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Entrevista Teixeira de Manaus

Catapultado à condição de ‘cult’, saxofonista amazonense é o grande homenageado da sétima edição do Festival Amazonas Jazz

Teixeira de Manaus lembra os sucessos que embalaram o “beiradão” ao som de salsa, cúmbia e merengue 23/07/2012 às 12:35
Show 1
Músico amazonense é grande homenageado da VII edição do Festival Amazonas Jazz
Virgílio Simões Manaus, 23 de julho

Teixeira de Manaus é um “filho do beiradão”, como ele mesmo se define. Preparando-se para tocar no Teatro Amazonas, na noite do dia 27, ele é o grande homenageado do 7º Festival Amazonas Jazz (FAJ). Com carreira de mais de 30 anos, ele diz que fará sua última apresentação.

Teixeira se tornou sensação tocando músicas dançantes, lambada, salsa, música caribenha, e outros estilos do que ele chama de “pauleira”. Chamado de brega por muitos, e de cult por outros tantos, Teixeira nos concedeu esta entrevista descontraída.

Você é de Manaus?


Eu sou do “interior de Manaus”. Nasci em frente ao Careiro, na Costa do Catalão, e vim para Manaus com 8 anos. Minha família é de agricultores, mas meu pai disse: “Esse vai estudar”. Fui estudar num internato. Mas fui me envolvendo com música. Comecei a tocar com 18 anos. Aí não deu outra.

Já era saxofonista naquela época?

Já tocava saxofone, mas também teclado, que na época a gente chamava de órgão. Na época tocava em boates de beira de estrada, nesses bregas da vida. Foi quando o Pinduca veio a Manaus para fazer um show. Ele me viu tocando e falou: “Teixeira, tu tens de gravar”. Eu não entendi, pensava que era para gravar acompanhando ele (risos). Ele mandou preparar umas fitas, com meu trabalho. “Eu vou te gravar”, ele dizia, mas eu achei que era só uma promessa.

E como foi a gravação?

O Pinduca se tornou meu amigo. Sempre que vinha a Manaus, eu tocava junto, com meu conjunto, o RT4. Ele insistiu como negócio da fita, e eu fiz pra ver no que ia dar. Um belo dia, o telefone toca, era o Pinduca falando que estava tudo certo: “Pega tua mala, umas roupas, compra uma passagem pra São Paulo, e vem”. Desse jeito, eu fui parar na gravadora Copacabana. O Pinduca gravava o disco dele, e depois eu entrava no estúdio.

Quando foi?

Isso foi em 1979. Nem terminei o disco. Era julho e fazia muito frio. Sou um manauara assíduo, e falei: “Pinduca, termina isso aí”. Achava que era uma loucura do Pinduca. Quando foi novembro, chegou o disco e foi um negócio fora do comum. O disco vendendo, vendendo e “Lambada pra dançar” tocando em todo canto. Falaram que o disco vendeu mais de 100mil cópias, mas eu não acredito em povo de gravadora. Eles falam em 100, deve ter vendido 500.

Eles pagaram direito?

Rapaz, o artista vive mesmo é dos shows que faz. A porcentagem na venda do disco é muito pequena. Todo mundo falava para eu pedir mais. Mas olha só, eu ligo aqui de Manaus pra São Paulo, e a secretária diz que estão em reunião, para eu esperar. Eu vou ficar na linha, a ligação contando? Nunca mais liguei. Mas eu nunca almejei tanta coisa. Nunca quis ser rico, porque acho que vida de rico é muito agoniada. Você não sabe quem é seu amigo. Só quero ter condições de viver bem. Tive convite para ir para os Estados Unidos, mas eu queria ficar em Manaus, mesmo. O que me encanta é o interior.

Foram quantos os discos?

Ao todo, gravei 16. Mas tudo, nessa vida, cai. Nada fica por muito tempo. O Carrapicho, por exemplo, fez sucesso muito rápido. Eu fiquei mais tempo. Gravei na Copacabana, Somlivre, RGE. O interior é gigante, e adorava meu trabalho. Em outubro ou novembro saía um disco novo meu, todos os anos. E olha só, em Manaus, eu cheguei a vender mais que o disco do Roberto Carlos. Fiz muitos shows no Norte e Nordeste. Eu nem dava endereço ou telefone. O pessoal ligava e eu mandava dizer que estava viajando. Só para descansar um pouco. Eu gostava mesmo era das festas do interior. Eram bonitas, com gente trepada pelas casas pra ver.

E por que você parou?

Eu não parei. Só achei que não devia mais gravar. É que veio essa onda dos ‘pirateiros’, não é? As gravadoras pararam de gravar o pessoal. Ainda gravei dois discos em Belém (PA). Em 2008, fiz minha última apresentação, numa festinha de Santa Luzia, no bairro da Compensa. Quando cheguei em casa, falei: “Acho que vou parar... está na hora”. Agora quero passear um pouco, viajar,mas ainda não consegui. Não deu tempo, ainda.

E o festival de jazz?

Quando recebi o convite pro festival, falei: “Mas eu não toco jazz”. O Rui Carvalho (maestro da Amazonas Band e organizador do festival) disse que era isso mesmo que eles queriam, porque meu som é diferente. Sou muito amigo do pessoal da SEC e não podia recusar. Acho que esse show aí é para eu encerrar, pra fechar com chave de ouro. Estou praticando muito. Minha maior expectativa  é sobre mim mesmo. Não sei como vou estar no dia, como vou me comportar. Mas sei que, na hora, vou deixar a música me invadir.

Perfil: Teixeira de Manaus

Aos 67 anos, é referência na música instrumental amazonense e no som do “beiradão”. Entre seus maiores sucessos estão “Lambada pra dançar”, “Vamos Cumbiar”, “Balançando o sax” e “Deixa meu sax entrar”.