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Garantido arrasta multidão para a gravação do DVD e 'Red-Ray'

Selado por homenagens à amantes do folclore que construíram a história do boi da Baixa de São José, por um arsenal de efeitos especiais e pelo resgate da tradição vermelha, o registro audiovisual do espetáculo mesclou o memorial à paixão de quase 10 mil brincantes do touro branco na arena do Sambódromo na madrugada deste domingo (17) 18/03/2013 às 17:58
Show 1
A galera encarnada foi ao delírio com as toadas e coreografias por 3 horas e meia, tempo de duração da gravação do DVD em Manaus
Laynna Feitoza Manaus, AM

Ritmo, cadência e tradição. Ao lado da Arena da Amazônia, local que irá comportar os jogos da Copa do Mundo de 2014, o Boi Garantido deu vida à segunda parte da gravação oficial de seu DVD e 'Red-Ray' exatamente à 00h35 de domingo (17). Selado por homenagens à amantes do folclore que construíram a história do boi da Baixa de São José, por um arsenal de efeitos especiais em meio às manifestações cênico-coreográficas e pelo resgate da tradição vermelha, o registro audiovisual do espetáculo mesclou o memorial à paixão de quase 10 mil brincantes do touro branco na arena do Sambódromo. 

Ao todo, 600 artistas entre corpo técnico, membros da Batucada Encarnada e dançarinos trabalharam sob e nos entornos do palco. O Garantido apresentou 45 toadas tradicionais na festa e 18 inéditas. No espetáculo, uma fusão de nomes que edificaram a tradição do bumbá celebraram o centenário do touro branco junto aos mais jovens disseminadores do folclore vermelho.

Pouco antes do início da festa vermelha e branca, o coordenador de coreografia e teatralização do Garantido, Chico Cardoso, explicou um pouco do que viria no espetáculo. "Nós vamos reproduzir o show que foi feito em Parintins, onde todos os itens aparecem de forma surpreendente. Vamos utilizar o guindaste, a imagem de Nossa Senhora do Carmo, que é padroeira de Parintins e vamos fazer um memorial da trajetória do Garantido", afirmou o coordenador.


Cardoso ainda acrescentou que os grandes momentos do espetáculo foram marcados pelas homenagens à Paulinho Farias, ex-apresentador do Garantido, à Emerson Maia, primeiro levantador do bumbá e à Nelson Bulcão, compositor mais antigo do boi vermelho e branco. "O Boi Garantido começou no terreiro de Dona Alexandrina, mãe do Lindolfo Monteverde. A Baixa da Xanda é conhecida como o nascedouro do Garantido", completou. 

Todos os artistas envolvidos no projeto estavam prontos para dar tudo de si, revelando que se prepararam intensamente para a ocasião. "Eu venho fazendo uma preparação desde o ano passado. Me preparo para estar em forma e também para obter resistência, porque não e fácil carregar costeira com 10 quilos. Quanto à esta grande noite, tenho certeza que vai dar certo, não só na gravação, mas também no festival de Parintins", disse Patricia de Góes, Rainha do Folclore do boi.

Agradecimento

Houve ainda um pronunciamento de gratidão à parceria firmada com a Rede Calderaro de Comunicação (RCC) que, juntamente com a diretoria do boi Garantido, conseguiram viabilizar a produção do espetáculo.


"Somos perrexé, somos da baixa de São José, somos do povão. Senhor Umberto Calderaro, sabíamos o quanto o senhor gostava dessa festa. Hoje o senhor, a Rita e o Dissiquinha são exemplo de profissionalismo e dignidade. Obrigado família A Crítica", disse Rivaldo Pereira, presidente do Movimento Amigos do Garantido, pouco antes do pré-show que antecedeu o registro da manifestação folclórica.

História do boi bumbá, efeitos especiais e homenagens

A gravação iniciou com requintes de festival folclórico em plena capital amazonense: uma tribo rompeu em meio à galera, abrindo passagem para o monumento que trazia o levantador de toadas do bumbá vermelho, Sebastião Jr. No comando da toada 'Tambor', Sebastião chegava à arena no monumento que fazia referências à migração e às influências nordestinas sobre o boi bumbá de Parintins. O levantador foi levado até o palco, enquanto a galera saudava o início da grande festa.

Entre as homenagens realizadas à artistas que ajudaram a tecer a história do bumbá vermelho, o apresentador Israel Paulain anunciou aquele que seria 'um dos maiores poetas da história do festival', dedicando a exaltação ao cantor Chico da Silva, um dos principais compositores de toadas do touro branco. Chico cantou a toada 'Andei, Andei', para celebrar o centenário do bumbá junto à galera encarnada.


O cenário do terreiro que concentrou o nascimento do bumbá também foi reproduzido no palco, durante a homenagem aos filhos de Lindolfo Monteverde, fundador do Garantido, chamados João e Maria Batista Monteverde, que representam a continuação do legado histórico do bumbá. Juntos, João e Maria cantaram com Nelson Bulcão e foram exaltados pela multidão.

Um dos momentos mais emocionantes do espetáculo foi o sobrevoo do touro branco em um helicóptero, sobre a arena do Sambódromo. Torcedores das arquibancadas e da pista apontavam para cima enquanto ovacionavam o boi. A atuação da Batucada do Garantido, em diversos momentos, parecia orquestrar os passos e a emoção da galera encarnada.

