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Em Santiago, Roger Waters recria "The Wall" pela 1ª vez a céu aberto e impressiona com efeitos audiovisuais

O céu é o limite para Roger Waters. Pela primeira vez a nova versão do grandioso espetáculo "The Wall - Live" foi recriada ao ar livre. No espetáculo dezenas de blocos de papelão branco formaram a imensa muralha idealizada pelo baixista e arquiteto sonoro do Pink Floyd no início da década de 1980. 03/03/2012 às 19:06
Show 1
Roger Waters se apresentou em Santiago no primeiro de 15 shows que fará no Chile, na Argentina e no Brasil
Do UOL, Santiago (Chile)

Há três décadas, o espetáculo era uma síntese da vida do músico em seus 30 e poucos anos. Entravam em cena o sofrimento pela perda do pai na 2ª Guerra Mundial, a decepção com a infidelidade da mulher e o casamento fracassado, a raiva pelo sistema rígido das escolas inglesas, a superproteção da mãe.

 Agora, em seus quase 70 anos, Waters fez daquela concepção autobiográfica um show essencialmente político --a começar pelas canções de cunho social que antecederam o início do show nas caixas de som do estádio ("Imagine", de John Lennon; "Strange Fruit", com Billie Holliday; "People Get Ready", de Curtis Mayfield). Sem alterar música ou letra, os significados pessoais amplificaram-se em mensagens globais sobre conflitos contemporâneos, terrorismo, pobreza, capitalismo, opressão, autoritarismo e as guerras.

 Não à toa, Waters dedicou seu primeiro show em Santiago à memória do cantor chileno Víctor Jara, assassinado pela ditadura militar de Augusto Pinochet em 1973, e ao padre anglo-chileno Michael Woodward. Ele ainda se manifestou a favor dos protestos sociais que têm ocorrido na região de Aysén, no sul do Chile, para exigir o fim do isolamento e da falta de políticas públicas para o desenvolvimento da região, e reiterou seu apoio às manifestações estudantis pela educação pública.

 O repertório do show é o mesmo impresso no encarte do disco "The Wall" (1979), dividido em dois atos com um intervalo de 20 minutos. De "In the Flesh?", quando o muro ainda está semi-construído, até "Goodbye Cruel World", quando a banda se esconde atrás da muralha, e do recomeço com "Hey You" ao encerramento folk de "Outside The Wall", quando o muro finalmente cai (e chega a ser assustador, acredite!), uma enxurrada de detalhes e informações permeam o cenário. Há militares fascistas atirando um boneco no chão, aviões bombardeando foices, martelos, cifrões e símbolos de marcas poderosas, mulheres nuas e sedutoras, críticas ao poder, gigantescos bonecos infláveis e as animações assustadoras de Gerald Scarfe, enquanto operários sobem e descem tijolos como um corpo de balé.

 O clássico "Another Brick In The Wall - Part 2", escrita como um protesto contra o ensino rígido dos internatos, levou 16 crianças chilenas ao palco para dar voz ao coro ameaçador de "hey, teacher, leave them kids alone", enquanto apontavam o dedo para o enorme fantoche inflável que representa o temido professor. Soldados e cívis americanos, britânicos, iranianos, libaneses mortos em guerras foram lembrados em fotos --enviadas por familiares-- nos blocos da muralha. Jean Charles de Menezes, o jovem brasileiro assassinado pela polícia no metrô de Londres em 2005, ganhou uma homenagem especial com Waters cantando "Another Brick In The Wall - Part 2" apenas no violão.


Impacto de cinema Imax

Enquanto seus ex-companheiros do Pink Floyd não recebem qualquer menção no show, o protagonista do espetáculo é acompanhado por uma outra banda de 11 músicos, ainda que a experiência visual seja mais interessante e novidade do que a musical. Quando não está no microfone, Waters deixa os vocais para o cantor Robbie Wyckoff, responsável por repassar o canto originalmente gravado por David Gilmour --por sinal, o integrante postiço mais aplaudido pelas cerca de 40 mil pessoas que estavam neste show.

 O guitarrista Snowy White, que fez parte do elenco de apoio na turnê original, também está lá. De cima do muro, Dave Kilminster tem a árdua responsabilidade de representar Gilmour nas guitarras de "Comfortably Numb", mas faz de forma brilhante. O filho de Waters, Harry, assume os pianos discretamente. O tecladista Jon Carin, o baterista Graham Broad, o guitarrista G.E. Smith e os backing vocals Jon Joyce, Mark, Pat e Kipp Lenon completam o time.

 A extravagante ópera rock de 90 minutos --que passa por Porto Alegre (Estádio Beira-Rio) no dia 25, pelo Rio de Janeiro (Estádio Olímpico João Havelange) no dia 29 e por São Paulo (Estádio do Morumbi) nos dias 1º e 3 de abril-- é uma experiência sensorial. Os efeitos sonoros são realistas demais para você não olhar para o alto à procura do helicóptero que ressoa por todos os lados nos altos falantes. O gigantesco muro erguido recebe projeções de ultra definição do início ao fim.

 O impacto do audiovisual de "The Wall - Live", que posiciona a maior parte do público sentado nas cadeiras da pista premium ou nas arquibancadas, é o mesmo de estar em uma sala de cinema Imax, mas a céu aberto. Roger Waters parece bem à vontade como performer e, graças aos avanços da tecnologia, finalmente pôde deixar sua megalomania se exercitar.