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Campanhas visam sensibilizar indústrias de brinquedos sobre representatividade

A oportunidade de brincar com bonecas negras é um grande passo na construção de uma sociedade que respeita e aceita suas diferenças raciais. Afinal, negros e pardos representam mais de 50% da população brasileira 15/05/2016 às 13:28
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Criança com o cartaz da campanha "Não me vejo, não compro" (Fotos: Reprodução)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

Madeixas lisas, peles claras e olhos azuis e verdes é o que nossas crianças mais costumam ver nas prateleiras das lojas. As bonecas, há muito tempo, parecem respeitar um tipo de padrão - que não é bem o nosso, diga-se de passagem. No Brasil, alguns projetos e campanhas têm lutado pela representatividade e cada vez mais tentam inserir bonecas negras, orientais, e de traços mais diversos na indústria. Afinal, se negros e pardos representam mais de 50% da população brasileira, porque muitos brinquedos ainda fogem dessa realidade?

Há três meses atrás, a diretora criativa da Crespinhos S.A. (@crespinhossa) (RJ), Renata Morais, lançou com o seu núcleo uma campanha chamada “Não me vejo, não compro” nas redes sociais. Nela, diversas crianças negras foram fotografadas segurando cartazes com o nome da campanha escrito. Tais imagens foram postadas na página do projeto, e o que era para ser redentor também o foi, mas teve outro efeito para determinado público.

“Sofremos um ataque de 15 mil seguidores do Bolsonaro, chamando as crianças de vadias para baixo. Meu marido ficou 15 horas na frente do computador excluindo os comentários. Fizeram memes com nossas crianças, colocando-as em sacos de lixo. Mas mesmo assim, nenhuma mãe recuou, e esse é o nosso pretexto, não recuar. Tive que ligar para diversas mães pedindo para não desistirmos”, destaca Morais. A ideia do projeto era uma só: fazer com que marcas de brinquedos enfim percebessem que os consumidores negros também merecem ser representados.

Renata explica que, antes de lançar as fotos, foi feito um trabalho de conscientização com as crianças. “Esclarecemos o porquê delas estarem segurando aquele cartaz, o que de fato simbolizava aquele cartaz”, declara ela, que não consome produtos que não representam sua filha, Elis, de quatro anos. “Ela só brinca com produtos que a representam. Ela assiste muito Cartoon Network, que tem muitos anúncios de brinquedo. Quando passa uma Barbie branca descendo no tobogã, ela me pede pra ganhar daquela, só que negra”, diz ela.

Onde está?

De Salvador (BA), a ONG Avante também brada a mesma luta com a campanha “Cadê nossa boneca?”. A ação tem o objetivo similar a da “Não me vejo, não compro”: partilhar reflexões sobre representatividade nas mentes infantis, com o mesmo repúdio – o de não haver tantas bonecas negras nas prateleiras das lojas. As criadoras do projeto, Mylene Alves, Raquel Rocha e Ana Marcílio certa vez se incomodaram em uma arrecadação de brinquedos, quando perceberam que todas as bonecas doadas eram brancas. Daí, a luta nasceu.

A campanha utiliza de ferramentas importantes nas redes sociais, como o Facebook (cadenossaboneca) e o Instagram (@cadenossaboneca) para possibilitar debates acerca do tema e interações com os internautas. “Mudanças sutis como estas são capazes de gerar um impacto positivo nos pequenos. A oportunidade de brincar com bonecas negras é um grande passo na construção de uma sociedade que respeita e aceita suas diferenças raciais, contribuindo assim para que haja diminuição do preconceito, além de elevar a autoestima das crianças, que passarão a ver a si mesmas representadas nos brinquedos”, coloca Ana Marcilio.

Filha de peixe...

A filha de Renata, Elis, gravou recentemente um vídeo onde explica que nasceu com cabelo crespo. Segundo a mãe, o vídeo seria uma resposta a uma criança que teria dito que seu cabelo era feio. “Isso não é peruca, é meu cabelo. Não tenho cabelo liso, nasci assim. Eu sou preta”, disse a menina. O vídeo teve mais de 14 mil curtidas no Facebook e chamou atenção até da cantora Elza Soares, que postou uma imagem no Instagram em apoio à garotinha.

Números

53% da população brasileira é composta por negros e pardos, segundo dados do IBGE (2015). Conforme análises realizadas pela ONG Avante, menos de 10% das bonecas à venda no País são negras. “No Brasil, alguns têm vergonha de assumir a negritude. Não é obrigação ser negro, mas é obrigação saber da sua história. Que cabelo crespo e pele negra não é ruim” (Renata Morais, diretora da Crespinhos S.A).