura correta para assistência e itens de suporte, desde luvas até materiais para reanimação. Assim como no ambiente hospitalar, em caso de intercorrência se tem todo o aparato”, diz.

O trio tem experiência em parto e especialização em recém-nascidos (neonatologia). Por isso, sabe quem se “encaixa” na opção. Segundo elas, é apresentar os seguintes pontos: gestação de baixo risco, sem intercorrências graves durante a gestação; e acompanhamento pré-natal minucioso por parte da equipe que fará o atendimento. Também é preciso ter um local adequado, plano de parto e “um plano B”.

“Além disso, é necessária uma preparação com a gestante e a família; e uma doula para fornecer suportes físico e emocional”, enfatiza, ao destacar o diferencial de ter um acolhimento humanizado. “Já acompanhamos oito partos em domicílio, porém, inúmeros hospitalares. É tudo diferente, sem aquela correria do ambiente hospitalar e de tantas violências obstétricas que já presenciamos”, completa.

Isabela Praia, 19 anos. Mãe de Arthur, 3 meses

“Logo que engravidei, descobri o que era doula e encontrei a minha. Eu queria o parto em casa e ela disse que poderia tentar realizar o meu sonho. Meu marido resistiu um pouco, mas ele foi se informando. Minha família foi totalmente contra. Disseram que não era seguro e que eu poderia matar o meu bebê. Para mim, foi uma experiência que valeu a pena, não me arrependo. Toda mulher deve se informar, estando grávida ou não, se programar desde o início, procurar uma equipe confiável e fazer o plano de parto.”

Gabriel Faria, 26, marido de Isabela e pai de Arthur

“No início, a ideia foi assustadora. Porém, com muita pesquisa verifiquei que não é algo tão assustador e, sim, ainda mais natural. A mulher foi feita para isso. Foi uma experiência muito boa e interessante, pois se o parto fosse feito em hospital iria ver meu filho depois de um bom tempo. Em casa, pude acompanhar todo o desenvolvimento do parto e apoiar minha esposa. É muito importante estar sempre ao lado da mulher para dar apoio e atenção. Aconselho que os pais pesquisem mais, pois como o nome já diz é ‘parto normal’, é um processo da vida.”

Jane Rosa, 34, mãe de Anabela, 2 meses

“Minha irmã é enfermeira neo-natal e me incentivou bastante. Foram cinco dias até a fase ativa, fazia 48h que a bolsa tinha rompido e viram que eu não tinha dilatação. Já tinha caminhado, estava relaxada, consciente, monitorada, mas o colo do útero não evoluiu. Fomos para o plano B. Ligamos para avisar o hospital e já tinha um médico de sobreaviso. A primeira obstetra que eu fui marcou cesárea para 15 de julho. Anabela nasceu dia 11 de agosto, de uma cesárea realmente necessária. Ela ia nascer praticamente um mês antes.”

Ryane Gama, 22 anos, mãe de Otto, 11 meses

“Eu sempre pensei em ter parto normal e, pesquisando com o meu marido, decidimos ter em casa, porque eu poderia ficar mais a vontade. Não iriam fazer intervenções. Ia ficar no meu ambiente. Doer, dói, mas é uma dor que toda mulher consegue agüentar. É suportável. Passa na hora que o bebê sai. Eu passaria tudo de novo, sem dúvidas. É inexplicável o que você sente, é algo de Deus mesmo. Nascemos pra isso, é natural, sabemos parir. O nome já diz: ‘parto normal’.”