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Hakitía saga

História de língua falada entre judeus marroquinos da Amazônia é contada em livro

O resultado dos estudos realizados pelo lingüista Álvaro Cunha ao longo de 9 anos de pesquisa é registro inédito sobre língua de ocultação falada por judeus marroquinos 21/05/2012 às 08:49
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Família de judeus marroquinos que foi morar em Santarém no Pará
Cassandra Castro Manaus

Um conhecimento e uma tradição passados de pai para filho e que pareciam perdidos no passado de imigrantes judeus marroquinos que escolheram a Amazônia para viver. As afirmações de que a hakitía, língua de ocultação falada entre judeus de países como Marrocos, Israel, Canadá e Venezuela era uma língua morta, serviram de estímulo para que o lingüista e narratólogo paraense Álvaro Cunha decidisse ir a fundo na pesquisa para confrontar e mostrar que a língua ainda está bem viva.

O estudo mais aprofundado da hakitía começou em 2003 e o professor conta que realizou todo o apanhado histórico baseado em conhecimento oral, já que não existia nada escrito sobre a língua. Álvaro Cunha viajou de barco de Belém até Manaus e visitou várias cidades do interior dos dois Estados como Parintins, Humaitá, Maués e até de outros países como Letícia, na Colômbia, atrás de pessoas que pudessem ajudá-lo nesta missão.

Autor deve publicar novas obras também sobre língua Hakitía

Um desafio enfrentado pelo professor foi o de não existir um recenseamento das famílias judaicas na Amazônia. “Nem o Comitê Israelita do Amazonas ou o Centro Israelita do Pará possuem dados exatos de quantos judeus vivem nestes estados, isso é resultado do contexto histórico vivido na época em que estas famílias chegaram ao Brasil”, conta. “Por causa da perseguição e do preconceito que os judeus enfrentavam, muitos sentiam vergonha de falaram da sua origem, alguns afirmavam que eram turcos e guardavam suas particularidades religiosas em casa, entre a família”.

Com o passar dos anos e o relacionamento dos judeus entre os habitantes locais era previsível a miscigenação. Muitos judeus marroquinos casaram-se com amazonenses e a bagagem cultural trazida de seus países de origem ficou preservada entre as famílias. Cunha conta que a hakitía é considerada uma língua de ocultação, ou seja,  falada apenas por grupos de pessoas em ambientes específicos, principalmente no familiar. Ela é resultado da união de três idiomas: o castelhano do século XV, o árabe marroquino e o hebraico litúrgico ou bíblico. Segundo informações do próprio autor, ela deve ter 516 anos de existência.

Uma curiosidade revelada pelo estudioso é de que existem muitos caboclos judeus da Amazônia que nunca pisaram em uma sinagoga mas que falam a hakitía, resultado da tradição passada oralmente de pai para filho. Além da hakitía que  é falada no Marrocos, Brasil, Venezuela e Canadá, existem o ídiche, muito comum no leste europeu e o ladino, falado em países como Israel, Turquia e Espanha.

Com este livro lançado em maio de 2012, Álvaro Cunha acredita que um novo olhar será lançado sobre a hakitía trazendo à tona um pouco também da história dos judeus marroquinos da Amazônia.

O autor

Álvaro Fernando Rodrigues da Cunha é paraense radicado em São Paulo. É mestre e doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), jornalista, membro da Academia Brasileira de Letras e Presidente da Academia de Letras Indígenas do Brasil.