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cada ves mais exigentes

iPhone da Apple, que já foi símbolo de status na China, perde o seu brilho no país

Relatório de faturamento da Apple no 2º trimestre mostra que as vendas na China continental caíram 11º em relação ao mesmo período do ano passado 09/05/2016 às 20:08
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Foto: Gilles Sabrie/The New York Times
Paul Mozur © 2016 New York Times News Service Hong Kong / China

Desde 2010, Yu Kai repete o mesmo ritual a cada ano: sempre que um novo iPhone da Apple é lançado, ele se livra do antigo e vai até uma loja em Pequim para comprar o modelo mais novo.

Entretanto, este ano ele resolveu fazer diferente.

Ao invés de comprar o iPhone 6s, ele preferiu esperar para ver a cara do novo iPhone e contou que está até pensando em trocar por um modelo de outra marca.

Na China, onde a Apple se tornou sinônimo de riqueza e estilo, e onde muitos usuários trocam de celular uma vez ao ano, Yu não é exceção.

O relatório de faturamento da Apple no segundo trimestre mostrou como pode ser difícil chamar a atenção dos consumidores cada vez mais exigentes da China. Tim Cook, o executivo-chefe da empresa, afirmou em um comunicado que as vendas na China continental caíram 11 por cento em relação ao mesmo período do ano passado.

Cook destacou que, antes de caírem, as vendas haviam atingindo um recorde: no primeiro trimestre de 2015, foram 80 por cento maiores do que no mesmo período de 2014. Mas o declínio anunciado recentemente é um revés e tanto para uma das marcas mais adoradas pelos chineses.

Os jovens e os consumidores da classe média chinesa estão cada vez mais dispostos a testar os telefones das marcas concorrentes – incluindo a Huawei, a Meizu e a Xiaomi – que tentam concorrer com a Apple em sofisticação tecnológica e estética, oferecendo aparelhos centenas de dólares mais baratos.

Muitos consumidores como Yu, profissional liberal de 29 anos, afirmam que o telefone que usam é parte de sua identidade, o que os leva a considerar a compra de diversos modelos. Por essa razão, a Apple terá de lutar para manter sua posição de dominância no mercado de aparelhos de luxo.

A Apple também enfrenta outros obstáculos na China. Recentemente, as lojas virtuais iBooks Store e iTunes Movies foram fechadas por uma agência reguladora chinesa, apenas seis meses depois de começarem a operar no país. O conflito com o governo chinês sugere que a Apple poderá enfrentar novas pressões, à medida que o governo em Pequim começa a analisar de perto as operações de empresas norte-americanas no país.

Nos últimos quatro anos, para responder à forte demanda do mercado chinês pelos produtos da marca, a Apple aumentou para 35 o número de lojas no país e Cook afirmou recentemente que outras cinco seriam inauguradas até o fim de junho. A empresa também tirou proveito da gigantesca base de clientes da maior operadora de internet móvel da China, a China Mobile, que depois de anos de negociações fechou um acordo em 2013 que levou o iPhone para a operadora. O acordo contribuiu para que os consumidores chineses gastassem US$59 bilhões em produtos da Apple no último ano fiscal.

Porém, um dos desafios para a Apple este ano é o fato de que os modelos mais recentes do iPhone não trouxeram grandes mudanças em relação à geração anterior.

“Todo mundo comprou os aparelhos da linha 6”, afirmou Steven C. Pelayo, analista de tecnologia da HSBC em Hong Kong por e-mail, referindo-se aos modelos introduzidos no fim de 2014. Esses consumidores “não quiseram fazer o upgrade para o 6s, que trouxe apenas mudanças pequenas”, afirmou.

Qu Dewei, que vende smartphones há quatro anos em um shopping de produtos eletrônicos na zona leste de Pequim, afirmou que desde setembro, quando o 6s foi lançado, as vendas de iPhones andam fracas.

“Está ruim desde então; ruim de verdade”, afirmou Qu, apoiado no balcão da loja.

Durante uma tarde recente de quarta-feira, o shopping onde ele trabalha estava praticamente vazio. “Nenhuma marca está indo muito bem. Mas enquanto vendo um ou dois telefones Huawei a cada 10 dias, em geral não consigo vender nem um iPhone 6s”.

Durante anos, contrabandistas fizeram um ótimo negócio levando iPhones de Hong Kong para a China continental, onde são mais caros. Mas até mesmo os contrabandistas estão sentindo a pressão. Em entrevistas, quatro pessoas disseram que, embora tenham ganhado algum dinheiro no ano passado, agora deixaram de trazer telefones.

As vendas fracas do iPhone também resultaram em uma desaceleração no crescimento do enorme mercado de smartphones da China. Jason Low, analista do grupo de pesquisa Canalis, em Xangai, afirmou que acredita que o mercado de smartphones da China irá crescer apenas 4,7 por cento em 2016. Em 2013, o crescimento anual era de 50 por cento.

“Se você observar o mercado como um todo, a Apple não é capaz de espantar tantos concorrentes, como a Samsung e marcas locais tipo Huawei e Oppo. Todo mundo está tentando aumentar a média de preços dos aparelhos, e isso certamente vai afetar o fluxo de vendas da Apple.”

Apesar da pressão, Cook afirmou no comunicado que a Apple estava otimista em relação à China, mesmo que estivesse perdendo espaço no país. Já existe precedente para uma possível recuperação da marca: em 2012 e 2013, o crescimento das vendas da Apple diminui quando concorrentes como a Samsung passaram a oferecer telefones com telas maiores, que são muito populares na China. Quando a Apple finalmente lançou um telefone com tamanho de tela similar em 2014, a fatia de mercado voltou a crescer.

Sob muitos aspectos, a empresa está em uma situação similar hoje. Os telefones da linha Edge da Samsung se destacam com telas que são arredondadas em um dos lados, e muitas pessoas afirmam que a câmera do principal modelo da Huawei é melhor que a câmera da Apple. Isso pressiona ainda mais a Apple a colocar novos diferenciais no próximo iPhone, que devem ser lançado na segunda metade do ano.

Para Mo Chen, profissional de relações públicas de 26 anos e dona de um iPhone 5, o próximo smartphone da Apple precisa ser muito diferente do modelo atual para que ela continue com a marca.

Ela foi bastante clara em suas críticas: “O iPhone 6 e o 6s são muito feios”.

Muitos dos colegas de trabalho e ex-colegas de classe de Mo usam telefones Android, afirmou, e ela está pensando seriamente em comprar um aparelho da Samsung, da Coreia do Sul, ou um telefone fabricado na China pela ZTE ou pela OnePlus.

“Eu gosto muito da Apple. Meu computador também é da Apple. Mas nos últimos anos, especialmente depois que experimentei os telefones Android dos meus amigos, percebi que a marca perdeu muito do seu charme.”

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