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Duas faces da dança do Amazonas

Série 'Encontros' de reportagens chega ao fim com um bate-papo sobre os cenários e os dilemas da dança no Amazonas 19/08/2012 às 18:34
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Duas faces da dança no Amazonas
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Para fechar em grande estilo a série “Encontros”, A CRÍTICA colocou frente a frente duas profissionais da dança, segmento que ocupa o segundo lugar na clássica lista das sete artes por ser tão antiga quanto a música. As escolhidas para o bate-papo foram as bailarinas Marta Marti e Damares D’Arc, adepta da dança contemporânea e performática.

Marta trabalhava como professora de Educação Física quando foi convidada pela bailarina Conceição Souza a entrar em seu grupo de dança. De primeira, Marti hesitou: “Na época eu já estava com 20 e poucos anos e disse a ela que me achava tão velha para começar a dançar... Mas ela me convenceu dizendo que, para a dança, não existem barreiras”, contou. Damares D’Arc iniciou carreira como aluna de teatro no então Centro Cultural e hoje Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro. Foi durante uma oficina de preparação corporal com o bailarino e coreógrafo Francisco Rider que ela começou a interessar pela dança. Damares e Rider vêm trabalhando juntos há seis anos e têm circulado pelo Brasil com o projeto de intervenção coreográfica “Figuras caminhantes/Figuras transitórias”, selecionado pelo Prêmio Funarte Klauss Vianna 2011.

Trajetórias

Assumida a vocação como produtora depois de duas especializações em outro Estado, Marta começou a trilhar carreira junto ao Ballet da Barra. Hoje, o grupo conta com seis professores, além de monitores, uma turma de 40 alunos de iniciação e um corpo artístico de 20 bailarinos. “É da iniciação que nós vamos tirando os novos bailarinos que vão manter os outros grupos, e assim a família cresce”, resumiu a professora. “Ter saído de Manaus foi um divisor de águas na minha carreira, me fez amadurecer muito como artista e como pessoa”, relatou Damares, que também busca aperfeiçoamento constante. Este ano, com a ajuda do Proarte e Paic, ela voltou ao Rio para estudar na Escola Angel Vianna. “Hoje em dia a arte é tão ampla que cada vez mais eu percebo o quanto ainda tem para eu conhecer”, disse.

Olhares múltiplos

Quando perguntada sobre a forma de conduzir o próprio trabalho e por quais linguagens costuma transitar, Damares D’Arc afirma buscar em suas singularidades uma forma de ser conduzida a um campo mais amplo.

“Procuro sempre maneiras de falar das minhas questões particulares, mas utilizando uma linguagem universal”. Por outro lado, Marta Marti faz uso do seu papel de produtora para trabalhar a socialização. “Todas as linguagens são bem-vindas e a intenção é que elas se entrosem”, disse.

Nas artes contemporâneas, é muito comum que um segmento exerça influência sobre o outro. Apesar disso, Marta acredita que o elemento teatral não é o principal na dança: “Ele entra mais como complemento, ajudando na interpretação e na improvisação”. Damares pensa que teatro, dança e audiovisual estão interligados e oferecem muitas possibilidades. “Foi justamente isso que me fascinou na dança contemporânea. É preciso estar ao mesmo tempo aberta às pessoas e focada no próprio estado performático”.

Ainda é preciso sair do Estado

Encontro aconteceu na sala de dança do Ginásio Zezão Produção, divulgação, circulação... O processo de criação artística envolve muitas etapas, e com a dança não poderia ser diferente. Na visão de Marta Marti e Damares D’Arc, esses são os principais gargalos que minam o avanço concreto do segmento no Amazonas.

“Todo mundo produz, mas as leis de incentivo ainda são poucas. É preciso solidificar os planos Municipal e Estadual de Cultura, porque apesar dos prêmios que financiam projetos, os artistas ainda têm que fazer muito esforço, pois a quantia é irrisória”, declarou Marta, que também é secretária da Associação dos Profissionais da Dança do Amazonas (Aprodam).

A produtora do Ballet da Barra acredita que os bailarinos ainda necessitam sair do Estado para crescer na profissão. “O bailarino precisa fazer o curso de formação da UEA porque ele tem que cair no mercado de trabalho. Então, ele precisa se especializar para ter um salário melhor, mas aqui em Manaus isso não é possível. Ele tem que sair”, disse.

Marta acredita que o dever dos bailarinos quando voltam é repassar o conhecimento adquirido para os grupos locais: “A dança cresce nesse aspecto da troca, pois é somando que se cresce”. Adepta de uma linha de pensamento identificada com a dança contemporânea e performática, D’Arc se queixa da falta de apoio à formação plural dos bailarinos dentro do Estado e da inexistência de uma programação contínua, uma vez que o Festival de Dança é uma iniciativa pontual.“Ainda faltam lugares para as pessoas desenvolverem seus talentos, trocarem ideias e mostrarem o seu trabalho”.


Resistências

Marta acredita que a dança, quando se trata do balé, ainda é elitista. “Existe muito preconceito. Mas se chega a Damares com a proposta de uma dança de intervenção, de reconhecimento do próprio corpo, ela vai ser aceita”. A produtora também critica a inexistência de apoio no âmbito da iniciativa privada. “O empresário não se preocupa com isso, porque não existem contrapartidas. Ainda assim, não é a nossa dança que eles financiariam de olhos fechados”, finalizou. Mas, resolvendo os problemas de espaço e fomento se consegue resolver a questão de formação de público, um dos principais dilemas da dança? “Público se conquista com educação”, opinou Marta. “Não podemos esperar o público. Precisamos ir até ele”, finalizou Damares.