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STAND UP, MUSICAL E MAIS

Já em Manaus, integrantes de ‘Hermes e Renato’ falam sobre espetáculo de humor

O grupo apresenta neste sábado (7), no Teatro Manauara, às 21h03, o espetáculo “Uma Tentativa de Show” 07/10/2017 às 11:00
Show hermes
Foto: Raine Luiz
Tiago Melo Manaus (AM)

Os anos 90 foram uma loucura no Brasil. Quem esteve lá viveu para ver coisas como a Banheira do Gugu e os Mamonas Assassinas serem exibidas na programação da TV aberta, ao vivo e a cores, para a tradicional família brasileira. Não é difícil, então, imaginar em um cenário como este o surgimento do programa “Hermes e Renato” já no finzinho da década. Levando-se em conta que os integrantes são todos “crias” dos anos 80, uma época ainda mais louca, se é que é possível, regada a muitas doses de Palhaço Bozo, fica fácil de entender de onde vem a qualidade trash, o humor nonsense e todo o escracho dos integrantes.

Surgido em 1999, a partir de uma brincadeira entre os amigos Marco Antônio Alves (vulgo Hermes), Adriano Pereira (mais conhecido como Joselito), Bruno Sutter (o lendário Detonator), Felipe Torres (o eterno Boça) e o saudoso cabeça do grupo, Fausto Fanti, que além de atuar como o “Renato”, que dá nome ao programa, interpretava personagens como o Palhaço Gozo e o Padre Gato, a trupe logo estourou na televisão, migrou para o YouTube e agora completa um ano e dois meses em cartaz nos teatros de todo o Brasil.

“A ideia de fazer uma peça que fosse também musical só se concretizou em julho do ano passado com o convite do Paulo Bonfá, que nos chamou para participar do Risadaria”, ressaltou Felipe. Para quem não lembra, Bonfá era apresentador do Rockgol ao lado de Marco Bianchi na MTV, outro dos programas clássicos do canal, lembrou Felipe.

Apresentação em Manaus 

Neste sábado (7), no Teatro Manauara, às 21h03, será a vez de Manaus conferir “Uma Tentativa de Show” do quinteto, que hoje conta com Franco Fanti no lugar do irmão, falecido em 2014. Para Adriano Pereira, contudo, depois de mais de 50 apresentações, todas com ingressos esgotados, já se pode dizer que o espetáculo, misto de dramaturgia com muito experimentalismo, dança contemporânea, imersão, improviso, musical e stand up, não é mais uma tentativa, mas sim um acerto.

“O desafio era sair da TV e adaptar para o teatro aquela linguagem pela qual ficamos conhecidos. Na televisão temos várias coisas que ajudam a potencializar o que a gente queria. No teatro a coisa é mais direta. Ainda bem que tem dado certo”, afirmou Adriano “Joselito”, candidato à presidência pelo PSN (Partido dos Sem Noção).

“O próprio lidar com o público é diferente. Na TV você só tem a câmera e a sua equipe. No teatro, você tem um público presente que reage diretamente a sua piada, você sente na hora se ele está animado ou não”, completou Bruno “Detonator”, o vocalista da banda de metal galhofa criado pelo grupo, Massacration.

Para sempre incorretos

E se a adaptação para um novo formato foi um desafio para o grupo, a adaptação para o humor dos novos tempos foi inexistente. “Fazer o nosso humor politicamente incorreto hoje em dia é a mesma coisa, não mudou nada”, explica Felipe “Boça”. “Para você né, que não teve um oficial de justiça batendo na sua porta logo de manhã”, brincou Bruno.

Felipe ressalta que a equipe, famosa por suas esquetes de baixo custo, recheadas com muito palavrão, satirizando tudo e todos, sempre teve a preocupação em não fazer de seus “alvos” alguém muito específico, mas sim exagerá-lo de forma caricata até que ele se tornasse irreconhecível, porém universal. “Se bem que, às vezes, eu saio mesmo na rua batendo nos outros, atropelando a galera e comendo cocô”, brincou Adriano.