Outro destaque da noite foi a participação especial da cantora Márcia Siqueira na gravação. Com 16 anos de Boi Garantido, a cantora compartilhou um dueto com o levantador do bumbá, Sebastião Jr. Trajando um vestido emoldurado com rosas vermelhas - em alusão à sua identidade no bumbá - Siqueira entoou 'Boi do Carmo', em homenagem à Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Parintins. Durante o dueto, foi erguida por um guindaste uma imagem da padroeira acima do palco, levando torcedores ao delírio.

A apoteose reuniu todos os itens oficiais e os homenageados do Garantido no palco ao som da toada 'Sempre Vencedor'. Para selar o encerramento do grande espetáculo, o touro branco surgiu em um guindaste sobre o palco. Em meio à fogos de artifício, o boi foi hasteado em um monumento que possuía uma coroa acima do bumbá. As toadas-mãe da história e consagração do boi vermelho, como 'Tom Garantido', 'Parintins Para O Mundo Ver' e 'Vermelho' foram entoadas por Sebastião Jr., Rivaldo Pereira, Chico da Silva e Márcia Siqueira no rito final.


Torcedores

A animação entre os torcedores do Garantido era visível momentos antes das gravações: todos estavam ansiosos para descobrir o que iriam ver em cima do palco. Membros da galera vermelha alegaram que foi uma grande oportunidade para quem é fanático por boi bumbá prestigiar a festa, e para aqueles que ainda não conhecem bem o ritmo vindo da ilha tupinambarana respirarem mais o folclore.

A dona de casa Helena de Souza, 29, foi acompanhada do marido Gerson Colares e da filha, Jéssica de Souza, 9. Ela disse que nasceu em uma família onde a mãe e o pai eram brincantes do boi Caprichoso, mas afirmou que o boi vermelho conquistou o seu coração. 

"Até tentei ser do contrário, mas minha alma sempre foi Garantido", contou. Ela disse que já foi ao festival folclórico de Parintins três vezes, e revelou o seu momento favorito nas apresentações do Garantido.


"Gosto muito de ver a evolução do pajé. É emocionante. Amo o Garantido por ser o boi do povão, por estar mais perto das pessoas", apontou. O marido dela, Gerson, disse que passou a amar mais o boi com a paixão da esposa e da filha, e declarou que a festa é saudável por ser mais voltada para a família e para a valorização do folclore bumbá.

Para quem nunca esteve presente em Parintins, a emoção de ver parte deste grande espetáculo é enorme. "Há 15 anos amo o Garantido. A emoção é imensa porque nunca tive a oportunidade de ir à Parintins. Dizem que o festival folclórico se resume a Parintins, mas Manaus tem uma participação muito grande nisso. Manaus foi contemplada com uma mostra do festival de Parintins na gravação desse DVD, então a emoção é dupla", disse a atendente Mônica Silva, 27.

Pós-espetáculo: avaliações e superações

A cunhã-poranga do Garantido, Tatiane Barros, ressaltou que os trabalhos de gravação para o DVD do bumbá vermelho já configuram o começo de uma grande vitória e falou sobre as diferenças que envolveram as duas etapas do registro audiovisual.

“A estrutura com certeza é completamente diferente. Em Parintins nós já estamos acostumados com o palco de lá, que possui uma outra estrutura. Hoje, por exemplo, como choveu um pouco, isso deixou o palco super liso. Mas não tem como conter a emoção, não tem como não passar a emoção e não tem como não dançar. A gente age no momento certo e tentamos passar essa emoção para a nação vermelha, que é linda e grandiosa. Mas foi sensacional, acredito que quem estava esperando por esta noite teve as expectativas superadas”, pontuou Barros”.

De acordo com Fred Góes, presidente da comissão de arte do boi Garantido, as tecnologias disponíveis em Manaus fizeram com que grande parte do trabalho realizado na capital amazonense demandasse menor tempo de execução, e avaliou as duas noites de gravação com o auxílio de uma só palavra: superação.


“Fizemos a gravação em Parintins dentro de um contexto específico de lá. Para nós foi fantástico, porque fizemos em casa. Para fazer em Parintins nós gastamos exatamente no processo de cenografia mais ou menos dois meses. Aqui chegamos na quarta-feira (12), trouxemos o mesmo projeto de Parintins e executamos esse mesmo projeto de Parintins em 10 dias. E com uma magnitude muito mais expressiva em termos de tecnologia, porque Manaus oferece isso”, recordou o presidente.

Góes ponderou que, apesar de ser um bumbá de tradição, o Garantido não se nega a absorver determinadas tecnologias para incrementar o corpo técnico e artístico dos espetáculos.

“Até porque sempre dissemos que o Garantido é um boi de tradição, mas é um boi de vanguarda. É a tradição que leva à vanguarda. Se formos pegar a história da vanguarda brasileira, a questão artística, vemos a Semana de Arte Moderna com Mário de Andrade, que vem com Macunaíma numa linguagem totalmente fora dos padrões normais. Então o Garantido sempre vem assim: traz a sua tradição, mas não tem nenhum preconceito contra qualquer tipo de tecnologia, desde que preserve a sua origem”, destacou Fred.