Publicidade
Entretenimento
Música

'Feminejo': cantoras sertanejas da atualidade cantam os desejos das mulheres

Marília Mendonça, Simone e Simaria, Maiara e Maraisa e Paula Mattos são alguns dos nomes que se destacam no movimento 18/12/2016 às 13:09
Show b1018 23f
Marília Mendonça é conhecida como a 'Adele do Sertanejo' (Reprodução)
Laynna Feitoza Manaus, AM

Antigamente, o sertanejo era um ambiente habitado, em sua maioria, por homens. Homens que sempre cantaram o seu comportamento galante, a bebedeira com amigos, os rodeios e o culto à mulher amada. Não havia quase ninguém naquele tempo que reproduzisse os anseios das mulheres nas letras de músicas do gênero. Em 2016, particularmente, isso mudou. Nomes como Marília Mendonça, Maiara e Maraísa, Simone e Simaria e Paula Mattos vieram para dar mais vigor ao sertanejo e ao que realmente as mulheres pensam e querem atualmente. O movimento tem até nome: “feminejo”, uma fusão das palavras feminismo com sertanejo.

Algumas poucas cantoras sertanejas que vieram antes da nova safra – Paula Fernandes, por exemplo – cantavam um sofrimento que era retratado nas letras das músicas de forma velada e ponderada, como se elas tivessem que se enquadrar no modelo de “mulher certinha”, que nunca pode gritar suas dores mais alto, beber além da conta, e se divertir – ou até mesmo ser feliz – sozinha. Hoje, nas letras das músicas das sertanejas atuais, as mulheres se permitem viver todos os sentimentos possíveis, sem culpa. Nenhuma das cantoras citadas se assume feminista, mas exaltam as vontades das mulheres acima de tudo, em suas músicas.

Adele do sertanejo

O maior de todos esses fenômenos é a goiana Marília Mendonça. Ela, que gravou seu DVD em Manaus em um show para 40 mil pessoas, exemplifica bastante o que as mulheres de hoje procuram. Em sua música “Infiel”, ela canta a punição ao homem que trai, expulsando-o de casa, aniquilando a ideia de que a traição masculina é sempre natural. A goiana é conhecida como a “Adele do sertanejo”, por conta do seu tipo físico e do vozeirão que carrega. E não faz muito tempo que as pessoas descobriram ser ela o nome por trás de composições de cantores de sucesso, como Lucas Lucco, Wesley Safadão e Jorge e Mateus.

Violência doméstica

Simone e Simaria, mais conhecidas como “As Coleguinhas”, vão um pouco além. Em uma de suas músicas, ao invés de cantar o sofrimento de um namoro rompido, elas cantam o choro causado pela violência doméstica, como se vê na música “Ele Bate Nela”, um de seus maiores sucessos. Um trecho da música diz “E agora ele bate, bate nela/E ela chora/Querendo voltar pros braços de sua mãe”. Durante uma entrevista, Simaria chegou a declarar que compõe sobre situações vividas por mulheres “porque o mundo é machista”. Na opinião dela, se os homens só ouvirem músicas sobre histórias de homens, jamais saberão do que passam as mulheres.

Diversão e bar

Do Mato Grosso do Sul, a cantora Paula Mattos costuma mesclar os dois lados da mulher. Ela, famosa pela música “Que Sorte A Nossa”, que fala sobre o encontro romântico entre duas pessoas, também gosta de ressaltar o lado “baladeiro” da mulherada. Na música “As botequeiras”, ela canta “Quem foi que disse que mulher e boteco não combina/é porque não conheceram ainda”. As músicas dela, assim como as das demais cantoras citadas também falam da famosa “sofrência”, mas, principalmente, da superação do sofrimento causado por algo ou alguém.

Da música pra vida

Já a dupla Maiara e Maraísa também segue parte da linha de Paula nas músicas. As gêmeas também falam de paixão, amores superados, diversão nos bares, opressão de gênero. E levam o que pregam nas músicas para a vida real. Em um show no Acre, as duas avistaram do palco um homem agredindo uma mulher. Fãs filmaram o episódio e colocaram no Youtube. E elas foram categóricas: “Bater em mulher no meu show não, cara. No meu show você não bate em mulher não, seu covarde. A gente está aqui para se divertir, exaltar as mulheres”, disparou uma das cantoras, ao chamar um segurança.

O que elas querem ouvir

O radialista Rildo Alves, da Rádio A Crítica FM 93,1, comanda o programa “Som do Dia” e “Quinta da Sofrência” – este último, com alta participação de mulheres. “As mulheres há algum tempo vem ganhando seu espaço. A música conversa com cada pessoa de uma forma diferente, então elas pedem aquilo que geralmente se identificam”, pondera ele. 

Ele acredita que as cantoras sertanejas têm de certa forma encorajado as mulheres a expressarem os seus sentimentos e desejos sem medo. “As músicas mais pedidas por elas são ‘Infiel’, da Marília Mendonça e que relata uma grande traição; ‘Meu Violão e o nosso Cachorro’, de Simone e Simaria, que fala da separação de um casal e de seguir em frente; e ‘Dez Por Cento’, de Maiara e Maraisa, que fala de um sofrimento por um grande amor numa mesa de bar tomando todas”, pondera.

Referências

A precursora das sertanejas, Roberta Miranda, assume ser feminista e inclusive já parabenizou as jovens cantoras pelas músicas. “Elas não se submetem ao machismo. Luto por elas há 30 anos, estou aqui para abraçá-las”, declarou Roberta, em um vídeo publicado no Youtube. No circuito internacional, a cantora pop Lady Gaga assumiu uma roupagem mais “country” no disco Joanne e desde sempre cantou em suas músicas sobre as lutas das mulheres.