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Jornalista lança livro em defesa da saúde e bem estar durante o envelhecimento das pessoas

Em seu livro, Léa Maria discute não só o lugar do idoso no mundo atual, entre inserido e marginalizado, mas amplia o debate até a necessidade de políticas públicas adequadas a esse cenário de mudanças 22/07/2012 às 17:03
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A jornalista Léa Maria Reis, autora do livro "Novos velhos"
Jony Clay Borges ---

Já se ouve dizer que os 40 anos são os novos 30. O que isso reflete acerca do comportamento e da visão das pessoas quanto ao envelhecimento? E que mudanças decorrem desse novo posicionamento dos idosos na sociedade? Esses e outros temas são enfocados no livro "Novos velhos – Viver e envelhecer bem", que a jornalista carioca Léa Maria Aarão Reis lança em Manaus nesta sexta, dia 18, a partir das 16h, no plenário da Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM).

O evento faz parte da Aula Inaugural dos cursos de Especialização Latu Sensu em Gerontologia e Saúde do Idoso, e Gestão Pública, fruto de parceria entre a Universidade do Estado do Amazonas e a Assembleia Legislativa do Amazonas.

Em seu livro, Léa Maria discute não só o lugar do idoso no mundo atual, entre inserido e marginalizado, mas amplia o debate até a necessidade de políticas públicas adequadas a esse cenário de mudanças. Em entrevista a A CRÍTICA, ela fala um pouco sobre o livro e as questões que decorrem do processo de envelhecimento da população nos dias atuais.

Já se ouve dizer que os 40 anos são os novos 30. Como isso vem acontecendo, e que reflexos tem no comportamento e na visão das pessoas quanto ao envelhecimento?
Hoje é como se as pessoas tivessem ganhado mais dez anos de vida, por causa dos avanços da tecnologia e da medicina, que estão proporcionando longevidade maior a homens e mulheres. Uma mulher de 40 hoje parece ter 30, e uma de 60 para ter 50. Isso acarreta problemas incríveis, sejam emocionais, psicológicos, individuais, de adequações e tudo mais. 'Maravilha, ganhei dez anos!' Mas que dez anos são esses? Isso gera questões psicológicas para o indivíduo, e problemas para o Estado, que é chamado a desenvolver políticas públicas de atendimento para esses idosos que estão por aí. Nos países ocidentais desenvolvidos, o que ocorreu foi que eles desenvolveram suas economias e depois suas populações começaram a envelhecer. No Brasil ainda estamos consolidando nossa economia e tornando-a sustentável, e em paralelo a população está envelhecendo. Isso força o Estado a implementar políticas públicas que vão se tornando necessárias, mas não no ritmo para acompanhar as mudanças em curso.

A população de idosos vem aumentando, mas as pessoas estão conseguindo envelhecer melhor?
Acredito que sim. Temos que considerar que o Brasil é um país com desigualdade de renda das maiores do planeta, então é preciso levar em conta os idosos ricos, os de classe média e os pobres, que só recentemente começaram a ter acesso a um atendimento especializado. Esse atendimento – que engloba SUS (Sistema Único de Saúde), equipes especializadas em Geriatria e Gerontologia – está avançando. Percebo que no Amazonas já existem vários programas para essa população que é enorme, de quase 100 mil pessoas com mais de 60 anos só em Manaus, segundo o último censo. E tem a "velhice dourada": os idosos que têm um plano de saúde, que têm recursos para atendimento psicológico, que não adoece fácil.

Afora o nível econômico-social, o que muda entre uma e outra dessas pontas?
Entre os idosos menos abonados, existe uma grande solidariedade de vizinhança, amigos e parentes, maior que entre os idosos com mais recursos. Falo disso num capítulo do livro, em que entrevisto a Ana Amélia Camarano, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Quando um desses idosos vai a uma consulta médica, vai com acompanhante, ou enfermeiro, pois parentes, filhos ou netos não têm tempo de acompanhá-lo. Assim, ele vai só, e depois o parente liga, quando liga. Já o idoso do SUS tem sempre um vizinho nas favelas ou comunidades que ajuda. É um movimento espontâneo, silencioso, mas ativo e bonito de solidariedade. Tem alguém que empresta um carro, a filha de um vizinho que vai junto, há toda uma rede de solidariedade.


