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Cia. Cacos de Teatro viaja em sua primeira grande turnê internacional

A companhia adiou a turnê pela América do Sul para novembro, anteriormente prevista para ocorrer em setembro de 2012. A Cia. Cacos de Teatro é apontada como uma das mais promissoras do cenário local, por conta do experimentalismo somado às diversas linguagens artísticas 07/11/2012 às 16:37
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Cena do solo 'Cultura da Carne: Alteridade Porco', com Dyego Monnzaho
Laynna Feitoza Manaus, AM

A arte híbrida da Companhia Cacos de Teatro, fiadora da fusão de vários segmentos artísticos, como a dança, o corpo e a performance, alçará voo em uma turnê pela América do Sul neste sábado (03). Há cinco anos integrando o ambiente cultural de Manaus, a Cia. se destaca como uma das mais promissoras da capital amazonense, mesclando elementos experimentais a diversas linguagens de arte.

A Cia., que é composta pelos atores Dyego Monnzaho, Carol Santa Ana, Francis Madson e Ana Paula Oliveira – esta última em intercâmbio na Inglaterra por meio do projeto ‘Ciência Sem Fronteiras’, do Governo Federal, e que, portanto, não viajará com o grupo – adiou a turnê internacional, anteriormente prevista para ocorrer em setembro de 2012, por conta da agenda e do envolvimento dos membros do grupo em outras atividades de cunho artístico – Monnzaho, além de ator e diretor da Cacos, foi também coordenador geral da 9ª edição do Festival de Teatro da Amazônia, que ocorreu no último mês de outubro.

Esta é a primeira grande turnê internacional que os membros da Cacos de Teatro participam. Porém, alguns dos seus espetáculos já foram apresentados no exterior, como o monólogo ‘Trans’, em Nova York, no ano de 2011, e o espetáculo ‘O Marinheiro’, primeiro espetáculo da Cia., que foi levado em 2009 para a Argentina.

Destinos

Para a turnê atual, que seguirá do dia 3 ao dia 13 de novembro, a Cacos levará os monólogos ‘Trans’, antes encenado por Ana Paula Oliveira, e agora substituída provisoriamente por Carol Santa Ana na viagem, ‘Mãe – In Loco’, encenado por Carol Santa Ana e ‘Cultura da Carne: Alteridade Porco’ protagonizado por Dyego Monnzaho, cuja intervenção venceu na categoria de Melhor Espetáculo da 8ª edição do Festival de Teatro da Amazônia.

O trajeto artístico do grupo ao exterior atende às comemorações dos cinco anos do grupo e refere-se à segunda etapa de turnês da Cacos, cuja primeira aconteceu em maio de 2012, em diversos estados brasileiros, conforme Monnzaho, o diretor da companhia. Segundo o ator, o ano de 2012 carregou várias oportunidades de exposição das obras da Cacos de Teatro.

“Essa turnê internacional, de uma certa forma, faz parte da comemoração dos nossos cinco anos. Esse ano a gente fez uma grande turnê que se divide em duas etapas. A etapa Brasil fizemos em maio de 2012, e passamos por Brasília (DF), Belém (PA), Salvador (BA), Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG). A da América do Sul corresponde à etapa internacional. O que foi muito legal é que a turnê pelo nosso país nos rendeu muitos convites para voltar aos estados”, disse Dyego.

Retorno 

O convite para a reapresentação de seus espetáculos em outros estados brasileiros foi feito, e a Cacos retornou aos palcos externos ao Amazonas. “A companhia reverbera convites. Em junho recebemos convites pra voltar à Brasília num evento de arte contemporânea chamado ‘Arte Estética Contemporânea’. Em agosto voltamos a Minas, para participar do 15º Festival de Cultura de Tiradentes. Depois fomos para Salvador em julho pra participar de um evento do Teatro Vila Velha”, ressaltou.

Os países da América do Sul que receberão a proposta artística da Cacos de Teatro são a Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia, e a turnê possui o apoio da Fundação Nacional das Artes (Funarte) através do Prêmio Myriam Muniz de Teatro - que a companhia vence pelo 4º ano consecutivo e é o maior prêmio de apoio à produção do país -, e do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura do Amazonas (SEC-AM).

'Um dos trabalhos mais inteligentes e inovadores da atualidade'

Aclamados pela crítica local e nacional – na turnê pelo Brasil, o jornal ‘Globo de Minas’ os citou como a 'companhia de teatro nortista mais lembrada em MG', e o jornal ‘Correio Braziliense’, que elevou a Cacos de Teatro como 'um dos trabalhos mais inteligentes e inovadores da atualidade' – Monnzaho destaca que grande parte desse êxito se deve à pesquisa.

“O teatro é, como qualquer outra arte com linguagem, é um campo de pesquisa. Pra você constituir um produto é necessário investigação, e é o que a companhia faz hoje: criamos metodologias e territórios que deem conta do que queremos falar a cada montagem, e pra isso é preciso pesquisa”, certificou o ator.

A construção das obras da Cacos de Teatro, que possui ao longo dos cinco anos de companhia 8 espetáculos, se debruça a trabalhos minuciosamente analisados até serem projetados às apresentações.

