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Erotismo à brasileira

Os escritores amazonenses Márcio Souza e Diego Moraes indicam autores e obras nacionais de cunho erótico 22/12/2012 às 10:36
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Márcio Souza
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Os números falam por si sós: a trilogia erótica “Cinquenta tons de cinza”, da escritora britânica E. L. James, foi o maior fenômeno editorial do ano. A saga vendeu 65 milhões de cópias em todo o mundo e cerca de 2,4 milhões só no Brasil. A história de uma universitária inocente que se apaixona por um bonito e bem-sucedido empresário causou burburinho e despertou o interesse de muitos leitores por uma literatura mais “picante”.

No Brasil, alguns escritores também adotaram elementos eróticos ou abordaram a sexualidade humana em suas obras (confira alguns nomes e obras ao lado). O escritor e dramaturgo Márcio Souza identifica na literatura brasileira uma tradição para cenas eróticas. “Nossa literatura tem uma boa diversidade, afinal, a sexualidade é um dos aspectos da vida. Mas também há um debate entre o que separa o erotismo da pornografia”, disse.

“Cassandra Rios era uma das autoras que escreviam nessa fronteira. Ela vendia muito, mas não eram livros para carregar debaixo do braço na rua”, complementou Souza, fazendo referência à escritora paulista que escandalizou o Brasil nas décadas de 1960 e 1970 por conta de seu estilo “pornográfico”.

Despudorados

Márcio Souza também indicou alguns livros e autores brasileiros que já foram considerados escandalosos. “O livro ‘A carne’ (1888), de Júlio Ribeiro, chegou a ser vendido clandestinamente, mas é uma obra até casta para os padrões do século 21, com tudo o que vemos na televisão”.

Escrito por Adolfo Caminha, “Bom crioulo” (1895) também causou escândalo ao abordar tabus como sexo interracial e homossexualidade no ambiente familiar, sendo reconhecido como o primeiro livro latino-americano a abordar o assunto. Outra obra polêmica, de acordo com Souza, foi o poema dramático “O santeiro do mangue” (1950), de Oswald de Andrade, que só foi publicado postumamente por conta das críticas pesadas à burguesia e à religião e do uso de linguagem vulgar.

“Jorge Amado também foi considerado indecente, os jovens não podiam ler na escola obras como ‘Capitães da areia’ (1937) e ‘Dona Flor e seus dois maridos’ (1966). Ele foi um escritor que nunca teve pudores em escrever sobre coisas que afrontavam a moral burguesa”, explicou Souza.

E por aqui ?

De acordo com Márcio Souza, casta e recatada é a literatura amazonense. “Acho que os amazonenses preferem praticar a escrever sobre erotismo. O calor leva a isso. Todos os escândalos sexuais da Inglaterra, por exemplo, acontecem no verão”, brincou. Ainda assim, vez ou outra, o dramaturgo põe uma “pimenta” a mais em suas peças e livros.

No ano passado, o professor de Literatura da Ufam Lajosy Silva organizou a coletânea “Folhas eróticas” com 25 contos inéditos de diversos autores amazonenses, que exploram temas relacionados à sexualidade, ao erotismo e aos sentidos.

Escritores atuais

O escritor amazonense Diego Moraes, autor do livro “A fotografia do meu antigo amor dançando tango”, apontou algumas escritoras contemporâneas que retratam a sexualidade humana em suas obras são a catarinense Isadora Krieger e a baiana Camila Fraga, que publicou o romance “Socos no escuro” neste ano – ele chegou a defini-la como a “a escritora mais barra pesada da Internet”.


“Eu curto esse tipo de literatura, mas o que vejo hoje em Manaus é um erotismo muito ‘banca de jornal’, sem qualidade estética, é algo muito tosco e vulgar. No resto do País, pode ser que exista, mas não está em voga. Sinto falta do erotismo que existia nas obras de escritores como Hilda Hilst e Roberto Piva, poetas que abordavam o tema de forma sutil, com muita classe”, declarou ele, que também incorpora a sexualidade em seus textos, mas de forma quase surrealista e nada confessional.