Em que posição estão as políticas públicas em relação ao idoso no Brasil?
Há um conjunto de políticas públicas que está avançando. O Estatuto do Idoso, de 1993, é um avanço. Quase ninguém conhece, mas é um documento muito importante, pois normatizou uma série de vivências dos idosos e serve de modelo para diversos outros países. Temos de avançar muito mais, pois está ainda muito devagar, mas acho que hoje o idoso, tanto o mais pobre como o de mais recursos, tem uma vida melhor que há uma ou duas gerações atrás. Antigamente, quando o homem se aposentava, botava o chinelo e se retirava para os seus aposentos – daí a origem da expressão "aposentado". Assim, caía na depressão, sofria de Alzheimer, Parkinson e outros males degenerativos. Hoje você vê idosos, principalmente da classe média, muito inseridos ainda no mercado de trabalho.

Onde houve melhorias, e onde ainda é preciso avançar?
O mercado de trabalho ainda descarta o profissional idoso, mas nos Estados Unidos e na Europa, você vê muitos atuando ativamente. Na minha área, que é o jornalismo, por exemplo, você vê jornalistas velhos, de 70, 75 anos, escrevendo ainda e agindo, interferindo nos assuntos políticos do país.

Aqui ainda existe uma discriminação grande, principalmente no Rio de Janeiro, onde a obsessão do físico é grande. A pessoa de 40 ou 50 anos já é posta de lado. Isso ajuda a gerar essas modificações nas faixas etárias, e não só pelas vaidades da cirurgia plástica: você vê em Brasília todos os políticos de cabelos pintados, com tratamentos estéticos, tudo por uma necessidade de se manter à tona no mercado de trabalho. O Brasil é um país que se olha no espelho e se acha jovem. Há uma tendência a se discriminar menos, mas ainda se discrimina. Por isso fiz questão de usar o título "Os novos velhos", porque acho que é hipocrisia chamar de Melhor Idade, Feliz Idade, Terceira ou Quarta Idade. Não tem essa classificação. No Brasil, os velhos deveriam ser chamados de velhos, ou idosos.


Como define o livro? Quais os temas e questões enfocadas na obra?
É um livro jornalístico, não de autoajuda, a ideia é que seja de informação também para o leitor. Há um capítulo com o Euler Ribeiro sobre alimentação e aposentadoria no Brasil, pois ele foi relator da Constituição na questão da previdência social. Há uma entrevista com um neuropsiquiatra que fala da vida dos idosos, e como ela pode ser difícil no caos urbano.

Há uma psicanalista que trabalha com grupos de pessoas mais velhas, e que fala da necessidade de espiritualidade cada vez mais desenvolvida. Tem toda a parte histórica do envelhecimento, de grandes figuras, até da literatura, como é o caso de Victor Hugo, que foi longevo e deixou uma obra importante. E abordo a questão da sexualidade também, que é muito fechada entre os idosos, pois as mulheres falam pouco. Nesse tema remeto à Simone de Beauvoir. Há ainda um bloco de capítulos com depoimentos de mulheres de mais de 60 anos, da Dona Maria da Rocinha até a professora bem sucedida da Zona Sul carioca, falando de como vivem suas vidas.

O que atraiu seu interesse para investigar o tema do envelhecimento?
Foi seguindo o meu próprio envelhecimento. Todas as questões começaram a se colocar para mim à medida que fui envelhecendo. Escrevi na meia idade uma trilogia, com os livros "Maturidade", "Além da idade do lobo" e "Cada um envelhece como quer (e como pode)". Dei dois cursos na Casa do Saber (RJ) sobre a nova velhice, e foram bem concorridos. O livro nasceu dessa ideia – eu própria me sentindo envelhecer, sofrendo discriminação no trabalho, sendo uma mulher mais velha na vida urbana – e desse curso mais recente, no verão de 2011. Lancei o livro no final de 2011, e desde lá tenho feito vários lançamentos em vários lugares.