 “De 99 para cá as coisas mudaram muito. A opinião das pessoas e elas mesmas mudaram, agora estão mais atentas ao que é uma piada preconceituosa. E isso tem um lado bom. Quando digo que nada mudou pra gente é porque sempre tivemos essa preocupação. Só que fazer humor é algo difícil de acertar, é delicado”, disse Felipe.

Franco admite que às vezes o grupo erra, já errou e vai continuar errando, mesmo sem querer. Na sua visão, a questão vai muito além do querer ou não querer ofender o outro, mas sim de quanto o outro é facilmente ofendido. “O humor é baseado na desgraça alheia, até mesmo um simples tombo. A premissa dele é a verdade ou a dor. No fundo mesmo, se o outro quiser se sentir ofendido com qualquer coisa, ele pode”, afirmou Franco. “Mas tem vezes que a gente zoa os outros e quer que se dane mesmo, não interessa”, atalhou Marco “Hermes”. 

Massacration is the law

Ao longo desses 18 anos de estrada, o “Hermes e Renato” já passou por altos e baixos: perderam um integrante, saíram da MTV, voltaram para a MTV, entraram em hiato. Nesse meio tempo não sobrou espaço para escrever o roteiro do espetáculo “Uma Tentativa de Show”, uma ideia que, segundo Felipe, já vinha sendo maturada desde 2003, um pouco antes do Massacration surgir e se tornar um grande fenômeno.

“Não que o Massacration tenha sido um empecilho. Estávamos a fim de curtir aquela fase musical e embarcamos nela. A gente é muito de fases né. Passamos pela TV, YouTube, agora teatro”, comentou Bruno. Quando questionados sobre de qual meio gostavam mais, Marco brincou: “eu gosto mesmo é de ficar à toa”.

Falando em Massacration, a banda criada pelo grupo em 2002 como uma sátira aos grupos de heavy metal e que acabou tomando proporções enormes e criando uma legião de admiradores, levando-os a fazer concertos de verdade e a lançar dois discos, um em 2005 e outro em 2009, está na ativa e em turnê.

“Estamos fazendo uma turnê do Massacration em paralelo com a peça. Uma correria. Em um final de semana tem show, no outro tem peça, depois show de novo e assim vai. O que é uma loucura muito legal. Ela traduz bem a pluralidade do grupo”, disse Bruno.

Criando entre amigos

Se questionados a darem uma definição do que é o “Hermes e Renato”, que não por acaso já foi chamado de a versão pobre de Monty Python (célebre grupo de comédia britânico), Bruno é o primeiro a responder.

“O Hermes e Renato retrata uma amizade linda, aqui não tem essa de ego, é um grupo onde todo mundo aparece homogeneamente”, disse Bruno, e por mais que ele diga isso em tom de brincadeira, antes de completar: “mas eu já vim a Manaus seis vezes por conta do Anime Jungle Party e eles nunca vieram aqui”, todos do grupo sabem que de fato se trata de uma amizade linda.

Na opinião de Adriano, isso se reflete no processo de criação do grupo. Segundo ele, o roteiro da peça foi feito do mesmo jeito que os primeiros episódios para a TV foram criados. “Debatemos as ideias, escolhemos o que fica e o que sai. Todo mundo participa. Nisso vamos fazendo um roteiro novo, misturando com jogos de improviso, partes musicais e esquetes com personagens variados da história do grupo”, concluiu ele.

Fato é que, sendo o Monty Python brasileiro, ou não, a versão pobre dele, ou não, o Hermes e Renato não tem nada de burro, como alegam alguns de seus detratores. O grupo sabe muito bem qual seu lugar no humor, a importância no coração dos fãs e aonde quer chegar. Para eles, o importante é não parar de tentar, mas para os fãs o show já está garantido.