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CINEMA

Filme ‘Ex-pajé’ estreia em Manaus contando história de índio perseguido por evangélicos

Filmado em Rondônia, o longa-metragem chamou a atenção de críticos nacionais e internacionais. Obra vai ser exibida no Cine Casarão a partir de quinta (17) 14/05/2018 às 11:43 - Atualizado em 14/05/2018 às 15:59
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Perpera Suruí não dorme no escuro porque alega que os espíritos da floresta batem nele (Fotos: Divulgação)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

Vestido num terno, com sapato maior que o próprio pé e com o rosto tatuado em desenhos gráficos étnicos: assim o indígena Perpera Suruí foi conhecer o cineasta e antropólogo Luiz Bolognesi, no território dos Paiter Suruí, em Rondônia. Os dois se conheceram durante a formatação de um projeto de Luiz, onde ele entrevistaria oito pajés, para contar sobre suas histórias. Só que, curiosamente o índio se denominava um ex-pajé.

Ao questionar o porquê de Perpera se apresentar daquela maneira, Bolognesi teve a resposta. “Ele me explicou que não estava daquele jeito porque queria, mas porque estava sendo perseguido por um pastor evangélico”, conta Luiz. A espécie de renúncia ao cargo de pajé fez Perpera adquirir novos medos - e a despertar novas iras. “Ele tinha que dormir de luz acesa para que os espíritos da floresta não batessem nele, porque ele tinha parado de tocar as flautas. Perpera havia cortado a conexão da aldeia com os espíritos da floresta ao parar de ser pajé. Os espíritos ficaram bravos com isso”, diz Luiz.

O longa-metragem “Ex-Pajé”, conta a história do indígena que estava sendo perseguido por membros de uma igreja evangélica fundamentalista. “Até porque eu descobri que não é um caso só com ele. Está acontecendo no Norte de Roraima: a entrada das igrejas evangélicas tentando destruir a cosmogonia indígena”, lembra Bolognesi. O filme estreou no dia 26 de abril e terá a sua estreia em Manaus nesta quinta (17), no Cine Casarão.

Pessoal

De acordo com Luiz, que é diretor e roteirista do filme, o objetivo era filmar o drama interior do personagem, e a questão era: como filmar o drama interior de um personagem em conflito? “Escolhemos a sutileza. O filme mostra que ele foi transformado em zelador da igreja. Tem um culto em que ele fica observando os insetos da floresta. O olhar na porta da igreja transforma o que seria um ritual de humilhação em um ritual de resistência. Nós tratamos o drama do personagem através de poesia”, conta ele.

A ligação dos indígenas com os rios vivos e com as florestas que estão de pé também são foco da abordagem cinematográfica, além de mostrar uma aldeia moderna, onde os índios têm celulares e motos, mas não deixam se ser índios. “Falamos sobre como eles lidam com o tempo de maneira mais madura que a gente. Noto que enquanto somos os escravos, eles são os senhores do tempo. São serenos, nada ansiosos. Nós nunca estamos aqui: estamos sempre pensando no que vamos fazer na hora seguinte. Eles vivem intensamente o aqui e agora”, declara Luiz.

História

Perpera exercia a sua função como pajé sem interrupções até 1969, quando os brancos chegaram à aldeia. Entre 69 e 72, morreram cerca de 400 índios, vitimados pela gripe, sarampo, catapora e varíola. “Foi nessa época que chegou o pastor batista que aparece no filme, levando aos índios o discurso de que eles estavam morrendo porque não aceitaram a Jesus, e que se eles o aceitassem, ficariam bons. Isso coincide com a entrada dos remédios na aldeia. Na sequência, ele começa a dizer que tudo o que o pajé faz é coisa do diabo e começou a jogar os indígenas contra o pajé”, conta Luiz, sobre o que captou em suas pesquisas.

Não foi um processo fácil: durou quase 40 anos. Os pajés foram ativos até mais ou menos 8 anos atrás naquela região. “Nos últimos 8 anos, os pajés tiveram que se declarar ex-pajés porque não aguentavam mais a perseguição; que envolvia ver seus objetos de reza serem queimados pelos evangélicos, que envolvia os religiosos indo de casa em casa para queimar a rede dos índios, dizendo que cristão não dorme em rede, mas sim em cama. Isso começou em 73 e dura até hoje”, lamenta o antropólogo.

Repercussão e movimento

Com o lançamento de “Ex-pajé”, os fatos explodiram na mídia nacional e internacional, e ganharam bastante repercussão, segundo o diretor. “No movimento indígena, várias lideranças fizeram um texto defendendo os pajés e falando sobre a violência dos evangélicos com os indígenas. O manifesto foi lido no Festival de Berlim, e saíram matérias na Variety, a revista de cinema mais importante do mundo, bem como nos jornais da Alemanha e numa agência de notícias na Espanha, que divulgou o manifesto indígena brasileiro nos países de língua latina”.

Premiações e ficha técnica

Filmado em Rondônia, “Ex-pajé” e chamou a atenção dos críticos nacionais e internacionais: venceu o prêmio da crítica Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) de melhor Documentário de longa ou média-metragem da Competição Brasileira do festival “É Tudo Verdade”. Em fevereiro deste ano, recebeu o prêmio especial do Júri Oficial de Documentários da Mostra Panorama, no Festival de Berlim.

No elenco do filme estão Perpera Suruí, Kabena Cinta Larga, Agamenon Saruí, Kennedy Suruí (Caciquinho), Ubiratan Suruí (Bira), Mopidmore Suruí (Rone) e Arildo Gapamé Suruí. O longa foi produzido pela Buriti Filmes e Gullane, que também assina a distribuição.

Serviço

O quê: estreia do filme "Ex-pajé" em Manaus
Onde: Cine Casarão, na rua Barroso, 279, Centro
Quando: dia 17 (às 16h e às 20h30); dia 18 (às 20h30); dia 19 (às 16h) e dia 20 (às 18h)

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