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Carnaval Lírico

Carnavalesca empresta talento e criatividade a figurinos de óperas em Manaus

A premiada carnavalesca Rosa Magalhães também mostra talento e criatividade nos figurinos das peças de " Lulu" e " I Puritani", óperas apresentadas no XVI Festival Amazonas de Ópera 23/04/2012 às 11:06
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Além de carnavalesca, Rosa Magalhães trabalha na criação de figurinos e cenários para óperas e espetáculos teatrais
Jony Clay Borges Manaus

Quem conhece a Rosa Magalhães dos desfiles do Carnaval carioca poderá conferir uma outra faceta desta multiartista no 16º Festival Amazonas de Ópera (FAO). É que ela assina o figurino de dois dos principais títulos do evento: “Lulu” e “I Puritani”. Para Rosa, ópera e Carnaval são, sob certa ótica, similares.

 “Na verdade é a mesma coisa. Somente a linha é que muda, mas a trabalheira é igual”, afirma ela à reportagem, em meio a um ensaio com figurinos de “I Puritani”, anteontem. A “trabalheira” a que se refere tem base em números: a artista é responsável por aproximadamente 200 trajes, nas duas montagens em que trabalha.

 “Em ‘I Puritani’, são 27 do coro masculino, 30 do coro feminino, dez soldados, quatro damas, cinco principais homens e duas mulheres, sendo que uma troca de roupa três vezes. Já ‘Lulu’ sozinha tem dez roupas, mais a Condessa e os homens da peça, que também trocam de roupa”, enumera. “E tudo num tempo exíguo: tive duas semanas para trabalhar antes de vir para cá”.

Libertinos e puritanos

Se o trabalho é o mesmo, os resultados são bem distintos para cada montagem. A de “Lulu” traz figurinos de caráter contemporâneo, enquanto a de “I Puritani” tem trajes de época, mais formais. “‘Lulu’ se passa entre 1930, 1940, mas tem um lado mais surreal, dos bichos que aparecem – um domador, um jacaré, um camelo”, explica Rosa. “É uma ópera que dá liberdade de criação absoluta”.

Os figurinos de “I Puritani”, que se passa durante a Guerra Civil Inglesa, no século 17, são bem diferentes. “É mais seca a roupa, não tem enfeites. Apenas cinco homens e duas mulheres têm trajes mais elaborados. Mas é muita gente!”, diz. Além dos desenhos, o trabalho de Rosa ainda no Rio inclui encomendar peças e acessórios. “Mandei fazer quase cem pares de sapato sob encomenda”, conta. Já em Manaus, é hora de fazer ajustes: “Você vê as bobagens que acontecem, observa o que está de mais ou de menos, e conserta o que é preciso. (No ensaio de anteontem), três não entraram porque a roupa ficou apertada”.

 Parintins e Manaus

Bem antes do FAO, Rosa Magalhães já era ligada ao Amazonas por conta de Parintins: lá, em 2006, a carnavalesca recrutou artistas para participar da abertura dos Jogos Pan- Americanos do Rio, realizados no ano seguinte. “Também levei o povo de Parintins e trabalho direto com eles. Fizeram parte do Pan e agora estão trabalhando comigo na Vila Isabel. Mas lá mistura: tenho gente do Vermelho e do Azul trabalhando juntos”, conta.

Na ocasião, Rosa lembra que tentou visitar o Teatro Amazonas, mas o encontrou fechado. “Nunca pensei que ia trabalhar aqui. Estou achando ótimo”, declara ela, elogiando a casa e o festival lírico locais. “É muito legal ter um festival de ópera num teatro que já tem essa tradição. Comprei postais dele (Teatro Amazonas) em construção, no final do século 19, e já na época se tinha intenção de ter ópera aqui. A vida mudou muito, mas o teatro é o mesmo e ainda mantém esse papel”.

Trabalho no Pan rendeu um Emmy

A criação da cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, rendeu a Rosa Magalhães um Emmy – premiação concedida pela Academy of Television Arts & Sciences, nos Estados Unidos – de melhor figurino. Pensando que não teria chance alguma de ser premiada, a carnavalesca conta que sequer preparou discurso para a ocasião, mas acabou sendo surpreendida na entrega dos prêmios.

 “Eu dizia, ‘Não vamos ganhar, estamos sentados na fileira da letra V. Quem ganha sempre está lá na frente’. Ganhou, eu dei um grito, joguei a bolsa no vizinho, tomei um susto, foi horrível. Apareceu um discurso na minha mão que alguém tinha feito. Cheguei ao palco esbaforida para falar”, recorda, divertida.

De lá, Rosa se divide entre trabalhos no Carnaval e nos palcos. Em 2009, ela assinou os cenários e figurinos d’“A menina das nuvens”, ópera infantil de Heitor Villa-Lobos cujo libreto foi escrito por Lúcia Benedetti, mãe da carnavalesca. Mais recentemente, ela desenhou os figurinos de “Duas rosas para Ricardo III”, espetáculo teatral da Companhia Bufomecânica em coprodução com a Royal Shakespeare Company, que estreia em Londres no início do próximo mês.