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Encontro de gerações discute o fazer literário a partir de suas vivências

A paixão pela literatura vista com olhos de tempos diferentes 14/07/2012 às 23:46
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Veterano e novato têm preocupações comuns com relação ao futuro do ofício da palavra
Rosiel Mendonça ---

Pelo menos quarenta anos separam as gerações dos escritores Elson Farias e Diego Moraes. Para a reportagem de hoje da série “Encontros”, A CRÍTICA conversou com os dois amazonenses que, apesar de passearem por estilos e temáticas diferentes, demonstraram ter preocupações literárias em comum.

Com livros que abordam essencialmente a Amazônia, os mitos e a natureza, Elson Farias está no rol dos grandes nomes da literatura local. “Nunca gostei de ser considerado um escritor regional. Sempre trabalhei o homem da Amazônia, mas no sentido universal. Acho que toda arte, popular ou erudita, precisa ter a marca do povo”, confessou o escritor, que ocupa a cadeira Olavo Bilac da Academia Amazonense de Letras, da qual já foi presidente.

Diego Moraes iniciou sua trajetória há poucos anos. Seu primeiro livro, “Salto ornamentais no escuro”, foi publicado em 2008, e a segunda obra acaba de ser editada pela Bartlebee (MG), que trabalha com o sistema de impressão sob demanda. “Minha literatura é muito urbana. Desde o começo, eu já me preocupava muito com imagem e ritmo”, contou Moraes, que define seus contos como diretos e perfeccionistas. “Quando o leitor entra em contato com um conto meu, ele tem a noção de que aquilo não é só literatura, mas que tem musicalidade, poesia, teatro e cinema”, diz.

Começo

A obra de Elson Farias é marcada por suas vivências na beira do rio e na floresta, na época em que acompanhava o pai, que era comerciante, pelo interior. Foi quando morou em Parintins, aos 15 anos, que Elson começou a trilhar seus caminhos na literatura. “Quando vim com 18 anos para Manaus, achava que teria que falar da minha vida, da vida do meu povo, não podia falar de coisas imaginárias, que não conhecia. Depois de todo esse tempo morando aqui é que eu comecei a inserir um elemento mais urbano”.

Na capital, Farias passou a frequentar o Clube da Madrugada, quando começou a escrever uma poesia mais contemporânea. “Quando fiz minha opção pela literatura eu tinha muito medo. Eu pensava: vou morrer de fome, não vou nem casar”, lembrou, aos risos. “Quando vim de Parintins, trazia um livro de poemas datilografados que queria publicar em Manaus. Mas, em contato com a poesia que se fazia na cidade, achei que aquilo não era o que eu queria. Aí joguei fora e escrevi o ‘Barro verde’”, contou, fazendo referência ao seu primeiro livro, publicado em 1961.

Um ‘fora’ e um conto

Moraes escreveu o primeiro conto aos 17 anos, depois de brigar com uma namorada. Mas o resultado não agradou, e a evolução só veio alguns anos depois, quando começou a publicar em fanzines e revistas underground da cidade. “O primeiro conto era muito ruim porque era meio autoajuda, então me desfiz dele”, conta.

Essa espécie de autocrítica, para Farias, é algo fundamental, um esforço que a literatura exige do criador. “Sempre mostro meus textos aos amigos e às crianças, no caso dos livros infantojuvenis. Mas tem que haver muita humildade, porque a gente trabalha para o leitor, e não visando à satisfação pessoal”, diz.