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Amigo de Amado

Jorge Amado e suas visitas a Manaus

Escritor baiano passou um período na cidade durante a época do governo de Getúlio Vargas 17/09/2012 às 11:14
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Um dos vários momentos da estada de Jorge Amado em Manaus
Rafael Seixas Manaus

A linguagem humana, popular, das ruas, presente em personagens tão reais é um dos elementos e atrativos das obras de Jorge Amado (1912-2001). Não é à toa que este baiano, de origem humilde, é o escritor brasileiro que conta com mais títulos editados no planeta – em 52 países, traduzido para 49 línguas. Neste ano do centenário de Jorge Amado, o BEM VIVER buscou saber como foi a passagem do romancista por Manaus. A fonte desta reportagem foi o artista plástico Moacir Andrade, amigo pessoal de Amado.

O autor de “Gabriela”, “Dona flor e seus dois maridos” e “Capitães de areia” passou duas temporadas em Manaus. A primeira foi nos anos 40 quando Amado se refugiou em Manaus na época da ditadura de Getúlio Vargas.


 “Ele veio escondido, fugido da Bahia. O Jorge era comunista de carteirinha. Iriam prendê-lo, matá-lo, quem sabe, na Bahia. Ele pegou um navio e veio para cá porque Manaus era muito distante”, disse Andrade, que conta com um texto escrito por Amado no livro “Moacir Andrade - Vida e obra”, de autoria de Jackson Feijó, onde o baiano o parabeniza – por seus 50 anos de idade e 25 de carreira – usando o adjetivo “fabuloso” para definir os seus quadros.

Refúgio

Em sua primeira estada, o escritor ficou em torno de um mês na cidade, onde acabou fazendo muitos amigos, como Agnello Bittencourt (foi membro da Academia Amazonense de Letras e um dos fundadores do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), Epaminondas Baraúna (foi superintendente do Jornal do Commercio, entre outros). Na época, o artista não o conhecia, mas era amigo de pessoas que deram todo o suporte para Amado na cidade.

Passeio

Na segunda passagem, em 1977, tudo foi mais tranquilo, tanto que Jorge Amado trouxe sua esposa Zélia Gattai e seus filhos. Ele ficou hospedado na casa de Andrade, que lhe levou para conhecer os igarapés da região, o Mercado Municipal, entre outros lugares.

Segundo o artista amazonense, o escritor adorava tomar banho no igarapé e queria ver a realidade dos caboclos da região. “Uma das coisas que ele gostou de ver foi o Mercado Municipal, a praia que tinha lá na época. Ele disse que queria conhecer um bordel, mas não teve como ir porque a mulher dele estava toda hora por perto. Jorge era um cara pai d’égua”.

Em sua passagem pelo município de Manacapuru, o artista plástico afirmou que o baiano se emocionou ao ver a realidade de uma família moradora da região. “Ele queria ver a vida diária do caboclo. Uma vez ele chorou. Estávamos voltando de Manacapuru, mais ou menos às 13h, e paramos numa casa para ver se tinha algo para almoçar. Chegamos lá e só tinha peixe e farinha, era a comida deles mesmo, mas ele chorou ao ver aquelas crianças desnutridas, sem nada em casa. Ele apenas falou: ‘Essa é a realidade brasileira’”.

Amizade

Para finalizar, nada melhor do que contar como iniciou essa grande amizade, com encontros na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Londres. “Eu o conheci na década de 50. Estava em Brasília e governador da Bahia na época, Lomanto Júnior, me chamou para fazer uma exposição lá (Salvador).

Na mostra conheci o Jorge Amado, ele e outros escritores, pintores. Fiz uma amizade, dei um quadro para ele e ele me deu uma ‘porrada’ de livros, muitos nem tive como carregar”, disse. “O Jorge era um típico bonachão. Ele sabia falar com as pessoas, responder, olhar nos olhos, era um homem de uma tranquilidade enorme. Ele até parecia ser tímido, mas não era”, complementou. Jorge Amado faleceu em 2001 aos 88 anos de idade.