“Levamos de 6 a 8 meses para montarmos um espetáculo, isto é, trabalhos diários, onde dedicamos de 6 a 4 horas do nosso dia. Há várias etapas, entre elas o estudo de mesa, que é quando a gente levanta a obra e começa a pesquisar sobre o autor, pesquisar sobre o que você já escreveu e fazer a análise psicológica. Há também o treinamento de ator, onde investimos em aulas de Kung Fu, de aulas de Tai Chi Chuan, Pilates, dança contemporânea, dança urbana, e métodos de improvisação. Temos a construção de cena, os ensaios, entre outras etapas. Isso tudo fazemos para construir um espetáculo, e a apresentação é a parte mais simples dele”, afiançou Monnzaho.

Programação

No roteiro de apresentações do grupo estão cenários educacionais e urbanos. “Serão dois dias em cada país. Estaremos apresentando em todas as capitais, em universidades e também praças, para termos um momento de intervenção urbana e ver como as pessoas de lá respondem ao teatro do Brasil. Após cada espetáculo, proporemos um bate papo com a plateia. Vamos deixar o trabalho às percepções locais, e estaremos abertos à troca de experiências”, salientou Monnzaho.

Os convites, aliás, a constante solicitação da Cacos de Teatro para mostrar o seu trabalho em ares distintos se deve, segundo Monnzaho, à proposta do grupo em si. “O grande atrativo da Cacos é essa relação híbrida que a companhia vem desenvolvendo entre as linguagens, que é teatro, dança e performance. Hoje não utilizamos quase o termo Cacos de Teatro,  apenas Cacos, porque se refere a uma companhia que privilegia a arte no seu contexto geral”, assegurou o ator.

Estilo e expectativas

O trabalho desenvolvido pelo grupo é definido pelo estilo contemporâneo, por conta da era de informação atual, conforme Dyego. "O homem é bombardeado com muitas informações, o que é uma tendência do homem contemporâneo, que é essa mistura de diversas informações, e a companhia Cacos vem fazendo isso, vem mesclando diversas linguagens pra que possamos dar conta do que pretendemos enquanto resultado estético e político, enfim, totalizando uma companhia de arte contemporânea, que é o que nos interessa. Discutimos questões da atualidade, conectados nas novas mídias e nas novas formas de organizar o produto cênico”, destacou o diretor.

E o corpo humano é a principal ênfase das pesquisas da Cacos de Teatro, assegurou Dyego, apresentando o arcabouço técnico trabalhado pela companhia. “Estamos sempre tirando um olhar sobre o corpo, de como a dança reflete o corpo, trabalhando, além das técnicas específicas de dança contemporânea, o ‘view point’, e as abordagens somáticas como o BMC (Body Media Center), que corresponde a técnicas que trabalham a percepção somática do corpo, no sentido de analisar sensações e conectando isso para a criação de algo, como um produto ou cena. Já na performance utilizamos um elemento de subversão, isto é, essa relação anárquica, que é o fator mais forte para as nossas organizações cênicas, onde estruturamos nossos trabalhos”, comentou o ator.

Tríade teatral

As três montagens em turnê salientam o propósito do grupo com a fusão do corpo com a arte, o experimentalismo e o risco. “Como o foco da companhia é o corpo, estamos sempre investigando-o, pesquisando-o em todas as suas camadas”, afirmou Dyego. Nos espetáculos da Cacos é possível identificar que os intérpretes se derramam em suas atuações, utilizando o próprio corpo para sofrer as problemáticas sociais expressas, onde se submetem, nas intervenções em questão, à nudez, ao frio intenso e aos ferimentos físicos.

E os conflitos estéticos podem ser conferidos no monólogo ‘Trans’, onde a intérprete compartilha apenas de seu corpo despido com uma estrutura que vai do tronco ao rosto da personagem, se assemelhando às que foram utilizadas no período da escravidão. O cenário integra bonecas e objetos cortantes, em forte alusão à equivocada idolatria da imagem física e do esquecimento da essência humana.

Já o solo ‘Mãe – In Loco’ retrata os dissabores de uma mãe que, em plena época de guerra, luta pela sua sobrevivência e a de seus filhos. O cenário do espetáculo envolve a genitora em trapos e cabelos desgrenhados, portando um objeto similar à uma máscara de gás. No ambiente da peça, há uma piscina com mais de 400 kg de gelo, onde a personagem se deita em uma das cenas.

‘Cultura da carne: Alteridade Porco’ propõe reflexões acerca do ode ao consumo e ao capitalismo vivenciado pela sociedade atual. A intervenção traz o intérprete com o rosto envolto por carne e coberto por plásticos, onde, em uma das cenas, dança sobre copos de vidro e palitos perfurantes, adquirindo pequenos cortes na pele, o que faz personagem - e ator - sangrarem. O solo soa como um protesto contra o culto às premissas materiais.

Sobre as expectativas da turnê na América do Sul, Dyego arremata: “Queremos atingir o maior número de pessoas. Que os trabalhos rendam discussões e diálogos. Que tenhamos receptividade e que os espetáculos sejam fruto de novas reflexões”, concluiu.