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Filme inspirado em obra Milton Hatoum participa de festival no Rio de Janeiro

O amazonense, um dos poucos que já tiveram a oportunidade de conferir o filme pronto, disse ter gostado do que viu 06/10/2015 às 12:56
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Estrelada por Dira Paes e Daniel de Oliveira, a produção é a primeira em longa-metragem inspirada na obra de Milton Hatoum
JONY CLAY BORGES ---

Quase dez meses após sua estreia internacional na Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), “Órfãos do Eldorado” volta às telas com uma série de exibições no Rio de Janeiro, a partir desta quinta-feira, dia 7, dentro da mostra competitiva do Festival do Rio. Estrelada por Dira Paes e Daniel de Oliveira, a produção é a primeira em longa-metragem inspirada na obra de Milton Hatoum. O amazonense, um dos poucos que já tiveram a oportunidade de conferir o filme pronto, disse ter gostado do que viu.

“O filme é muito bonito. As pessoas vão se surpreender, pois não é uma Amazônia exótica ou pitoresca, não tem temas sovados e não tem nada de documentário. É uma história muito particular ambientada na região, uma história de amor e de loucura em que o mito do Eldorado reverbera o tempo todo”, afirmou o escritor, em entrevista exclusiva à reportagem, por telefone, de São Paulo. “E tem imagens belíssimas e uma fotografia deslumbrante, assim como a atuação do Daniel e da Dira”, complementa.

Diferente do original

Hatoum, que assistiu ao filme numa recente sessão para convidados, no Rio, não se mostrou incomodado com as liberdades da adaptação em relação ao original. O romance, publicado em 2008, narra a história de Arminto Cordovil, um homem dividido entre a paixão por uma moça misteriosa Dinaura e o desejo do pai, um armador enriquecido com a borracha, de que ele assuma seus negócios. O roteiro é de autoria do carioca Guilherme Coelho, também diretor do longa.

“Acho que ele capta a essência do romance. As linhas de força do ‘Orfãos’ estão lá. O leitor do romance às vezes quer uma adaptação muito fiel, mas não é bem assim. Os escritores mesmos não adaptam a vida à literatura, eles inventam a vida”, declarou o escritor, que define a adaptação como “bastante inventiva”. “O Guilherme adaptou o livro para aquilo que queria, e assim o roteiro não acompanha exatamente a trama. Ele muda algumas coisas, junta duas personagens femininas numa só”.

Outro cenário

Outro ponto em que a versão cinematográfica difere do livro é na ambientação: em vez de Manaus e Parintins – que inspirou a Vila Bela do romance –, a trama do longa foi filmada em Belém e Icoaraci, subúrbio da capital paraense, e no arquipélago de Anavilhanas, em Novo Airão (a 180 quilômetros de Manaus). Hatoum não se opôs à mudança de cenário.

“Eu me sinto em casa quando vou a Belém. É uma espécie de Manaus que deu certo. Como se a minha infância estivesse vibrando ali, os lugares da minha infância que foram destruídos em Manaus”, disse ele, em entrevista à equipe do longa. Por outro lado, ele apontou à reportagem que as cenas em Anavilhanas são “algumas das mais bonitas” do filme.

Em Manaus

Além do Festival do Rio, “Órfãos do Eldorado” foi selecionado para a 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a iniciar no próximo dia 22, e para festivais em Chicago (EUA) e Varsóvia. As seleções antecedem a estreia no circuito nacional, confirmada para 12 de novembro em quatro cidades: Belém, Belo Horizonte, São Paulo e Rio. Hatoum não esconde o desejo de que Manaus também venha a figurar nessa lista.

“Tomara que o filme chegue a algum cinema de Manaus. Seria triste se não chegasse, afinal eu sou daí, e parte dele foi filmada no Amazonas”, declara. O desejo do escritor é tanto que ele – que não confirmou presença em nenhuma das pré-estreias já agendadas, uma das quais será em Belém, no dia 10 – já se colocou à disposição para participar de um possível lançamento na cidade.

“Caso aconteça, farei de tudo para ir na pré-estreia, e com o diretor, que creio que toparia ir”, antecipa Hatoum, que conclui de forma resoluta: “A única certeza é de que vou! Afinal de contas, ‘Órfãos do Eldorado’ foi pensado e escrito com o pensamento na minha cidade, em Parintins, em toda essa minha experiência de vida. Não deixaria de ir”.

Música

Gênero musical surgido no Pará no início dos anos 2000, o tecnobrega marca presença na trilha sonora de “Órfãos do Eldorado”. Uma das bandas representantes dessa sonoridade que está no filme é a Gang do Eletro.Água vermelhaA última semana das filmagens do longa aconteceu no Parque Nacional de Anavilhanas, no Amazonas. A equipe da produção dormiu num barco, acordando a cada dia num lugar para filmar nas praias de areia vermelha e nas incríveis paisagens do local.

Pescador ilustre

Milton Hatoum fez uma ponta em “Órfãos do Eldorado”, no papel de um pescador amazonense. No preparo para a cena, a primeira do longa a ser filmada, ele ganhou peso, fez uma aula de butô com o especialista Takashi Endo ao lado do elenco, e teve de reaprender a remar. “Passei um dia todo reaprendendo a manejar uma canoa, que não é tão fácil assim”, disse ele, na ocasião. E parece que não decepcionou: “As pessoas falaram que não ficou mau, eles gostaram”, afirmou o escritor, divertido.

Abandono prejudica imagem de Manaus

Num aparte sobre as filmagens de “Órfãos do Eldorado” no Pará, Milton Hatoum criticou o abandono e a descaracterização de prédios e casas históricas de Manaus, assinalando que a gritante falta de apreço pelo patrimônio arquitetônico na capital amazonense chegou a prejudicar as gravações de outra produção baseada em sua obra, a minissérie “Dois irmãos”, da rede Globo.

“(Ter um cenário como) a casa ou o comércio de ‘Dois irmãos’ não dá mais, pois a cidade foi desfigurada. O diretor não tinha 100 metros de continuidade histórica sem ter as malditas placas de propaganda cobrindo as fachadas. Não sei por que os vereadores não proíbem essas placas na frente das casas históricas da cidade. Isso é uma vergonha”, sentencia Hatoum, de forma enérgica. O escritor é um dos principais responsáveis por levar o nome da capital amazonense ao resto do mundo.

No caso de “Órfãos do Eldorado”, ele comenta, a produção optou por filmar em Icoaraci, um dos distritos de Belém. “Lá é muito tranquilo e tem muita coisa conservada”, apontou o escritor.