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Homenagens Bacellar

Luiz Bacellar recebe homenagens póstumas nas redes sociais

Cinco dias após completar 84 anos de idade no último dia 04, o poeta Luiz Bacellar morre em conseqüência do câncer no pulmão. Com a morte de Bacellar, a poesia amazonense perde seu maior nome 10/09/2012 às 18:48
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Além de poeta, Luiz Bacellar tambem foi revisor, professor e tradutor
acritica.com Manaus

Cinco dias após completar 84 anos de idade no último dia 04, o poeta Luiz Bacellar morreu em conseqüência do câncer no pulmão. Bacellar faleceu neste domingo (9), por volta de 13h30, na Fundação de Centro de Controle Oncologia do Estado do Amazonas (FCecom), onde voltou a ser ficar hospitalizado no último dia 06. Com a morte de Bacellar, a poesia amazonense perde seu maior nome.

Luiz Bacellar foi enterrado nesta segunda-feira, às 15h30, no Cemitério São João Batista. O velório foi iniciado na noite de domingo, na Funerária Almir Neves, na rua Joaquim Nabuco, Centro.

Apesar da doença, das dores e do extremo mal-estar, Luiz Bacellar não se opôs à iniciativa de um pequeno grupo de amigos (escolhidos por ele próprio) de se reunir no dia de seu aniversário, na última terça-feira.

No aniversário, 12 amigos se reuniram com Bacellar no Café do Pina, um bar localizado no Centro de Manaus. Segundo Zémaria Pinto, um dos integrantes do pequeno círculo de amigos mais chegados, o poeta comportava-se sorridente, mas consciente de que estava prestes a falecer.

Nem nos momentos mais adversos ele deixou o humor ácido e a ironia de lado. “Na véspera do aniversário dele, ele chamou e disse: ‘Eu tenho uma novidade. Amanhã eu vou morrer´. E começou a rir”, contou Pinto.

Dores
No último dia 06, Bacellar deu entrada no FCecom porque estava sentindo muitas dores e falta de ar. Há algum tempo Bacellar vinha residindo na Fundação Doutor Thomas, após vários anos morando, sozinho, em uma residência no Centro da cidade. Nos últimos meses, ele também vinha se recuperando de um acidente do qual foi vítima após ser atropelado e ter fraturado uma das pernas.

Izanira Oliveira, uma das cuidadoras de Bacellar, disse que ao ser internado no último dia 06, Bacellar “estava muito ruim”. Não se sabe se por ironia ou por desejo genuíno, ele comentou com Izanira, segundo ela, de que percebeu que iria morrer e chegou a comentar que “queria se encontrar com Jesus”.

Homenagem
Assim que se espalhou, a notícia da morte de Luz Bacellar se propagou em posts das redes sociais. Amigos e admiradores lamentaram a morte do poeta. Uma delas era a poeta, escritora e jornalista Regina Melo, que postou vários dos “rondeis de fruta” publicados no livro “Sol de Feira”. Outros poetas conhecidos também ligaram para Zemaria Pinto para saber da notícia, como Jorge Tufic e Astrid Cabral.

Regina Melo qualificou Bacellar como “primoroso com a poesia” e dono de um texto escrito de maneira limpa, consciente e elegante. “Sua poesia transpira prazer, contentamento, entusiasmo! Pra mim, é o maior poeta que o Amazonas teve até hoje! Conheci-o num programa da TV Cultura, para o qual gravamos a Balada das 13 Casas e nos aproximamos. Ele chegou a me questionar sobre porque eu ter direcionado o meu trabalho para a área da antropologia. Depois vim a descobrir que ele tinha formação na área da Antropologia Cultural. Seus versos são inspiradores, delicados e raros”, relatou Regina.

Zemaria Pinto descreveu Bacellar como um poeta que conseguia se fazer entender pelo público em geral, mas era também um poeta dos poetas. “Ele escreveu ‘Sol de Feira´ e “Frauta de Barro´, que são livros fáceis. Mas tem o caso de ‘Quatro Movimentos’, um livro desafiador que não tem leitura fácil. Esses três livros o coloca entre os maiores poetas brasileiros contemporâneos”, contou Pinto.

Manaus
Irônico, muitas vezes ranzinza e impaciente. Luiz Bacellar não nasceu para ser um homem comum. Falava várias línguas, que ele aprendeu sozinho. Era um leitor compulsivo e uma de suas maiores características era seu pendor para ler rápido.

Também era inconformista e muito indagador dos fatos da cidade. Era ávido leitor de jornais e sempre aproveitada para comentar e apontar erros ortográficos e de semântica aos amigos.

Pelos seus versos, Bacellar tratou Manaus com carinho, relatando fatos corriqueiros da cidade, incluindo casos da crônica policial. Por meio de suas odes saudosas e amorosas à passagens de infância e juventude, a maior parte delas vividas no Centro, foi possível o quanto ele amou Manaus, apesar de extremamente crítico.

Inventivo, Bacellar também produziu versos elaborados para objetos triviais e situações banais e pitorescas, dando-lhes um olhar refinado. Em vida, obras como “Sol de Feira”, “Frauta de Barro”, “Quarteto” e “Satori” já haviam se tornando clássicas.

Sua estreia na literatura foi com “Frauta de Barro”, lançada em 1963, um ano após ganhar o Prêmio Olavo Bilac, no Rio de Janeiro, em um julgamento analisado por Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e José Paulo Moreira da Fonseca.

No final de 2011, o livro foi reeditado, em uma versão de luxo, pela editora Valer. Era intenção dos editores fazer um lançamento com a presença do poeta, plano que nunca foi concretizado devido à débil saúde de Bacellar.

Em declaração anterior, Zemaria Pinto comentou que, apesar de pequena, a obra de Bacellar é muito densa. Ele citou o exemplo de “Sol de Feira”, de 1973, considerado por Ponto como “um dos livros mais emblemáticos da poesia brasileira”. “Regionalista na aparência, poucas coleções de poemas são dotadas de tanta universalidade”, destacou.

Uma das atividades pouco conhecidas de Bacellar foi o seu trabalho como revisor do jornal A Crítica durante vários anos. Um de seus livros, “Sol de Feira”, foi lançado pela editora do fundador do jornal, Umberto Calderaro. Outra peculiaridade pessoal de Bacellar é que ele apaixonado por felinos domésticos e tinha uma particular admiração pelo gato da raça abissínio.